BLOG CATÓLICO PARA OS CATÓLICOS.

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"Uma vez que, como todos os fiéis, são encarregados por Deus do apostolado em virtude do Batismo e da Confirmação, os leigos têm a OBRIGAÇÃO e o DIREITO, individualmente ou agrupados em associações, de trabalhar para que a mensagem divina da salvação seja conhecida e recebida por todos os homens e por toda a terra; esta obrigação é ainda mais presente se levarmos em conta que é somente através deles que os homens podem ouvir o Evangelho e conhecer a Cristo. Nas comunidades eclesiais, a ação deles é tão necessária que, sem ela, o apostolado dos pastores não pode, o mais das vezes, obter seu pleno efeito" (S.S. o Papa Pio XII, Discurso de 20 de fevereiro de 1946: citado por João Paulo II, CL 9; cfr. Catecismo da Igreja Católica, n. 900).

domingo, 6 de dezembro de 2020

O PODER DA NOSSA ORAÇÃO UNIDA À DE JESUS, NO SANTO SACRIFÍCIO DA MISSA.

 


Na Santa Missa,

Jesus Cristo Renova a Sua Oração.


Temos por Advogado, junto ao Pai,

Jesus Cristo que é Justo e Santo;

porque é a Vítima de propiciação

por nossos pecados”.1


De certo uma consoladora segurança para nossa salvação, termos por Advogado o próprio Filho de Deus, o Juiz dos vivos e dos mortos! Mas onde e quando Jesus Cristo desempenhou este ofício?

A Igreja ensina que é nosso Advogado não somente no Céu, mas também na terra.

Eis a doutrina de Suarez: “Cada vez que o Santo Sacrifício da Missa é oferecido, Jesus Cristo intercede por quem O oferece e também pelas pessoas em cuja intenção é oferecido”.2

São Lourenço Justiniano descreve assim a maneira de orar de Nosso Senhor: “Enquanto o Cristo é imolado sobre o altar, clama a seu Pai e mostra-Lhe suas Chagas para preservar os homens da condenação eterna”.3

Este zelo do Sagrado Coração pela nossa salvação já foi indicado por São Lucas: “Jesus subiu ao monte para fazer oração, onde passou a noite, orando a Deus”.4

E em outro lugar: “De dia ensinava no templo e de noite retirava-se à montanha, chamada das oliveiras”.5 Ou então: “Ele se foi, segundo seu costume, ao monte das oliveiras, para nele orar”.6

Isto diz claramente que Jesus tinha o costume de passar a noite em oração. Durante sua peregrinação, cada uma de suas ações era acompanhada da oração; no término desta Santa vida, o adeus a seus discípulos, foi a oração suprema do Sumo Sacerdote por excelência; suspenso na Cruz, orava por seus inimigos e, quando chegou o momento de voltar a seu Pai celeste, levantou a mão sobre seus discípulos em uma última bênção, e subiu ao Céu, onde seu Coração continua a interceder pelo gênero humano.



Ora, na Santa Missa, Jesus dirige a seu Pai todas estas orações reunidas: mostra-Lhe as lágrimas, os gemidos que as acompanharam; enumera as noites passadas em jejum e oração; oferece todos esses méritos pela salvação do mundo, particularmente por cada um dos que assistem à Missa. Ó Deus, que eficaz oração! Como o perfume do incenso, ela se eleva para o Pai celeste, para o trono da Santíssima Trindade! Jesus Cristo não ora somente, imola-se também pela salvação do mundo.

Santa Gertrudes explica este Mistério do modo seguinte: “Vi, na elevação, Nosso Senhor erguer, com as próprias mãos e sob a forma de um cálice, seu dulcíssimo Coração que apresentou a seu Pai. Imolou-se então em favor de sua Igreja, de uma maneira incompreensível à criatura”. Jesus confirmou isto quando disse a Santa Matilde: “Eu somente sei e compreendo perfeitamente como Me ofereço cada dia a meu Pai pela salvação dos fiéis; nem os Querubins nem os Serafins nem as Potestades podem concebê-lo inteiramente”.

Notai que Nosso Senhor não se oferece na Santa Missa com a Majestade que tem no Céu, porém, em uma incomparável humilhação. Do abismo de sua humildade, sua voz eleva-se tão poderosa para o Céu que traspassa as nuvens e atinge o trono da misericórdia.

Quando o rei de Nínive teve conhecimento dos castigos que ameaçavam a cidade no prazo de quarenta dias, levantou-se do trono, despiu as vestes reais, cobriu-se de roupas de luto, deitou cinza sobre a cabeça e pediu a todo o povo que implorasse a misericórdia divina.

Por causa desta humildade e dessa penitência, o rei pagão obteve perdão para si e para a cidade culpada.

Que não obterá Jesus Cristo, que se humilha muito mais na Santa Missa, na qual, deixando o trono de sua glória, reveste as pobres aparências do pão e do vinho e clama ao Deus de misericórdia: “Graça e perdão para meu povo! Meu Pai, considera minha abjeção; eis-me aqui diante de Vós, não como um homem, mas semelhante a um verme da terra; os pecadores levantam-se contra Vós, cheios de orgulho; eu me humilho em vossa presença; eles Vos irritam, eu, por meu aniquilamento, quero aplacar-Vos; eles chamam sobre si vossa justa vingança, eu quero desviá-la por minhas instantes súplicas.

Tende piedade deles por amor de mim, meu Pai, e não os castigueis à medida de suas iniquidades. Não os entregueis a Satanás, porque são meus, resgatei-os com o preço de meu Sangue. E, Pai Santíssimo, imploro sobretudo a vossa misericórdia em favor dos pecadores aqui presentes, pelos quais renovo, durante esta Missa, minha vida e minha morte. Dignai-Vos, em virtude de meu Sangue e de minha morte, preservá-los da morte eterna”.

Oh, Jesus, até onde Vos arrasta o amor para conosco e por que meio poderíamos melhor correspondê-lo senão assistindo, cheios de piedade, à Santa Missa?

Quando o divino Salvador se achava suspenso na Cruz, recomendou a seu Pai os fiéis que estavam ao pé da árvore da salvação e lhes aplicou, mui especialmente, os preciosos frutos. Do mesmo modo ora pelos assistentes, principalmente pelos que recorrem à sua mediação. Ora por eles tão ardentemente como O fez no momento de sua morte, pelos seus inimigos.



Oh, poderosa oração! Quanto não fortifica nossa esperança da vida eterna, já que vemos o mesmo Filho de Deus tomar em suas mãos os interesses de nossa salvação!

Se a Santíssima Virgem te aparecesse e dissesse: “Não temas, meu filho, prometo-Te encarregar-Me de teus interesses; pedirei instantemente a meu Filho, Jesus Cristo, e não cessarei de pedir até que Ele me assegure tua felicidade eterna”, tua alma não seria transportada de júbilo e não exclamaria: “Agora estou consolado, não tenho que duvidar, minha salvação está segura?”

Se temos, pois, uma tão grande confiança na intercessão de Maria Santíssima, porque esta confiança não será absoluta, quando se trata da intercessão de seu divino Filho, que não promete somente seu socorro, mas ora por nós em cada Missa que ouvimos, e faz, por assim dizer, violência à Justiça de Deus, para nos poupar o castigo merecido?

E Ele não ora só. Com Ele intercedem, como outras tantas vezes, suas lágrimas, suas Chagas, seu Sangue, todos os seus suspiros de amor. Quem poderá medir o efeito dessas súplicas sobre o coração do Pai celeste?

Muitas vezes te lastimas da falta de fervor em tuas orações. Na Santa Missa, Jesus Cristo orará contigo e suprirá a imperfeição de tua oração. Escuta como convida a todos afetuosamente:

Vinde a mim vós todos que sofreis e que vos achais em tribulações”;7 isto é: Vós todos que não podeis orar com ardor, vinde a mim e orarei por vós. Por que, alma aflita e atribulada, não te rendes a este tão terno convite? Por que não corres à Santa Missa?

Em tuas tribulações recorres a amigos para pedir-lhes uma oração. Que é, todavia, a oração dos homens comparada com a oração e intercessão de Jesus Cristo? Tua miséria é extrema, o perigo de tua condenação eminente. Dize, pois, a Jesus: “Senhor, quem poderá salvar-se?”, e responder-te-á: “O que é impossível aos homens é fácil a Deus”.8

Recorre, pois, a este Deus Salvador, que bem quer te assegurar uma morada na casa de seu Pai.

Como? Me dirás, um pobre indigente como eu, reclamar as orações do Filho de Deus? Sou indigno disso e não o ousarei. – Oh, não fales deste modo! Convence-te antes que um só de teus suspiros te dá todo poder sobre seu Coração. São Paulo o afirma: “O Pontífice que temos, não é tal que não possa compadecer-se de nossas fraquezas, porque todo pontífice é tomado dentre os homens, e é estabelecido para os homens, no que diz respeito ao culto de Deus, para que ofereça dons e sacrifícios pelos pecados”.9

Jesus Cristo é Pontífice, exerce seu Sacerdócio na Santa Missa, sua missão é, portanto, orar pelo povo e oferecer o Sacrifício por ele; e não se desobriga desta missão por todos em geral, mas por cada um em particular; assim como sofreu por todos e por cada um, assim se interessa por cada alma de tal sorte, como se fosse a única a salvar.



Eis o zelo, o poder da oração de Jesus no Santo Altar. Juntemos-lhe nossas pobres súplicas e se tornarão excelentes. “As orações feitas em união com o Santo Sacrifício da Missa, disse o Bispo Fornero de Hebron, são mais poderosas que todas as outras, mesmo as que duram longas horas, e até as orações extáticas, por causa da Paixão e Morte do Senhor, que manifestam sua eficácia na Santa Missa, por uma admirável efusão de graças. Porque, como a cabeça ultrapassa em dignidade todas as outras partes do corpo, assim a oração de Jesus Cristo, que é nossa Cabeça, ultrapassa as orações de todos os cristãos que são os membros de seu Corpo Místico”.10

Uma moeda de cobre torna-se preciosa se é lançada no ouro em efusão; a pobre oração do homem, unida à de seu Salvador, adquire um caráter de alta nobreza e pode ser ofertada como um dom agradável à divina Majestade. Deste modo, uma oração menos fervorosa, oferecida na Missa, vale mais que uma oração fervorosa feita em casa.

Muito se prejudicam os que, podendo assistir à Santa Missa e durante esta ocupar-se com os exercícios de piedade que costumam fazer em casa, se afastam do Santo Sacrifício. Porque, se fizessem as suas orações durante a Santa Missa com a intenção de assisti-la e somente durante os momentos da Consagração interrompessem as suas orações, a fim de adorar o Corpo e o Sangue de Nosso Senhor, ganhariam graças e méritos muito maiores do que se rezassem em seu oratório particular.


_____________________

Fonte: “Explicação da Santa Missa”, pelo Venerável Martinho de Cochem, O.F.M.Cap., Cap. VII, pp. 106-114. 2ª Edição, Typ. de S. Francisco, Bahia, 1914.

1.  I Jo. 2, 1.

2.  Tom. 3, disp. 79. sect. 21.

3.  Serm. De Corp. Christi.

4.  Luc. 6, 12.

5.  Luc. 21, 37.

6.  Luc. 22, 39.

7.  Mat., 11, 28.

8.  Marc., 10, 26-27.

9.  Heb., 5, 1.

10.  In Miser. Conc. 83, n. 10.


quinta-feira, 3 de dezembro de 2020

A PRIMEIRA SEXTA-FEIRA DO MÊS DE DEZEMBRO.

 

Coração de Jesus, modelo de fidelidade.

Oh! Quanto o belo Coração de Jesus é fiel para com aqueles que ele chama a seu santo amor! Ele não pode deixar de cumprir tudo o que prometeu.1 Ora, ele prometeu ser fiel; ele diz a cada alma que se lhe quer dar: Pois que me dais vosso coração, consinto também em vos dar o meu, contraio aliança convosco;2 desposo-vos para sempre.3

Muitas vezes acontece, ai! Que a alma cai na infidelidade e abandona a Jesus Cristo; mas Ele mesmo abandonar a alma primeiro, faltar-lhe na fidelidade, é o que nunca aconteceu nem jamais acontecerá. O que acontece sempre, é o seguinte: Jesus tem um Coração tão fiel que, quando é abandonado, traído, desprezado por uma criatura infiel, vai a sua procura, exortando-a, convidando-a, instando com ela para que torne à Sua amizade. No mundo, quando um esposo se vê abandonado por sua esposa, longe de querer se reconciliar com ela, para sempre a repudia: mas o Esposo divino não procede assim; estimulado por amor extremo, Ele faz todos os esforços para reconquistar a alma que O deixou: pede, exorta, convida, promete, ora, suplica, a fim de que ela se digne ao menos responder a um Coração que nunca lhe faltou com a fidelidade.

Esta verdade é confirmada pelo exemplo da Sinagoga, que, de esposa querida do Senhor, como Ele se dignou lhe chamar, tornara-se adúltera, abandonando seu Deus para se entregar à idolatria, e prostituindo-se assim, não a um só, mas a todos os Demônios de uma vez. Escutai o tocante discurso que lhe dirige o Senhor: “Tua infidelidade para comigo é enorme: tu me traíste e abandonaste para te entregar a uma multidão de horríveis amantes; tu me ultrajaste por tantos abomináveis adultérios, quantos são os Demônios ante os quais te prostraste.4 Não há lugar que não tenha sido testemunha de tua infidelidade.5 Se um homem chega a deixar sua mulher, e esta se dá a outro, acontecerá jamais que ele a torne receber, ainda quando ele mesmo fosse o primeiro a abandoná-la? Entretanto, vê a bondade de meu Coração! Bem que seja eu abandonado, traído, vergonhosamente rejeitado de ti, convido-te, exorto-te, e te conjuro a voltares para mim; estou pronto a receber-te. E de que maneira, ó meu Deus, recebereis esta esposa infiel? Ela me será tão cara como antes: eu a receberei com o amor de outrora; quero até que ela me chame seu Pai, e me trate como esposo, guarda de sua virgindade, como se ela me houvesse sido tão fiel sempre, como eu a ela.6 Venha sem temor; recebê-la-ei como minha filha ainda inocente, e como se nunca tivesse manchado sua virgindade.

Tal é a linguagem cheia de ternura que o Senhor usava com a pérfida Sinagoga: tal é também a que Ele usa para com toda alma que lhe foi infiel. Que bondade! Que caridade!… Ainda que rejeitado e traído, Ele corre após as almas que O abandonaram, e pede-lhes para voltarem para Ele! Ai! O amável Jesus se vê muitas vezes traído: almas há que receberam Dele singulares favores, e O deixam por uma miserável paixão. Sim, almas há que deveriam experimentar a mais pungente dor por não ver o Coração de Jesus amado de todos os homens, e conservam seu coração apegado às criaturas.

Quais são as causas ordinárias desta infidelidade? Três: a falta de oração, o amor do mundo, e as paixões do coração.

A falta de oração faz que Deus nos retire seu socorro; e sem o socorro de Deus não podemos observar seus Mandamentos. Donde vem, dizia o sábio Bispo Abelly, a relaxação que se nota nos costumes, senão da falta de oração? Deus está sempre disposto a nos enriquecer com suas graças; mas, como observa São Gregório, quer que lh'as roguemos e de algum modo o forcemos por nossas importunações a nos escutar.

O amor do mundo dificilmente se concilia com a fidelidade a Deus. São João nos diz: Todo o mundo é sob o poder do espírito maligno;7 o que Santo Ambrósio explica assim: Todos os que vivem no mundo, estão sob o poder tirânico do pecado. O ar do mundo é nocivo à alma: aquele que o respira, contrai facilmente alguma enfermidade espiritual. O respeito humano, os maus exemplos, as más companhias, são causas poderosas que levam a separar de Deus; todos sabem que as ocasiões perigosas, tão frequentes no mundo, perdem grande número de almas.

Enfim, as paixões são nossos mais terríveis inimigos. Há pessoas que praticam muitas devoções, comunhões, orações, jejuns e penitências corporais; mas desprezam vencer suas paixões, por exemplo, certos ressentimentos, certas aversões, certas curiosidades, certas afeições perigosas; não sabem suportar as contrariedades, desapegar-se de certas pessoas, submeter sua vontade à obediência. Estas pessoas não somente não atingirão a perfeição, mas, continuando a seguir suas paixões, vão de mal a pior e tornar-se-ão infiéis a Deus. A menor faísca que não se extingue, pode fazer arder toda uma floresta;8 e uma paixão não reprimida pode conduzir a alma à sua perdição.

Prática

Quando eu perceber que me torno negligente na oração, meu coração se deixa ir ao amor do mundo, as paixões tomam ascendência no meu procedimento, renovarei minha resolução de ser todo para Jesus, dizendo com Santa Inês: Eu sou de Jesus; só quero a Jesus; consagro ao seu Coração amabilíssimo amor eterno.



Afetos e Súplicas

Ó meu Jesus, se todos os homens parassem para Vos considerar na Cruz com viva fé, crendo que sois seu Deus e morrestes para salvá-los, como poderiam viver separados de Vós e privados de Vosso amor? E eu, sabendo bem tudo isto, como tenho podido Vos dar tantos desgostos? Se os outros Vos ofenderam, ao menos pecaram nas trevas, ao passo que eu Vos ofendi em plena luz. Mas estas mãos transpassadas, este lado aberto, este Sangue, estas Chagas, que eu considero em Vós, fazem-me esperar o perdão e a Vossa graça. Ó meu amor, aflito estou por Vos ter desprezado; agora Vos amo de todo o meu coração, e nada me contrista mais que a lembrança de Vos ter ofendido: possa a dor que sinto, ser sinal que me haveis perdoado! Ó Coração ardente de Jesus, abrasai meu pobre coração! Ó meu Jesus, morto pelas dores que Vos causei, fazei que eu morra pela dor de Vos ter ofendido e pelo amor que me mereceis. Eu me sacrifico todo por Vós, que Vos sacrificastes todo por mim.

Oração Jaculatória

Ó minha Mãe, Maria, tornai-me fiel ao amor de Jesus.



Exemplo

A residência espiritual de São Francisco de Sales era no Coração de Jesus. Aí é que ele hauria, como na sua verdadeira fonte, os suaves ardores de seu zelo. Tudo o que saiu de sua pena, respira o amor do Coração de Jesus. “Quanto o Senhor é bom, minha cara filha, escrevia ele a Santa Joana de Chantal; quão amável é seu Coração! Moremos aí, nesse santo domicílio. Viva sempre em nossos corações este Coração. – Outro dia, na oração, considerando o lado aberto de Nosso Senhor, vendo seu Coração, parecia-me que nossos corações estavam em torno Dele, e Lhe faziam homenagem como ao soberano Rei dos corações”. No seu Tratado do Amor de Deus, ele diz: “Sim, certamente, ó Timóteo, o amor divino assentado sobre o Coração do Salvador, como sobre seu trono real, tem o olhar fixo sobre todos os corações dos filhos dos homens, porque é o soberano deles… Também, o amor divino deste Coração ou antes este Coração do divino amor só tem olhar de predileção para os nossos. Ó Deus, se O víssemos como Ele é, morreríamos de amor para com Ele”. Lê-se nas suas cartas: “Não é felicidade para nós O podermos encerrar nossos corações no Coração do Salvador? – Quando então o amor, triunfando de nossas inclinações, ver-se-á unido ao Coração supremo de nosso Salvador? - Ó minha filha, se considerais este Coração, é impossível que Ele não Vos agrade; porque é um Coração tão manso, tão suave, tão condescendente! Ai! Quem não amaria este Coração real, tão paternalmente maternal para conosco? – Ó minha filha, ponde vosso caro coração no lado aberto do Salvador, e uni-o a este Rei dos corações”. – São Francisco escrevia também a Santa Chantal: “Ai! Se fosse necessário abrir nosso peito para acolher nele seu Coração, o faríamos? – Minha cara filha, não somos filhos adoradores e servos do Coração amoroso e paternal de nosso Salvador? Não é sobre este fundamentos que temos edificado nossas esperanças? Ele é nosso Mestre, nosso Rei, nosso Pai, nosso tudo”. Certa manhã, ansioso por dar curso a uma repentina inspiração, o Bispo de Genebra toma a pena, e, às pressas, escreve à sua Santa cooperadora um pensamento que “Deus, diz ele, me deu esta noite, a saber: que nossa casa da Visitação é, por Sua graça, bastante nobre e considerável para ter suas armas, seu brasão, sua divisa e seu grito d’armas. Eu pensei então, minha cara, Madre, se nisto concordais comigo, que nos é necessário tomar por armas seu único Coração transpassado por duas flechas, cercado de uma coroa de espinhos, servindo este pobre Coração de pedestal a uma Cruz, que o coroará e será gravada com os Sagrados nomes de Jesus e Maria. Minha filha, eu vos direi, à primeira entrevista que tivermos, mil pequenos pensamentos que me ocorrem neste assunto: em verdade, nossa pequena Congregação é obra do Coração de Jesus e de Maria. Ao morrer, o divino Salvador nos deu nascimento pela Chaga do seu Sagrado Coração: é, pois, muito justo que nosso coração fique, por uma incessante mortificação, sempre cercado da coroa de espinhos que transpassou a cabeça de nosso Chefe, enquanto o amor O teve pregado no trono de suas mortais dores.” O Santo escrevia estas palavras proféticas em 1611: a Bem-aventurada Margarida Maria nasceu em 1647 e teve sua visão do Sagrado Coração 1675. Vê-se que as irmãs da Visitação eram destinadas por Deus a honrar especialmente o Coração de Jesus, e isto é tão evidente que, em 1657, Henrique de Maupas, Bispo de Puy, já lhes dava o título de Filhas do Coração de Jesus.


_________________________

Fonte: O Sagrado Coração de Jesus, segundo Santo Afonso de Ligório, ou, Meditações para o Mês do Sagrado Coração, a Hora Santa e a Primeira Sexta-feira do Mês; coligidas das Obras do Santo Doutor pelo Padre Saint-Omer, C.Ss.R., “A Primeira Sexta-feira do Mês de Dezembro”, pp. 363-369. 5ª Edição Portuguesa, Tipografia de Frederico Pustet, Impressores da Santa Sé. Ratisbona/Alemanha, 1926.

1.  I Tes., 5, 24.

2.  Os., 2, 19.

3.  Ez., 16, 8.

4.  Jer., 3.

5.  Jer. 2, 10.

6.  Jer. 3, 4.

7.  I Jo., 5, 19.

8.  Tg., 3, 5.


terça-feira, 1 de dezembro de 2020

A NECESSIDADE DO SANTO SACRIFÍCIO DA MISSA.


Se não houvesse o sol, que seria da Terra? Oh! Tudo seria trevas, horror, esterilidade e desolação.

E se o Mundo não tivesse a Santa Missa, que seria de nós? Infelizes! Ficaríamos privados de todos os bens, sobrecarregados de todos os males. Estaríamos expostos a todos os raios da cólera de Deus.

Alguns há que se admiram, e acham que, de certo modo, Deus mudou a sua maneira de governar. Antigamente Ele se nomeava de Deus dos Exércitos, e falava ao povo do meio das nuvens, manejando o trovão; e de fato, era com todo o rigor da justiça que castigava os pecados.

Por um único adultério, mandou passar a fio de espada vinte e cinco mil homens da tribo de Benjamim.1

Por um leve pecado de orgulho de Davi em computar o povo, enviou Ele uma peste tão terrível que, em poucas horas pereceram setenta mil pessoas.2

Por um só olhar curioso e desrespeitoso dos betsamitas, fez que cinquenta mil deles perecessem.3

E agora suporta, com paciência, não só vaidades e irreverências, mas adultérios, os mais vergonhosos, escândalos gravíssimos, e tantas blasfêmias horríveis, que muitos cristãos vomitam contra Seu Nome Santíssimo.

Por que assim acontece? Por que tão grande mudança de conduta? Serão as ingratidões dos homens mais escusáveis hoje do que outrora? Bem ao contrário, são muito mais culpáveis, já que os imensos benefícios de Deus se multiplicam cada dia.

A verdadeira razão desta clemência espantosa é a Santa Missa, pela qual esta grande Vítima, que se chama JESUS, se oferece ao Eterno Pai. Eis aí o sol da Santa Igreja, que dissipa as nuvens e torna sereno o céu.

Eis aí o arco-íris que detém os raios da Divina Justiça. Creio para mim que, se não fosse a Santa Missa, o Mundo estaria já no abismo, incapaz de suportar o imenso fardo de suas iniquidades.

A Santa Missa é o poderoso sustentáculo que lhe permite subsistir.

Concluí, de tudo isto, quanto este divino Sacrifício é necessário; assim então, sabei aproveitá-lo o máximo que for possível.

Para isto, quando participamos da Santa Missa, devemos imitar Afonso de Albuquerque. Achando-se, com sua frota, em perigo de naufragar numa horrível tempestade, teve uma inspiração: tomou nos braços uma criança que viajava em sua nau, e, elevando-a ao alto, exclamou: “Se todos somos pecadores, esta criaturinha é certamente sem mácula. Ah! Senhor, por amor deste inocente, compadecei-Vos dos culpados!” Acreditareis? A vista dessa criança inocente agradou tanto a Deus, que Ele acalmou o mar e devolveu a alegria àqueles infelizes, gelados já pelo terror da morte certa.

Ora, qual pensais seja a atitude do Eterno Pai, quando o Sacerdote, levantando a Santa Hóstia, lhe apresenta o Divino Filho? Ah! Seu amor não pode resistir à vista do inocente Jesus; Ele se sente forçado a acalmar nossas tormentas, e acudir a todas as nossas necessidades. Sem esta Santa Vítima, portanto, sem JESUS sacrificando por nós, primeiro sobre a Cruz, e todos os dias sobre nossos altares, estaríamos perdidos, e poderia cada um dizer a seu companheiro: “Até à vista no Inferno! Sim, sim, no Inferno, no Inferno! Até à vista no Inferno!”

Mas, com este tesouro da Santa Missa a nosso alcance, nossa esperança renasce; e, se não opusermos obstáculos, teremos assegurado o Paraíso.

Deveríamos, portanto, beijar nossos altares, perfumá-los de incenso, e sobretudo honrá-los com nosso máximo respeito, pois que deles nos vêm tantos bens.

Juntai as mãos e agradecei a Deus Pai, que nos deu o mandamento tão doce de oferecer-Lhe, sobretudo, pelo imenso proveito que dela recebeis, se sois fiel não somente em oferecê-La, mas de fazê-lo para os fins a que nos foi concedido este dom tão precioso.




_________________________

Fonte: São Leonardo de Porto-Maurício, O.F.M., “Tesouro Oculto – ou, As Excelências da Santa Missa”, conforme a edição romana de 1737 dedicada a S. S. O Papa Clemente XII.

1.  Juízes 20, 46.

2.  II Samuel 24, 15.

3.  I Samuel 6, 19.


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