BLOG CATÓLICO PARA OS CATÓLICOS.

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"Uma vez que, como todos os fiéis, são encarregados por Deus do apostolado em virtude do Batismo e da Confirmação, os leigos têm a OBRIGAÇÃO e o DIREITO, individualmente ou agrupados em associações, de trabalhar para que a mensagem divina da salvação seja conhecida e recebida por todos os homens e por toda a terra; esta obrigação é ainda mais presente se levarmos em conta que é somente através deles que os homens podem ouvir o Evangelho e conhecer a Cristo. Nas comunidades eclesiais, a ação deles é tão necessária que, sem ela, o apostolado dos pastores não pode, o mais das vezes, obter seu pleno efeito" (S.S. o Papa Pio XII, Discurso de 20 de fevereiro de 1946: citado por João Paulo II, CL 9; cfr. Catecismo da Igreja Católica, n. 900).

sábado, 9 de outubro de 2021

A EXISTÊNCIA DA SANTÍSSIMA TRINDADE.


O DOGMA DA SANTÍSSIMA TRINDADE EM SI1


Na única essência divina há três Pessoas,

e estas três Pessoas são o Único Deus” – (De Fé).


Explicação: O dogma da Trindade foi exposto de modo formal pela primeira vez no Símbolo de Santo Atanásio, em torno do ano 400, ao encerrarem-se as controvérsias trinitárias: “Fides catholica haec est, ut unum Deum in Trinitate, et Trinitatem in unitate veneremur = A fé católica é esta: que veneremos um só Deus na Trindade e a Trindade na Unidade”. 2

Quando, na Idade Média, a doutrina de Deus Uno e Trino foi deturpada por Roscellino e Gilberto de la Porrée, imediatamente refutados,3 e por Joaquim da Fiore,4 o IV Concílio Lateranense formulou de novo a antiga fé. 5 E os Concílios para a união, com o fim de advertir os Gregos, os quais acerca do “Filioque” se afastavam da doutrina comum, repetiram o decreto do IV Concílio Lateranense. O dogma da Trindade foi depois examinado com cuidado particular sob todos os seus aspectos no XI Concílio de Toledo. 6



A DIVINDADE DO PAI, 

E DO FILHO, E DO ESPÍRITO SANTO. 7


Tese: A Escritura e a Tradição falam de três Pessoas – Pai, Filho e Espírito Santo – e afirmam, que são Deus.


Qualificação: É doutrina de fé a Divindade do Pai, do Filho e do Espírito Santo.

Explicação: Na tese, provaremos que, o Pai, o Filho e o Espírito Santo, segundo a Tradição e a Escritura Sagrada, são Deus.

Adversários: Negavam a Divindade do Filho os arianos, afirmando que era obra ou criatura do Pai; do Espírito Santo, os macedonianos, dando-O como obra do Filho.



PROVAS


1. Tradição: “Esta é a fé católica, que veneremos um só Deus na Trindade, e a Trindade na Unidade (de Deus)…, porque, uma é a Pessoa do Pai, outra a do Filho, outra a do Espírito Santo; mas do Pai, do Filho e do Espírito Santo uma (só) é a Divindade, igual a glória, e co-eterna a Majestade… O Pai é Deus, o Filho é Deus e o Espírito Santo é Deus, e no entanto, não são três deuses, mas um (só) Deus”. 8

2. Escritura Sagrada:

a) Textos referentes ao Pai. “Os judeus procuravam matá-Lo (a Jesus), porque não só não observava o sábado, mas também, porque chamava a seu Pai Deus, fazendo-se igual a Deus”. 9 Há um só Deus (Deus Pai, segundo o contexto), um só mediador entre Deus e os homens, o homem Cristo Jesus”. 10 “Subo para meu Pai e vosso Pai, meu Deus e vosso Deus”,11 anuncia Jesus, aos Apóstolos, antes da sua Ascensão.

b) Textos referentes ao Filho. Cristo, que está acima de todas as coisas, Deus bendito pelos séculos, amém”. 12 “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava em Deus e o Verbo era Deus…, e se fez carne (quer dizer, homem) e habitou entre nós”,13 narra São João no prólogo do seu Evangelho.

c) Textos referentes ao Espírito Santo. 1. “Ananias, porque te seduziu Satanás a mentir ao Espírito Santo?… Não mentiste aos homens, mas a Deus”. 14

2. Jesus Cristo mandou aos Apóstolos: “Ide e ensinai a todos os povos, batizando-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo…”. 15 Se, pois, o Pai e o Filho são Deus, deduz-se que o Espírito Santo também o é, por ser colocado no mesmo plano.

3. “Não contristeis o Espírito Santo de Deus”, recomenda São Paulo. 16



Dois Textos Conciliares17


I. Cremos firmemente e confessamos candidamente, que é um só o verdadeiro Deus, eterno, imenso e imutável, incompreensível, onipotente, inefável, Pai, Filho e Espírito Santo: Três Pessoas realmente, e uma só essência – ou substância ou natureza – absolutamente simples.

O Pai de nenhum outro se origina; o Filho provém somente do Pai; o Espírito Santo, de ambos conjuntamente – sem começo, sem continuação e sem fim; – o Pai gera; o Filho nasce e o Espírito Santo procede; – consubstanciais e co-iguais, co-onipotentes e co-eternos; – Princípio único de todos os seres, Criador de todas as coisas, visíveis e invisíveis, espirituais e corporais; – por sua força onipotente, produziu do nada, simultaneamente, no começo do tempo ambas as criaturas, isto é, a espiritual e a corporal, ou seja, o Anjo e o mundo, e ao depois o homem, como termo médio, composto de espírito e de corpo (Satanás e os outros Demônios foram criados por Deus, bons por natureza, tornando-se, porém, maus; e o homem pecou sob insinuação de Satanás).

Esta Santíssima Trindade, indivisa segundo a comunidade da essência e distinta segundo a propriedade das Pessoas, concedeu ao gênero humano a doutrina da salvação. Finalmente, o Filho único de Deus, Jesus Cristo, encarnado pela operação comum de toda a Trindade – a tota Trinitate communiter incarnatus – concebido de Maria sempre Virgem, por obra do Espírito Santo, feito verdadeiro homem, composto de alma racional e carne humana, Pessoa única em duas naturezas, ensinou-nos mais abertamente o caminho da vida.

(A continuação refere-se à vida terrestre do Salvador, à Igreja e aos Sacramentos; julgamos, todavia, não ser lícito omitir, no que procede, os ensinamentos relativos à operação da Santíssima Trindade na criação e na Encarnação). 18

II. Cremos e confessamos com a aprovação do Santo Concílio… que existe uma Realidade suprema, por certo incompreensível e inefável, que é, entretanto, verdadeiramente Pai, Filho e Espírito Santo; Três Pessoas juntas, existindo, porém, separadamente, e por isto há em Deus uma única Trindade, e não uma quaternidade; com efeito, cada uma das Três Pessoas é esta mesma Realidade, isto é, a substância – essência ou natureza divina; e só Ela é o princípio único de todas as coisas, não havendo outro além deste.

Ora, esta Realidade nem é geradora nem gerada, nem procedente, e sim é Ela o Pai que gera, o Filho que é gerado e o Espírito Santo que procede; assim, as distinções referem-se às Pessoas e a Unidade à natureza.

Desta sorte, embora, quanto às Pessoas, uma seja o Pai, outra o Filho e outra o Espírito Santo, como realidade (coisa), todavia, não são diversas; assim, o Ser que é o Pai, é também o Filho e outrossim o Espírito Santo; daí, segundo a fé ortodoxa e católica, cremo-los consubstanciais.

De fato, o Pai gerando ao Filho de toda a eternidade comunica-Lhe sua substância, conforme o mesmo Filho afirmou: O que o Pai me deu é maior que todas as coisas. 19 Não é lícito, entretanto, dizer que o Pai Lhe tenha dado parte da própria substância, retendo para Si outra parte, visto ser a substância do Pai indivisível, como absolutamente simples que é; – nem tampouco se poderá dizer que, ao gerar o Filho, Lhe haja o Pai transferido a própria substância, como que dando-a sem a reter para Si, porquanto, desta forma deixaria de ser substância. Resta, pois, que sem diminuição alguma da substância do Pai, recebe-a o Filho ao nascer, e assim Pai e Filho possuem uma mesma substância.

A mesma Realidade é, portanto, Pai, e Filho e também Espírito Santo, procedendo este dos outros dois... 20



O MISTÉRIO21


Importa que o Mistério do Filho de Deus feito homem e o Mistério da Santíssima Trindade, que fazem parte das verdades principais da Revelação, iluminem com a pureza da verdade a vida dos Cristãos”. 22


As palavras “natureza” e “pessoa” não se tomam aqui no sentido corrente dos termos, mas sim, de acordo com a linguagem filosófica, que é mais precisa. A essência ou natureza dos seres é aquilo que faz com que as coisas sejam o que são, o princípio que lhes permite atuar como tal (por exemplo, a natureza do homem é ser animal racional, composto de alma e corpo). A pessoa, por sua vez, é o sujeito que atua (por exemplo, um homem concreto, com um nome: Sancho Brochado Teles, que atua de acordo com a sua natureza: pensa, quer, trabalha, etc.). Assim, é claro que em cada homem há uma só natureza e uma só pessoa. Em Deus, pelo contrário, não é assim: uma só Natureza sustenta uma Trindade de Pessoas.

No Antigo Testamento, há várias alusões a este Mistério, mas Deus não o quis ensinar de modo claro, talvez porque os Judeus, propensos à idolatria, tivessem podido considerar como se fossem três deuses as três Pessoas divinas. No Novo Testamento, é-nos ensinado de maneira precisa.



Louvor em Forma de Ladainha

à Santíssima Trindade

(Aprovada para uso particular)23


Senhor, tende piedade de nós.

Jesus Cristo, tende piedade de nós.

Senhor, tende piedade de nós.


Jesus Cristo ouvi-nos.

Jesus Cristo, atendei-nos.


Deus Pai do Céu, tende piedade de nós.

Deus Filho, Redentor do mundo, tende piedade de nós.

Deus Espírito Santo, tende piedade de nós.

Santíssima Trindade, que sois um só Deus, tende piedade de nós.


Deus, simples quanto à substância, tende piedade de nós.

Deus trino quanto às Pessoas, tende piedade de nós.

Deus Pai, Deus Filho e Deus Espírito Santo, tende piedade de nós.

Deus Pai, Criador onipotente, tende piedade de nós.

Deus Filho, Medianeiro e Redentor, tende piedade de nós.

Deus Espírito Santo, Paráclito e Santificador, tende piedade de nós.

Deus Santo, Deus Santo e Forte, Deus Santo e Imortal, tende piedade de nós.

Deus, que éreis, sois e sereis, tende piedade de nós.

Deus, de quem, por quem e em quem tudo existe, tende piedade de nós.

Deus, que os Céus dos céus não podem conter, tende piedade de nós.

Deus, Princípio e Fim de todas as coisas, tende piedade de nós.

Deus, cuja Majestade enche o Céu e a terra, tende piedade de nós.

Deus, cujo poder chamou todas as coisas do nada à existência, tende piedade de nós.

Deus, cuja sabedoria governa poderosa e tudo ordena suavemente, tende piedade de nós.

Deus, cujo amor e bondade cumulam de bênção todos os viventes, tende piedade de nós.


Sede-nos propício, perdoai-nos, Senhor.

Sede-nos propício, ouvi-nos, Senhor.


De todo o mal, livrai-nos, Senhor.

De todo o pecado, livrai-nos, Senhor.

De vossa ira, livrai-nos, Senhor.

Da descrença e da superstição, livrai-nos, Senhor.

Da pusilanimidade e temeridade, livrai-nos, Senhor.

Da desconfiança em vossa amável Providência, livrai-nos, Senhor.

De murmuração contra vossos sábios desígnios, livrai-nos, Senhor.

De todo agravo a vossa Majestade suprema, livrai-nos, Senhor.

Da transgressão de vossos Preceitos, livrai-nos, Senhor.

Por vosso poder e sabedoria infinitos, livrai-nos, Senhor.

Pela superabundância de vossa bondade, livrai-nos, Senhor.

Pela grandeza de vosso amor e de vossa misericórdia, livrai-nos, Senhor.

Por vossa paciência e longanimidade inesgotáveis, livrai-nos, Senhor.

Por vossa eterna fidelidade e verdade, livrai-nos, Senhor.

No dia do Juízo, livrai-nos, Senhor.


Ainda que pecadores, ouvi nossos rogos.

Para que todos os homens creiam em Vós, Verdade eterna, ouvi nossos rogos.

Para que todos Vos reconheçam e adorem como seu Criador, ouvi nossos rogos.

Para que todos louvem e bendigam vosso Nome, ouvi nossos rogos.

Para que todos confiem em vosso amor e bondade, ouvi nossos rogos.

Para que todos cumpram fielmente vossa santa verdade, ouvi nossos rogos.

Para que todos Vos amem de todo o coração, como a seu Sumo Bem, ouvi nossos rogos.

Para que jamais abusemos dos tesouros de vossa paciência e longanimidade, ouvi nossos rogos.

Para que Vos consagremos nosso corpo como holocausto santo, vivo e agradável a Vós, ouvi nossos rogos.

Para que nos conduzais ao reino, que preparastes aos vossos desde o princípio do mundo, ouvi nossos rogos.


Cordeiro de Deus, que tirais os pecados do mundo, perdoai-nos, Senhor.

Cordeiro de Deus, que tirais os pecados do mundo, ouvi-nos, Senhor.

Cordeiro de Deus, que tirais os pecados do mundo, tende piedade de nós.


Jesus Cristo, ouvi-nos.

Jesus Cristo, atendei-nos.


Senhor, tende piedade de nós.

Jesus Cristo, tende piedade de nós.

Senhor, tende piedade de nós.


V. Bendigamos ao Pai e ao Filho e ao Espírito Santo.

R. Louvemo-Lo e exaltemo-Lo por todos os séculos.

V. Senhor, ouvi a minha oração.

R. E o meu clamor chegue até Vós.


Oremos: Deus onipotente e eterno, destes a vossos servos a possibilidade de reconhecer a Trindade gloriosa e eterna na confissão da verdadeira fé, e de adorar uma Unidade em seu poder e Majestade. Dai-nos a graça da perseverança nesta fé e de assim nos preservarmos de todo o mal. Por Cristo Nosso Senhor. Amém.24


______________________

1.  Pe. Bernardo Bartmann, “Teologia Dogmática”, Vol. I, Liv. I, 2ª Parte, 1ª Seção, Cap. I, § 44, p. 265. 2ª Impressão, Edições Paulinas, São Paulo/SP, 1964.

2.  Denz. 39; cfr. 48-51, 54, 78-82, 85-87, 213, 254, 275-281, 343-346, 389-391, 420, 432, 462-463, 703-705, 1596, 1655, 1915.

3.  Denz. 389, ss.; cfr. § 25.

4.  Denz. 389, ss.; cfr. § 47.

5.  Denz. 428, 431 ss.

6.  Denz. 275-281.

7.  R. Pe. J. Bujanda, S.J., “Manual de Teologia Dogmática”, 2ª Parte, Tratado Quinto, Cap. I, Art. 1º, Ponto 188 ss., pp. 167-169. Livraria Apostolado da Imprensa, Porto, 1944.

8.  Símbolo Quicumque ou Atanasiano, Denz. 39.

9.  Jo. 5, 18.

10.  I Tim. 2, 5.

11.  Jo. 20, 17.

12.  Rom. 9, 5.

13.  Jo. 1, 1.14.

14.  At. 5, 3-4.

15.  Mat. 28, 19.

16.  Ef. 4, 3.

17.  Pe. Frei Valentin-Maria Breton, O.F.M., “A Santíssima Trindade – História, Doutrina, Piedade”, 2ª Parte, Introdução, pp. 87-89. Editora Vozes Ltda, Petrópolis/RJ, 1954.

18.  IV Concílio de Latrão (12º Ecumênico), realizado em 1215 sob a presidência de Inocêncio III, Cap. I. De fide catholica, Firmiter; Ench. Dogm. 428.

19.  Jo. 10, 29.

20.  Cap. 2, De errore Abbatis Joachim, E. D., 432.

21.  Pablo Arce e Ricardo Sada, “Curso de Teologia Dogmática”, Cap. V, pp. 83-84. Rei dos Livros Editor, Lisboa, 1992.

22.  S. C. para a Doutrina da Fé, Decl. Para defender a fé contra alguns erros atuais acerca dos Mistérios da Encarnação e da Santíssima Trindade, de 21/2/1972; A.A.S. 64 (1972), pgs. 237-246, n. 1.

23.  “Vademecum” – Orações cotidianas para uso comum das educandas das Missionárias “Servas do Espírito Santo” e membros da “Obra Auxiliar do Espírito Santo”, editadas pela Direção Geral da mesma Congregação, 2ª Parte, pp. 237-240. Tip. Do “Lar Católico”, Juiz de Fora/MG, 1958.

24.  Pela recitação da oração final, ganha-se indulgência.


quarta-feira, 6 de outubro de 2021

SANTA TERESINHA E O ESPÍRITO SANTO.


Qui Spiritu Dei aguntur… ii sunt filii Dei”.1 “Os que são conduzidos pelo Espírito Santo… estes são filhos de Deus”. A característica de Teresa é a infância cristã: sua pequena via é a “Via da infância”. Ela é o tipo concreto do “filho de Deus” segundo o Evangelho. Ora, São Paulo diz explicitamente: “Os filhos de Deus são os que se deixam conduzir pelo Espírito de Deus”. Parece-me que temos aqui a explicação teológica da vida e da espiritualidade de Santa Teresa do Menino Jesus.

Todo mundo está de acordo que o ascetismo tem por fim submeter as almas à ação interior do Espírito Santo. A razão teológica é que, só o Espírito Santo, Deus, opera na alma; Ele é o Único que pode aí produzir a vida sobrenatural, a vida divina, a santidade. Todo mundo concorda, mas nem todos colocam, igualmente, este princípio, na base do trabalho ascético. Certos métodos deixam este princípio quase na sombra; praticamente, parecem mostrar à alma que tudo depende, antes de tudo e principalmente de seu trabalho, de seus esforços pessoais, de suas resoluções múltiplas e complicadas.

Em vez de dilatar a alma, fazê-la sair de si mesma, orientando-a para Deus, pela fé no amor, pela humildade e confiança, esses métodos voltam-na sobre si, fazem-na analisar-se, consumir-se, muitas vezes, marcando passo em esforços laboriosos. Diz-se às almas que é preciso rezar, porque sem Deus nada se faz; mas, praticamente, em vez de colocar a alma sob a ação de Deus, faz-se com que ela se volte sobre si; em lugar de levá-la a sair de si, para deixar-se aperfeiçoar-se em si. Daí esses processos complicados para praticar cada uma das virtudes com graus indefinidamente multiplicados, com divisões e subdivisões sem fim.

É desses métodos, sem dúvida, que Teresa dizia:

Às vezes quando leio certos tratados em que a perfeição é apresentada através de mil entraves, meu pobre e pequeno espírito bem depressa se cansa; fecho o sábio livro que me quebra a cabeça e desseca o coração e tomo a Sagrada Escritura. Então, tudo se me torna luminoso… a perfeição parece-me fácil: vejo que basta reconhecer seu nada e abandonar-se, como uma criancinha nos Braços de Nosso Senhor”.

Qui Spiritu Dei aguntur, ii sunt filii Dei!” É quase literal! “Não posso compreender os belos livros e muito menos pô-los em prática! Teresa deixa-os para as grandes almas, alegra-se de ser pequena: porque só as crianças e aqueles que se lhes assemelham serão admitidos no Céu!2”.3

Esses métodos, confessemo-lo, colocam-nos, de fato, longe da simplicidade do Evangelho. A simplicidade é certamente o caráter do ascetismo de Teresa. Ela ensina às almas irem a Deus para que Ele as liberte de suas misérias; a deixar-se atrair por Ele, a esperar n’Ele e a entregar-se a Ele. Isso equivale a dizer que Teresa procura estabelecer e conservar a alma sob a ação e a direção do Espírito Santo. Sua vida não é mais do que a prática, extremamente sugestiva, desse princípio essencial de teologia ascética e mística: “Qui Spiritu Dei aguntur…”. Digo princípio teológico, pois, nesta conferência, encaro Teresa como teóloga. Confesso que jamais admirei bastante a solidez e a profundeza de sua teologia. Estou persuadido de que, sem o saber, sem perceber, ela foi teóloga, da mais profunda teologia, a única verdadeira: a vida de Deus em nós!



1ª Consideração


Considerarei duas páginas em sua obra. Quanto mais as medito, mais parecem condensar toda a doutrina ascética de Teresa.

A primeira é, a meu ver, numa linguagem extremamente simples e cândida, a expressão mesma do “Qui Spiritu Dei aguntur”… Leiamo-la:

Meu desejo, escreve Teresa, foi sempre de me tornar uma santa. Mas ah! Comparando-me aos Santos, constatei que existe entre eles e eu a mesma diferença que vemos na natureza, entre uma montanha cujos cumes se perdem nas nuvens e o grão de areia obscuro, calcado aos pés dos transeuntes. Em vez de me desanimar, pensei: Nosso Senhor não pode inspirar desejos irrealizáveis…”.4

Detenhamo-nos um instante: a Santinha raciocina, aqui, admiravelmente. Deus, o Espírito Santo nunca desperta desejos irrealizáveis numa alma. Suscita-os com a intenção de satisfazê-los, de cumulá-los, além mesmo do que podemos conceber e pedir!

Como os desejos são, pois, coisa divina nas almas! A palavra “Desejo” encontra-se a cada instante, em Teresa: só isto diz muito! Seus desejos pessoais tornaram-se clássicos, ultrapassam todo limite, toda medida razoável: são imensos, infinitos.

Pensei: Nosso Senhor não pode inspirar desejos irrealizáveis; portanto, posso aspirar à santidade apesar de minha pequenez. Crescer é impossível! Devo suportar-me tal qual sou, com minhas inúmeras imperfeições. Quero, todavia, procurar o meio de ir para o Céu, por uma viazinha bem reta, bem curta, uma peque via toda nova. Estamos no século das invenções: não se tem mais o trabalho de subir os degraus de uma escada: na casa dos ricos, um elevador a substitui vantajosamente. Desejei encontrar, também, um ascensor, para subir a rude escada da perfeição”.

Quantas almas dizem isto e permanecem desanimadas, ao pé da escada!

Então, fui procurar nos Livros Santos a indicação do Ascensor, objeto dos meus desejos. Li estas palavras saídas da boca da Sabedoria eterna: ‘Se alguém é pequeno, venha a mim!…’.5 Aproximei-me, pois, de Deus, adivinhando que eu descobrira o que procurava. Querendo saber ainda o que faria com o pequenino, continuei minhas pesquisas e eis o que encontrei: ‘Como a mãe acaricia seu filho, assim eu vos consolarei; vos trarei em meu regaço e vos embalarei sobre meus joelhos’.6 Ah! Jamais palavras mais doces, mais melodiosas vieram alegrar minha alma! O Ascensor que deve levar-me aos Céus são vossos braços, ó Jesus! Por isso, não preciso crescer; devo, ao contrário, ficar sempre pequenina e torná-lo cada vez mais”.7

Os “braços de Jesus” – traduzindo essa metáfora em linguagem teológica – é o Espírito de Jesus, o Espírito Santo e seus dons que são como braços que nos elevam! “Ascensor”: esta palavra é de uma justeza admirável para designar o Espírito Santo. É a palavra de São Paulo, sob uma metáfora moderna: “Qui Spiritu Dei aguntur”. Sob o ponto de vista da santidade é, realmente, o Espírito Santo que nos põe em movimento, nos impele, nos carrega, nos eleva até a perfeição do amor, até a santidade!

Que é preciso para isso? Humildade e confiança: “Si quis est parvulus veniat ad me!” Teresa, esclarecida pelo Espírito Santo, compreendeu perfeitamente esta palavra da Sabedoria: “Ser pequenino”, isto é, conhecer e amar sua impotência e, por conseguinte, “ir a Ele”, isto é, ao Amor Infinito: e é assim que nos pomos no “Ascensor”. Então, Ele nos eleva. Ele, e não nós mesmos. Basta-nos deixá-lO agir e seguirmos seu movimento ascendente; Ele nos eleva acima de nós mesmos, de nossas misérias e defeitos, e pouco a pouco nos liberta de nosso egoísmo. Eis sua obra essencial. Ele fará esta obra divina em nós, se o desejarmos, não contando absolutamente conosco mesmos para realizá-la, mas esperando n’Ele ilimitadamente, sem temor nem hesitação, esperando em seu Amor inteiramente gratuito e onipotente.

Desejo de amar, humildade, confiança! Eis tudo. Eis Teresa toda inteira, com sua santidade e espiritualidade. No princípio: desejo de amar a Deus, de amá-lO até a perfeição; depois, humildade: “si quis est parvulus”; em seguida, confiança: “veniat ad me”. A alma se entrega, coloca-se no Ascensor e é elevada: “Spiritu Deis aguntur”.

Ainda uma vez, depois de ter procurado reduzir a “Pequena Via” de Teresa a seus elementos teológicos, creio que toda sua doutrina se acha nesta página. Mas dirão: onde está a correção dos defeitos, a aquisição das virtudes, a cooperação humana no trabalho da perfeição? Estou certo de que, para Teresa, tudo isso estava magnificamente contido nesta simples fórmula: entregar-se a Deus com humildade e confiança. A alma deve ser sincera neste dom de si, tal qual ela é, com todos os seus defeitos e misérias ao Amor Misericordioso e Onipotente em quem ela crê. Em quem crê: vê-se aqui, a soberana importância da fé no Amor, no Amor Misericordioso pela miséria que nós somos. A alma não está, evidentemente dispensada de agir, de trabalhar, de se esforçar… Mas em tudo isso ela olha bem mais para Deus do que para si; pões sua confiança n’Ele… entrega-se à ação de Deus mais do que à sua ação pessoal: “Spiritu Dei aguntur”. Em tudo isso Deus tem o papel principal, o primeiro movimento, a primeira ação. Quando a alma age e se esforça não perde de vista que é antes de tudo levada por Deus, pelo Amor: sente-se amada! Daí sua confiança, sua força! Seus esforços são, por isso, humildes, suaves, pacíficos, sem agitação, nem impaciência, sem pressa nem inquietação, sobretudo, sem desânimo!



2ª Consideração


Leiamos, agora, a segunda página de nossa Doutorazinha. Visando esta, diretamente, o trabalho da alma, esclarece e completa maravilhosamente a teologia do Ascensor… Não é de sua Autobiografia que tomarei esta página, mas da coleção dos “Conselhos e Lembranças”.

Teresa era, então, Mestra das Noviças. Uma delas, desanimava-se, vendo o pouco sucesso de seus esforços para se corrigir de suas imperfeições.

Vós me fazeis pensar numa criancinha que começa a ficar de pé e não sabe ainda andar. Querendo, absolutamente, atingir o alto de uma escada para encontrar sua mamãe, levanta o pezinho para subir o primeiro degrau. Inútil! cai sempre sem conseguir adiantar-se. Pois bem! Sede essa criancinha. Pela prática das virtudes levantai vosso pezinho para subir a escada da santidade; mas, não penseis que podereis subir sequer o primeiro degrau! Não, mas Nosso Senhor só pede de vós a boa vontade. Do alto desta escada, Ele vos com amor. Logo, vencido por vossos esforços inúteis, Ele mesmo descerá e, tomando-vos em seus braços, levar-vos-á para sempre ao seu Reino – onde não mais O deixareis!”8

Deve ser essa, exatamente, nossa cooperação no trabalho da santificação: é o que Deus nos pede: boa vontade, desejo de lhe dar prazer e nossos pobres esforços… Pequenos esforços inúteis! Eis tudo o que podemos fazer! Quando Deus achar que mostramos bastante boa vontade, isto é, que apesar da inutilidade de nossos esforços, perseveramos em querer sempre Lhe dar prazer, com humildade e paciência: então Ele desce e toma-nos em seus braços e carrega-nos… É sempre o Ascensor! Aqui, porém, temos nossa parte e a parte de Deus…

Quanta paz e tranquilidade nesta maneira de orientar os esforços para a perfeição, e o trabalho da aquisição das virtudes! Sente-se que a alma está toda voltada para Deus, repousa n’Ele, mesmo no meio da ação e do trabalho, confia n’Ele ainda nos insucessos e imperfeições. Sente-se que a alma se ocupa mais de Deus do que de si mesma. Embora procure realizar esse ou aquele progresso, adquirir essa ou aquela virtude, seu esforço visa mais torná-la agradável a Deus do que a sua própria perfeição; o que, de fato, é muito diferente.

Entregar-se, abandonar-se, sem apego nem volta sobre si mesmo, renúncia! Eis tudo! Donde:

A santidade não está em tal ou tal prática; consiste num disposição do coração que nos torna humildes e pequenos nos braços de Deus, conscientes de nossa fraqueza e confiantes até a audácia em sua bondade de Pai”.9

Mas, quão poucos sabem fazer isso!…

É preciso consentir em ficar sempre pobre e sem forças; e eis o difícil… Amemos nossa pequenez, amemos nada sentir; assim seremos pobres de espírito e Jesus virá nos buscar por mais longe que estejamos; e transformar- nos- á em chamas de amor”.10

Tudo serve então, para unir a alma a Deus: e é isso o Único necessário.

Tal é o estado no qual Teresa convida as almas pequeninas a se estabelecerem. Estado de filho de Deus que se deixa em tudo atrair, mover, elevar, carregar nos braços de Jesus, isto é, pelo Espírito de Amor.

É o Evangelho – Tornemo-nos crianças!


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Fonte: Rev. Pe. Liagre, Espiritano, “Retiro com Santa Teresinha do Menino Jesus”, Cap. V, pp. 56-64. 2ª Edição, tradução do Carmelo do I. C. de Maria e Santa Teresinha, Cotia/SP, 1963.

1.  Rom. VIII, 14.

2.  Mat. XIX, 14.

3.  Carta VII a seus Irmãos espirituais, pág. 372.

4.  História de uma alma, IX, pág. 153.

5.  Prov. IX, 4.

6.  Is. LXVI, 13.

7.  História de uma alma, IX, pág. 154.

8.  Conselhos e Lembranças, pág. 261.

9.  “Novíssima Verba”, págs. 112-113.

10.  Carta VI a Irmã Maria do Sagrado Coração, pág. 356.


domingo, 3 de outubro de 2021

NOVENA EM HONRA DE SÂO FRANCISCO DE ASSIS. (9º Dia)


ORAÇÕES1

para todos os dias da Novena


V. Vinde, ó Deus em meu auxílio.

R. Senhor, apressai-Vos em socorrer-me.

V. Glória ao Pai e ao Filho e ao Espírito Santo.

R. Assim como era no princípio, agora e sempre, por todos os séculos dos séculos. Amém.


Oração Preparatória


Ó Deus, que nos destes, no vosso grande servo São Francisco, um modelo sublime da imitação de Cristo, dai-me a graça de meditar, com o coração devoto e dócil, as suas excelsas virtudes, para que, movido pelo seu exemplo e ajudado pela vossa divina graça, comece seriamente a emendar a minha vida, fugir do pecado, praticar a virtude, e aspirar, decidida e constantemente, à perfeição cristã, a fim de que, sendo imitador de São Francisco aqui na terra, mereça ser, um dia, admitido à participação de sua glória no Céu. Por Nosso Senhor Jesus Cristo. Amém.


Oração a São Francisco2


Glorioso Patriarca São Francisco, a quem o Senhor, por um prodígio de graças, se dignou tornar, desde o berço até à morte, uma viva imagem Sua, vós, que a Ele consagrastes todo o vosso coração e todo o vosso ser, e protestáveis desejar fazer por Ele, mediante o seu divino auxílio, obras cada vez maiores, dignai-vos, ó grande Patriarca dos pobres, lá dos Céus onde estais, lançar sobre nós a vossa bênção. Por aquele divino amor, que tanto vos abrasava, pelo qual pedíeis a Deus a graça de morrer por seu amor, como Ele tinha morrido pelo vosso, e pelo qual vos imprimiu as Suas cinco Chagas, lembrai-vos de nós. Rogai, ó grande Santo, pela Santa Igreja, da qual o Senhor vos quis fazer forte e inabalável coluna. Rogai à Virgem Santíssima da Conceição, à doce e excelsa Maria, poderosa protetora das Vossas três Ordens, que proteja o Sumo Pontífice, Chefe visível da Igreja, e alcance que essa Igreja triunfe sobre seus inimigos e, reunindo em seu seio os seus filhos, chame também a si todos aqueles que dela se acham extraviados; e igualmente os que ainda jazem nas trevas do paganismo, para que todos juntos cantemos no Céu eternamente as misericórdias do Senhor. Amém.



NONO DIA


São Francisco,

Admirável na sua Morte.


1ª Meditação. Admirável é Deus nos seus Santos”, diz a Sagrada Escritura.3 Estas palavras, que se aplicam aos Santos de Deus em geral, valem de um modo particular para o Santo Seráfico, admirável em toda a sua vida, mas principalmente, admirável na sua morte. A morte de São Francisco nada tinha de triste, nada de terrível, nada que nos pudesse despertar ideias desagradáveis: foi o sublime remate de uma vida toda sublime e admirável. Encerrando a Novena do Santo Seráfico, consideremos hoje, para nossa consolação e edificação, a morte admirável de São Francisco, como no-la descreve São Boaventura.


Por uma revelação divina, sabia São Francisco, com muita antecedência, a hora de sua morte. Conhecendo que o dia já não estava longe, pediu a seus irmãos que o levassem para o seu Convento predileto, o Convento da Porciúncula, perto de Assis, porque queria entregar seu espírito ao Criador ali, onde nascera sua Ordem e onde ele recebera de Deus os favores mais importantes e extraordinários. Assim chegou o dia 3 de Outubro de 1226.


Francisco sentia que este seria o último dia de sua peregrinação terrestre. Chamou à sua presença todos os seus irmãos e exortou-os, ainda uma vez, a que nunca se afastassem do caminho da virtude, honrassem e obedecessem sempre e humildemente à Santa Madre Igreja, e guardassem fielmente tudo quanto haviam prometido a Deus. Em seguida – espetáculo tocante! – apelando para as suas últimas forças, levanta-se o servo de Deus, despoja-se do seu hábito e deita-se, quase de todo despido, no chão duro, pois, como fora em vida, assim quis também na morte ser uma imagem, uma cópia fiel do Divino Salvador.


Imaginemos esse drama sublime: São Francisco, o Santo Seráfico, já próximo da morte, deitado no chão, paupérrimo, despido! A esta vista comovedora os irmãos presentes já não podiam conter as lágrimas, romperam todos em prantos e altos soluços. Um deles, porém, que era o guardião do Convento, e que bem conhecia os sentimentos do Pai Seráfico, levantou o hábito atirado a um canto, ofereceu-o a São Francisco, e mandou-lhe, pela virtude da santa obediência, que o aceitasse, ao menos como uma esmola. Cheio de alegria, aceitou-o assim o Santo, acostumado a obedecer sempre e cegamente. Feito isto, dirigiu-se, pela última vez, a seus irmãos que choravam inconsoláveis a perda iminente do pai querido. Com as mais ternas e carinhosas palavras consolou-os em sua dor, lançando-lhes, em seguida, a eles e a todos os seus filhos espirituais, de todo o mundo e de todos os tempos, a sua última bênção paternal.


Depois, sentindo aproximar-se a morte, mandou ler, em sua presença, a Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo, que sempre tinha meditado e venerado de um modo especial, com cuja recordação quis fortalecer-se também para o último combate. Enfim, já a expirar, entoou ele próprio, ainda com voz clara, o Salmo 141: “Voce mea ad Dominum clamavi – Com a minha voz clamei ao Senhor” – rezando-o com a devoção de um Anjo, até ao fim; e, tendo pronunciado o último verso: “Educ de custodia animam meam – Tirai do cárcere a minha alma, para dar glória ao vosso nome; estão me esperando os justos até que me deis a recompensa” – entregou o Santo Seráfico a sua alma cândida nas mãos do Criador, para penetrar no meio dos justos no Céu e receber a merecida recompensa, ao pôr do sol do dia 3 de Outubro de 1226, com 45 anos de idade.


No mesmo momento – narra São Boaventura – viu um dos irmãos a alma de São Francisco voando para o Céu, na forma de uma estrela brilhante, e ouviu-se de fora o canto alegre de numerosos passarinhos, “irmãos” queridos de São Francisco, que – parecia – que tinham acudido, a fim de abrilhantarem a morte de seu grande amigo. – Oh! Admirável, oh, invejável, oh, preciosa morte de São Francisco! Aqui, na verdade, devemos exclamar com a Sagrada Escritura: “Pretiosa in conspecta Domini mors sanctorum eius – Preciosa aos olhos do Senhor é a morte dos seus Santos.4 – Oh! Sim! Preciosa, preciosíssima, foi a morte de São Francisco, preciosíssima aos olhos de Deus, mas preciosíssima também aos olhos de todo o mundo.


Para comemorar a morte admirável de seu pai seráfico, realizam os filhos de São Francisco, todos os anos, à tarde do dia 4 de Outubro, a solene cerimônia do Transitus, isto é, da passagem de São Francisco, deste vale de lágrimas para as alegrias do Céu. Empunhando velas acesas, cantam, nesta ocasião, o mesmo Salmo cantado pelo Pai Seráfico na hora da morte: “Com a minha voz clamei ao Senhor, etc., e fazem orações fervorosas em honra do grande Pai, exaltado por Deus à glória celeste. Termina a tocante cerimônia com a bênção, dada com uma relíquia do Santo, a qual, em seguida, é apresentada ao povo para beijar.



2ª Meditação. Quem de nós não desejaria ter uma morte tão bela, tão santa, tão preciosa aos olhos do Senhor, como a teve São Francisco Seráfico? “Ah! – pensamos talvez – isto será impossível; pois ele era um santo, e quem sou eu, para morrer como ele?” Seria um erro pensar assim! Ainda que nem todos possamos alcançar uma virtude e uma morte tão santa como São Francisco, devemos, todavia, trabalhar e fazer todos os esforços, para termos, um dia, ao menos uma boa morte, porque da morte tudo depende; pois, de duas uma: ou a nossa morte será santa (na graça de Deus), e assim a passagem para uma eterna felicidade; ou então, ele será maldita (pelo pecado mortal), e a passagem para a eterna desgraça; não há meio termo! Verdade importantíssima!


Vivamos, pois, como São Francisco, e teremos também uma morte semelhante à sua! Sigamos São Francisco na sua vida santa, e segui-lo-emos também na sua bela morte!


E, para conseguirmos esta graça tão grande, rezemos frequentemente ao glorioso São Francisco, principalmente (amanhã) na sua festa, pedindo-lhe, de todo o coração, que interceda por nós junto ao trono de Deus, e nos ajude com o seu poderoso auxílio, a fim de que, tornando-nos seus imitadores, na vida e na morte, possamos também ser admitidos um dia entre o número de seus gloriosos filhos e devotos no Céu.


Oração


Ó Deus, quão admirável, quão preciosa aos vossos olhos foi a morte de vosso grande servo São Francisco! Quem dera ter uma morte semelhante à sua morte! Quem me dera sair, um dia, deste vale de lágrimas com a consciência tão tranquila, com o coração tão contente e alegre, como São Francisco! Ó meu Deus! Pela vida santa e pela morte preciosa de vosso servo, eu Vos peço e suplico, do íntimo do coração, que me deis a graça de uma boa morte!


Ajudai-me a perseverar nos meus propósitos, todos os dias da minha vida, na felicidade e na desgraça, na saúde e na doença, na alegria e na tribulação, até ao último suspiro; para que então possa, como São Francisco, expirar, qual digno discípulo e imagem de Jesus, na vossa graça e no ósculo da paz.



Oração Final


Glorioso São Francisco, imagem fiel de Jesus e Serafim de amor, eis-me aqui mais uma vez aos vossos pés, para vos louvar e bendizer, e para pedir a vossa poderosa intercessão. Do íntimo do coração vos agradeço, no fim desta Novena, todos os benefícios e graças que me alcançastes. Mais uma vez renovo a firme resolução de ser sempre vosso devoto e vosso discípulo, imitando as vossas virtudes e caminhando, como vós, nas pegadas do divino Salvador. Proponho principalmente, a vosso exemplo, morrer para o mundo, para Satanás e para mim mesmo, para que, imitando-vos na vida, possa esperar ser-vos semelhante na morte. Ajudai-me, grande São Francisco, e alcançai-me a graça de ser fiel a Deus até ao último suspiro. E, quando soar a hora da minha morte, ah, glorioso Patriarca, não me abandoneis, mas assisti-me também no derradeiro combate, para que a minha morte, à semelhança da vossa, seja santa e bem-aventurada, o trânsito feliz deste desterro para a eterna pátria. Amém.


*Rezar 5 Pai Nossos, Ave Marias e Glória ao Pai, em honra das Cinco Chagas de São Francisco de Assis.



Ladainha de São Francisco de Assis

(Para uso Privado)


Senhor, tende piedade de nós.

Jesus Cristo, tende piedade de nós.

Senhor, tende piedade de nós.


Jesus Cristo, ouvi-nos.

Jesus Cristo, atendei-nos.


Deus Pai do Céu, tende piedade de nós.

Deus Filho, Redentor do mundo, tende piedade de nós.

Deus Espírito Santo, tende piedade de nós.

Santíssima Trindade, que sois um só Deus, tende piedade de nós.


Santa Virgem imaculada, rogai por nós.


São Francisco Seráfico, rogai por nós.

São Francisco, pai sapientíssimo, rogai por nós.

São Francisco, pai dos pobres, rogai por nós.

São Francisco, que desprezastes o mundo, rogai por nós.

São Francisco, espelho da penitência, rogai por nós.

São Francisco, vencedor dos vícios, rogai por nós.

São Francisco, zeloso imitador de Cristo, rogai por nós.

São Francisco, com as Chagas de Jesus adornado, rogai por nós.

São Francisco, amante da pobreza, rogai por nós.

São Francisco, mestre da obediência, rogai por nós.

São Francisco, espelho puríssimo da castidade, rogai por nós.

São Francisco, norma da humildade, rogai por nós.

São Francisco, pai rico de graças, rogai por nós.

São Francisco, caminho dos que erram, rogai por nós.

São Francisco, auxílio dos enfermos, rogai por nós.

São Francisco, coluna da Igreja, rogai por nós.

São Francisco, protetor da fé, rogai por nós.

São Francisco, herói valente de Cristo, rogai por nós.

São Francisco, baluarte dos que pelejam, rogai por nós.

São Francisco, escudo inexpugnável, rogai por nós.

São Francisco, martelo dos hereges, rogai por nós.

São Francisco, apóstolo dos infiéis, rogai por nós.

São Francisco, sustentáculo dos fracos, rogai por nós.

São Francisco, ressuscitador dos mortos, rogai por nós.

São Francisco, saúde dos leprosos, rogai por nós.

São Francisco, seráfico do mais ardente amor, rogai por nós.


Cordeiro de Deus, que tirais o pecado mundo, perdoai-nos, Senhor.

Cordeiro de Deus, que tirais o pecado do mundo, ouvi-nos, Senhor.

Cordeiro de Deus, que tirais o pecado do mundo, tende piedade de nós.


Pai Nosso, Ave Maria, Glória ao Pai.


V. Rogai por nós, São Francisco de Assis.

R. Para que sejamos dignos das promessas de Cristo.


Oremos: Deus onipotente, cuja providência governa tudo, ouvi a oração de vossos servos e fazei com que, celebrando devotamente a memória do glorioso confessor vosso, sejamos dignos de contemplar a glória do vosso Filho Unigênito, que convosco vive e reina pelos séculos dos séculos. Amém.



Oração de São Francisco,

para obter o perfeito amor.


Santíssimo Senhor Jesus Cristo, instantemente Vos peço, que a ardente e suave força de vosso Amor, demova o meu coração de todo o afeto das coisas que estão abaixo do Céu; a fim de que, eu deseje morrer por amor de Vós, como Vós, Vos dignastes morrer por meu amor. Amém.




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1.  “Novena em Honra de São Francisco de Assis”, por Fr. Júlio Janssen, O.F.M., pp. 77-86 e 87-89. 5ª Edição, Editora Vozes, Petrópolis/RJ, 1935.

2.  Indulgenciada.

3.  Psal. 67, 36.

4.  Psal. 115, 5.


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