O
MANUSCRITO DO PURGATÓRIO
Introdução
Ninguém
pode logo, à priori, recusar a possibilidade das
aparições das almas do purgatório aos vivos na terra. Estas
espécies de aparições não são raras e não faltam na vida dos
Santos. Há fatos documentados e muito bem provados, com o testemunho
de teólogos. Basta-nos citar estes: o Cônego Ribet,
na sua “Mystique Divine”, T. II, cap. VIII. Deus permite
estas aparições para consolo dos vivos e para excitar a compaixão,
instruir e despertar a ideia da severidade dos juízos de Deus,
contra faltas que julgamos muito leves. Uma coleção de diversas
aparições publicadas pelo bispo de Osma na Espanha, Mons.
Palafox, trás este título: “Luz aos vivos
pela experiência dos mortos”. Não se poderia justificar
melhor a razão providencial das manifestações das almas
sofredoras, que se dirigem aos vivos para implorarem sua piedade e
intercessão.
A
autenticidade do “Manuscrito do Purgatório”
A
autenticidade do “Manuscrito do Purgatório” não pode ser
posta em dúvida. Teve testemunhas certas de pleno acordo e os fatos
foram bem examinados. Uma religiosa do convento de V., Irmã
M.d.I.C., falecida em 2 de maio de 1917, ouviu junto dela de repente,
em novembro de 1873, uns gemidos muito prolongados. Assustada,
exclamou: “Quem é que me faz assim tanto medo? Que não apareça,
mas me diga quem é!” Nenhuma resposta. E os gemidos se aproximavam
cada vez mais. A pobre Irmã multiplicava orações, Vias Sacras,
Comunhões, Rosários, e os gemidos não cessavam, e cada vez mais
misteriosos. Finalmente, no dia 15 de fevereiro de 1874, uma voz
muito conhecida se fez ouvir: “Tão tenhais medo! Eu sou a Irmã
M.G.” (uma religiosa falecida em X, com 36 anos e idade, no dia 22
de fevereiro de 1871, vitima da sua dedicação). E a alma que sofria
deu a conhecer à sua antiga companheira cujos conselhos havia
desprezado outrora, que ela havia de multiplicar as visitas para
santificá-la, e que, assim santificada, havia de aliviar a antiga
companheira no Purgatório.
A
Irmã M.d.I.C pediu à visitante que desaparecesse e não voltasse
mais. Foi porém em vão. Foi-lhe respondido que deveria suportar,
quanto tempo Deus quisesse, aquilo de que tinha tanto medo.
E
foi assim que, durante vários anos, se estabeleceram entre a alma de
Irmã M.G. e Irmã M.d.I.C. relações que foram escritas em precioso
manuscrito, minuciosamente, de 1874 a 1890. Eis a origem do
“Manuscrito do Purgatório”.
Valor
deste Manuscrito
Este
valor se deduz: 1º. – Da pessoa da própria Irmã M.d.I.C. Todos
que a conheceram sem uma nota discordante, atestam que ela nunca
deixou de praticar todas as virtudes cristãs até ao heroísmo,
muitas vezes. Era ótima religiosa. Como diretora de um pensionato,
exerceu ela uma grande influência sobrenatural sobre as alunas, e
todas a chamavam de verdadeira Santa.
Todas
as testemunhas atestam unanimemente que era dotada de um juízo muito
reto, era muito equilibrada e de muito bom senso. Além do mais,
nunca desejou vias extraordinárias, e, ao contrário, procurou se
convencer de que era duvidoso o que era obrigada a ouvir, e alegava
ser coisa diabólica, declarando que não queria sair da via comum,
desejava ser como toda gente e passar desapercebida. Enfim, com isto
ela aproveitou muito na vida espiritual e todos testemunham quanto se
santificou com estas visitas ao purgatório.
2º.
– Testemunhos de autoridades. Em primeiro lugar declaramos
que a Irmã M.d.I.C. tinha um diretor espiritual, o R. P.
Prevel, dos Padres de Pontigny, e que mais tarde foi
Superior Geral da Congregação. Este sacerdote esteve a par de todos
os acontecimentos.
O
R. Cônego Dobosq, ex-Superior do seminário
Maior de Bayeux e autor de várias obras, e promotor da fé no
processo de canonização de Santa Teresa do Menino Jesus.
O
R. Cônego Gontier, censor oficial dos livros da
Diocese de Bayeux e autor de muitas obras, entre elas a “Explication
du Pontifical”, “Reglement de la vie sacerdotal”,
etc. Um grande mestre da espiritualidade, cujo nome é mister fique
no anonimato e que mereceu este elogio de Pio X: “Homem
esclarecido pela sua ciência e experiência”.
Depois
de maduro exame, estes mestres não hesitaram em declarar que o
manuscrito nada continha contra os ensinamentos da fé e estava de
perfeito acordo com os princípios da vida espiritual, e podia
edificar muito as almas.
Além
disso, notaram que a Irmã M.d.I.C. não possuía imaginação viva e
perigosa para se iludir facilmente. Ela considerava estas aparições
um verdadeiro castigo, e nelas não se comprazia; pedia a Nosso
Senhor que a libertasse destas visitas que a importunavam.
Todos
se impressionam bem: 1º – a grande lição de caridade cristã que
contém. A Irmã falecida (em vida) tinha feito sofrer muito à Irmã
M.d.I.C. e a ela justamente veio pedir socorro depois da morte, para
se livrar do Purgatório. 2º – Quanto mais vivas eram as luzes
adquiridas pela Irmã M.d.I.C., tanto mais se purificava a Irmã
falecida e, por sua vez, progredia na santificação a Irmã M.d.I.C.
Finalmente,
os teólogos que foram consultados deram o seu parecer de que o
Manuscrito tinha o selo de uma perfeita autenticidade e, por
conseguinte, tinha pleno valor, quer quanto à autenticidade, quer
quanto à origem.
TEXTO
DO MANUSCRITO
(O
que a alma de Irmã M.G. dizia à Irmã M.d.I.C.)
“Madre Superiora está no Céu desde que morreu, porque sofreu muito e era
muito caridosa.
Se
fôsseis perfeitas como Deus o quer, quantas graças Ele não vos
concederia!
Deus
quer que sejais mais santa do que as outras.
O
Padre L. está no Purgatório, porque ele gostava muito de pregar
retiros e pregar por toda parte.
– E
isto é falta?!
Sim,
é verdade, mas ele se descuidava da Paróquia.
Deus
aceitará o que fizerdes por todas as almas do Purgatório como se o
fizesses por uma só.
A
Via Sacra é a melhor oração depois da Santa Missa.
Observem
bem o grande silêncio, porque faltam muito a ele.
Não
posso dar sinal exterior. Deus não o permite. Sou muito culpada.
Porque
eu vos fiz sofrer, Deus quer que rezeis por mim.
Podeis
dizer também à Irmã S…, a quem eu aborreci muito, e à Madre
Superiora, a quem fiz sofrer tanto, que se ela puder, mande dizer por
mim algumas Missas.
Vossos
rosários por mim e meditações bem feitas, porque eu não as fazia
muito bem.
Vosso
Ofício bem rezado, por mim, porque eu não o rezava bem. Vossa
modéstia bem grande por toda parte, porque eu tinha sempre os olhos
levantados para ver o que não tinha necessidade de ver. Muita
elevação e uma grande submissão para com a Madre Superiora a quem
eu fiz sofrer tanto… pobre Madre Superiora! (Isto foi repetido dez
ou quinze vezes).
Ai!
Se soubessem o que eu sofro! Rezai por mim. Sofro por toda parte, e
muito.
Ó
meu Deus, como sois misericordioso! Ai! Ninguém pode imaginar o que
seja o Purgatório! É preciso ser muito boa e ter compaixão das
almas!
Há
um grande espaço entre o Purgatório e o Céu! Às vezes ouvimos um
eco das alegrias que desfrutam os Bem-aventurados no Céu! Todavia, é
como que um castigo para nós, porque nos dá um grande desejo de ver
a Deus. No Céu há luz pura… no Purgatório, profundas trevas…
Deus
vos ama mais do que às outras. Não vos deu já tantas provas disto?
Madre
E. está no Céu. Era uma pessoa escondida e muito interior.
Não,
eu não sou o Diabo! Sou a Irmã M.G.; eu vos hei de atormentar até
que estejais no Céu. Depois, eu rezarei por vós.
Sim,
eu posso rezar desde já e eu o farei todos os dias. Haveis de ver se
as Almas do Purgatório são ingratas!
As
almas muito culpadas não veem a Santíssima Virgem.
Quando
se liberta uma alma do Purgatório, é uma grande alegria para Deus.
O que se lê nos livros a este respeito é bem verdade.
Eu
terei um pouco de alívio no dia de Páscoa.
Se
cuidardes bem de mim, Deus vos concederá graças como Ele não deu a
ninguém.
Podeis
dizer o vosso Saltério por diversas almas a um tempo, mas antes de o
recitar tenha o cuidado de dirigir a intenção como se vós o
pudésseis rezar por intenção de cada uma delas, e todas hão de
aproveitar como se fosse recitado um para cada uma.
Há
uma penitência especial no Purgatório para as religiosas que
fizeram sofrer as suas Superioras. Para estas o Purgatório é
terrível.
1874
(24
de março, 2º Domingo de Páscoa) – Ide muitas vezes quanto vos
for possível, amanhã, diante do Santíssimo Sacramento. Como eu vos
acompanho, terei de estar perto do bom Deus, e isto me alivia.
(Anunciação)
– Estou agora, no segundo Purgatório. Desde minha morte eu estava
no primeiro, onde se sofrem dores muito grandes. Sofre-se também
muito no segundo, porém, menos que no primeiro.
Sede
sempre um apoio da vossa Superiora.
(Maio)
— Eu estou no segundo Purgatório desde o dia da Anunciação da
Santíssima Virgem. Neste dia, vi pela primeira vez a Santíssima
Virgem, porque no primeiro Purgatório a gente não a vê. A visita
de Maria nos anima, e depois esta boa Mãe nos fala do Céu. Enquanto
a vemos, nossos sofrimentos parecem diminuídos.
Ai!
como desejo ver o Céu! Ó que martírio sofremos desde que
conhecemos o bom Deus!
O
que eu penso… Deus o permite para o vosso bem e para meu alívio.
Ouvi bem o que vos vou dizer: Deus tem grandes desígnios, graças
para vos conceder. Quer Ele que salveis um grande número de almas.
Se por vosso procedimento puserdes obstáculo a isto, um dia haveis
de responder por todas as almas que poderíeis ter salvo.
É
verdade que não sois digna, mas Deus permitiu isto tudo… Ele é o
Senhor e concede as suas graças a quem lhe apraz.
Fazeis
muito bem em rezar e mandar rezar para São Miguel. A gente é muito
feliz na hora da morte por ter confiança, em alguns Santos, para que
sejam nossos protetores junto de Deus naquele terrível momento.
Lembrai
às vossas filhas as grandes verdades eternas. É preciso abalar as
almas de vez em quando com estas verdades.
Não
deveis viver senão para Deus. Procurai em toda parte e sempre a
glória de Deus.
Quanto
bem não podeis fazer às almas!
Nada
deveis fazer que não seja para agradar a Deus. Antes de cada ação,
recolher-se um momento e ver se é coisa que agrade a Deus. Tudo pelo
vosso Jesus. Ó, amai-O muito!
Sim,
eu sofro, mas o meu maior tormento é não ver a Deus. É um martírio
contínuo que me faz sofrer mais do que o fogo do Purgatório. Se
mais tarde chegardes a amar a Deus como Ele o quer, haveis de sentir
um pouco desta fraqueza que faz desejar a união com o objeto do seu
amor: o bom Jesus.
Sim,
nós vemos algumas vezes a São José, mas não tantas vezes como a
Nossa Senhora.
É
preciso que fiqueis indiferente para com tudo, exceto para com Deus.
Eis como chegareis ao cume da perfeição a que Jesus vos chama.
Madre
I. não teve as Missas que mandou dizer por ela. As religiosas não
têm o direito de dispor dos seus bens. É contra a pobreza.
Deus
nunca recusa as graças que lhe pedem numa oração bem feita.
O
Purgatório das religiosas é mais longo e rigoroso que o das pessoas
do mundo, porque abusaram mais das graças.
Sim,
Deus ama muito a Madre Superiora. Vede que Ele lhe dá uma boa cruz
para carregar. Eis a melhor prova do seu amor por ela.
Ninguém
pode imaginar o sofrimento que se tem no Purgatório! Ninguém pensa
nisto neste mundo. As comunidades religiosas também se esquecem
disto. Eis porque Deus quer que aqui se reze, especialmente pelas
Almas do Purgatório, e que se inspire esta devoção às alunas, a
fim de que elas por sua vez falem dela no mundo.
Não
tenhais medo das fadigas. Desde que sejam por Deus, sacrificai tudo
por Ele.
Obedecei
à vossa Superiora prontamente. Que ela vos faça virar por todas os
lados como queira. Sede sempre humilde. Humilhai-vos sempre até o
centro da terra, se isto fosse possível.
M.
está no Purgatório; está no Purgatório porque ela paralisou o bem
que as Superioras poderiam ter feito, por suas palavras astuciosas.
Tomai
como prática a presença de Deus e a pureza de intenção.
Deus
procura almas devotadas que O amem só por Ele. Há tão poucas! Quer
Ele que sejais do número de suas verdadeiras amigas. Pouca gente
ama a Deus. Muitos julgam que O amam, mas, na realidade só amam
a si próprios. Eis a verdade…
Não,
nós não podemos ver a Deus no Purgatório… Então seria já o
Céu!
Quando
uma alma procura a Deus sinceramente, por amor e verdadeiramente no
seu coração, Ele nunca permite que seja ela enganada.
Entregai-vos,
sacrificai-vos, imolai-vos por Deus. Nunca podereis fazer demais por
Ele.
Pensai
bem que só depois que a gente se encheu bem de piedade é que pode
difundi-la para os outros.
Não
tenhais respeito humano, ainda mesmo para com as Irmãs mais antigas.
Dizei sempre alguma coisa quando se tratar de defender a Superiora.
Não,
eu não vejo o bom Deus quando Ele está exposto. Sinto Sua presença.
Vejo como vós, com os olhos da fé, mas a nossa fé é muito mais
viva do que a vossa. Nós sabemos, sim, nós sabemos bem o que é o
bom Deus!
Tende
sempre Deus convosco. Dizei-lhe tudo como a um amigo e vigiai muito o
vosso interior.
Para
se preparar bem para a Santa Comunhão é preciso amor antes, durante
e depois, durante a ação de graças. Amor, sempre amor.
Deus
quer que não penseis senão n’Ele, que não vivais senão para
Ele, e não sonheis senão com Ele, não vos volteis senão para Ele.
Mortificai
vosso espírito, vossa língua, isto será muito mais agradável a
Deus do que as mortificações do corpo, que muitas vezes procedem de
nossa própria vontade.
É
necessário proceder para com Deus como para com um pai, um amigo
cheio de ternura, um esposo querido.
É
preciso derramar toda a ternura de vosso coração sobre Jesus, sobre
Ele tão somente, e dar tudo, inteiramente tudo!
Sim,
cantareis por toda a eternidade as misericórdias infinitas de Deus
para convosco.
É
preciso amar tanto a Jesus, e de tal modo, que Ele encontre em vosso
coração uma doce mansão onde possa repousar (se assim posso
dizer), das ofensas que recebe em toda parte. É necessário que O
ameis pelos indiferentes, pelas almas relaxadas e covardes e por vós
em primeiro lugar. É preciso amá-lO tanto de modo que o vosso
exemplo toque.
(12
de dezembro) — Se amardes a Deus, Ele não vos há de recusar nada.
Quando uma pessoa ama realmente a uma outra, sabeis muito bem como
ela vira e revira em torno dela para obter um sim, para que ela peça
alguma coisa e obtenha logo o que deseja. Assim faz Deus para
convosco. Ele vos concederá tudo quanto lhe pedirdes.
Deus
quer que vos ocupeis só com Ele, com seu amor, e em cumprir sempre a
Sua vontade Santíssima.
Quando
a gente se ocupa com Deus, é necessário se ocupar também com a
salvação das almas. Não haveria grande mérito em se salvar
sozinho.
1875
(Fevereiro)
— Vigiai muito o vosso interior. Vossa vida deve ser uma vida de
contínuos atos interiores de amor, de mortificação. Nada fazer de
extraordinário. Vida bem oculta, bem unida a Jesus.
Deus
quer que ameis a Ele unicamente. Se não puserdes obstáculos às
Suas graças, Ele tem algumas extraordinárias para vos conceder, e
que não deu ainda a ninguém. Ele vos ama de modo todo especial. Não
percebestes ainda isto? Procuremos adorar os Seus desígnios sem
aprofundá-los. Ele é o Senhor e faz com as almas o que bem Lhe
apraz. Sede sempre muito humilde, bem escondida. Não vos preocupeis
com ninguém. Cuidai tão só do que diz respeito à vossa própria
santificação.
Amai
o bom Deus. Ó como são felizes as almas que possuem este tesouro!
Vossa
grande penitência nesta vida não há de ser só a ausência de
Jesus, mas uma grande dor por todo o pesar que Lhe causastes no
passado, pelo excesso das graças de que vos cumulou e vos há de
conceder ainda, e a impotência em que vos encontrais para retribuir
todo amor que desejais Lhe dar.
(14
de maio) — Ao fazer o vosso retiro, procurai ter a intenção de
não perder nenhuma das graças que Deus vos conceder, e seguir
sempre o atrativo de Suas graças, ter um grande espírito de fé e
um grande recolhimento. Há muito tempo vos estou perseguindo por
isto.
É
preciso andar sempre tão recolhida, em todas as ações como quando
se fica na ação de graças depois da Santa Comunhão.
Não
deveis fazer nada sem vos recolherdes um instante, e sem consultar
Jesus que está em vosso coração: Entendestes?
Ó,
sim, eu amo o bom Deus, mas à medida que uma alma se purifica, isto
é, se aproxima do céu, seu amor também cresce cada vez mais.
Pensai
muitas vezes no amor que tem por vós. Sede bem fiel a todas as
inspirações da graça.
Recomeçai
cada dia como se nada ainda tivésseis feito, e sem nunca desanimar.
(18
de maio) — Ó! O número das verdadeiras religiosas, as que têm o
verdadeiro espírito, é muito pequeno! Quase uma por cinquenta! É
preciso que sejais, custe o que custar, do número destas
privilegiadas.
À
medida, e na proporção em que eu for me libertando, haveis de me
ouvir mais claramente, e, quando eu estiver livre, imediatamente
serei para vós um Anjo da Guarda. Mas um Anjo que não haveis de
ver.
(20
de junho) — Deus pede mas não obriga, não força. Oferece. Ele só
quer o coração todo para Ele.
É
preciso para obter as graças de Deus, tanto para vós como para a
Comunidade, que vos renuncieis de manhã à noite, para que nada
procureis em coisa alguma, e tudo seja bem escondido aos olhos das
criaturas, e que só Deus saiba de tudo e veja vossos pequenos
sacrifícios de cada dia.
Experimentais
uma repugnância por diversas coisas. Deus o permite a fim de que
possais merecer mais. Prestai atenção e não deixeis perder nada
disto.
Quereis
saber por que Deus não vos concede agora as graças que Lhe pedis? É
porque não tendes bastante confiança n’Ele.
É
preciso que ameis a Deus tanto, que encontre Ele em vosso coração
uma doce mansão onde possa repousar. É preciso que Jesus vos conte
os seus sofrimentos, os aborrecimentos que Lhe causa o mundo todo o
dia, e, da vossa parte, testemunhai-Lhe tanto amor que fique Ele
consolado.
(14
de agosto) — Não estejais a dar ouvidos a vós mesma. Confiai
nele, já não vos disse tantas vezes? Será que Ele não há de
querer vos conceder todas as forças necessárias para O servir?
(15
de agosto) — Sim, nós vimos a Santíssima Virgem. Ela subiu ao céu
com muitas almas, mas eu… eu fiquei!…
Sentis
calor? Ai! Se soubésseis o calor do Purgatório comparado ao vosso!
Uma pequenina oração nos faz tanto bem! Ela nos refrigera como um
copo de água fria dada a uma pessoa que tem muita sede.
Fazei
todas as vossas ações com olhar em Deus. Eu vos digo: consultai-O
antes de tudo que tiverdes de fazer ou dizer. Ó, então, quantas
graças se hão de derramar sobre vós! Que seja a vossa vida uma,
vida de fé e de amor, e se assim fizerdes, já sabeis o que vos
disse.
Ocupai-vos
do único objeto que há de ser o móvel de toda a vossa vida: Jesus.
Sim, Jesus de manhã, Jesus de noite, Jesus de manhã à noite.
(20
de agosto) — Fazei todas as vossas ações sob o olhar de Deus,
simplesmente, e neste mundo, não procureis agradar senão a Ele.
Enquanto não chegardes a ‘este despojamento de todas as coisas
para, não atender senão a Ele, Ele também não vos deixará em
paz.
(8
de setembro) — Deus permite que certas almas tenham uma grande
ternura de coração, enquanto outras são menos sensíveis. Tudo
está nos Seus desígnios. As que têm um coração mais amoroso,
este coração Ele o fez assim só para Ele, a fim de que derramem
todo este amor no seu Coração adorável. Ele é o Senhor, e dá a
cada um o que bem Lhe apraz.
Sofro
mais de noite quando repousais. É verdade que eu trago sempre o meu
Purgatório comigo, mas de dia tenho permissão de vos acompanhar por
toda parte, e sofro um pouco menos. Tudo isto é uma permissão de
Deus.
(8
de dezembro) — Amai muito ao bom Deus. Não tenhais receio do
sofrimento. Confiai muito n’Ele e nunca em vós. Não respireis,
não vivais senão para Jesus Cristo!
(12
de dezembro) — Deus Nosso Senhor deseja que, antes da adoração
perpétua a façais primeiro no coração. Compreendeis bem… É
preciso também que vos habitueis a fazer muitas vezes a Comunhão
espiritual. Dela haveis de tirar frutos abundantes e os mais
salutares, se a fizerdes com boas disposições.
1876
Não
só deveis preparar uma morada para Jesus, mas convidá-lO também.
Que adiantaria preparar um belo cômodo para um amigo se não o
convidassem para entrar?
(Fevereiro)
— Sim, é verdade que no céu Deus recebe adorações infinitas;
mas, como na terra é que Ele é ultrajado, quer também da terra
receber a reparação. E de vós espera esta reparação para que O
ameis, a fim de desagravá-lO pela vossa ternura, do abandono que Ele
sente por toda parte.
(Anunciação)
— Quando Deus quer uma alma só para ele, começa por espremê-la
como as uvas no lagar para extrair o suco. Depois, quando esta alma
assim espremida venceu as suas paixões, os defeitos, a procura de
si, então dispõe dela como bem quer, e se ela é fiel logo ficará
toda transformada, e então Jesus a cumula de graças escolhidas e a
inunda do seu amor.
(16
de julho) — A Eucaristia deve ser para vós um ímã, que vos
atraia sempre cada vez mais. A Eucaristia, numa palavra, deve ser o
móvel de toda a vossa vida.
(28
de agosto) — Não tenhais outro desejo além do amar a Deus sempre
mais, e de vos unir cada vez mais a Ele. Deveis procurar cada dia
estar mais unida a Jesus. Vossa vida deve ser uma vida interior e de
união a Jesus, pelos sofrimentos do corpo e da alma, e,
principalmente pelo amor.
Deus
fez o vosso coração só para Ele. Abandonai-vos a Nosso Senhor sem
nunca olhar nem para trás nem para diante. Lançai-vos nos seus
braços divinos e junto ao coração, e depois de lá estar, não
tenhais medo de nada.
Fazei
cada manhã uma oração para adorar a Nosso Senhor em todas as
igrejas onde se acha abandonado. Transportai-vos então pelo
pensamento para essas igrejas e dizei a Jesus então quanto O amais e
quereis reparar o abandono em que Ele se encontra. Renovai esta
intenção muitas vezes no dia. Dareis um grande prazer a Jesus.
O
bom Deus deseja que penseis sempre n’Ele e que façais tudo sob os
Seus divinos olhares. Em vossas orações e trabalhos, numa palavra,
nunca O deveis perder de vista quanto possível. Tudo isto,
entretanto, há de ser feito com tranquilidade e sem afetação.
Não
tenhais nenhum desejo a não ser o de amar a Deus cada vez mais.
No
fim do vosso retiro tomai como resolução pensar muitas vezes no que
vos vou dizer: Deus somente! Meu Deus e meu tudo! Tudo passa e passa
depressa! O Tabernáculo é meu repouso! A Eucaristia é minha vida.
A Cruz é minha herança. Maria, minha Mãe. O Céu, minha esperança.
(20
de novembro) — Não é preciso andar examinando e julgando o que
fazem as Irmãs. Não tereis que dar contas a Deus por elas e nem vos
modelar por elas. Deus não pede de todos a mesma perfeição.
Mortificai-vos e não deveis andar examinando se as outras não fazem
o que fazeis, porque Deus não exige isto.
(Natal)
— Sim, eu estou muito aliviada, e eu creio que o termo do exílio
não está longe. Ai! Se soubésseis como desejo ver a Deus.
1877
(13
de fevereiro) — Diante do Santíssimo Sacramento — Vede como
Jesus está só! Neste momento poderia ter Ele aqui mais gente se
houvesse um pouco mais de boa vontade. Todavia, que indiferença até
entre as almas religiosas. Nosso Senhor é muito sensível no
Santíssimo Sacramento! Pelo menos, então, amai-O pelas almas
injustas, e o bom Jesus sentir-se-á confortado e consolado neste
desprezo.
(12
de maio) — Mortificai-vos no corpo, mas sobretudo no espírito.
Esquecei-vos. Fazei um ato total de abnegação de vós mesma. Não
repareis nunca no que fazem as outras. O bom Deus não pede a mesma
perfeição de todas as almas. Nem todas são esclarecidas com as
mesmas luzes. Vós, a quem Jesus ilumina, não olheis senão para
Ele. Que só Ele seja o vosso fim em tudo.
Tende
uma confiança sem limites na bondade de Jesus. Se soubésseis que
poder tem Ele, haveríeis de pôr assim limites ao seu poder? O que
não pode Ele em favor de uma alma que O ama.
Preparai-vos
sempre com muito cuidado para a Santa Comunhão, para a Confissão e
para o Oficio Divino, enfim, para tudo que tende à uma união maior
com Nosso Senhor.
Eu
já vos disse que o bom Deus procura neste mundo almas que O amem,
mas com este amor de criança, esta ternura respeitosa, é verdade,
mas cordial. Pois bem! Ele não encontra estas almas… O
número delas é muito menor do que se pensa. Consideram o bom Jesus
muito grande para poderem se achegar a Ele, e o amor que Lhe dão é
muito frio! O respeito, afinal, se degenera numa certa indiferença.
Eu bem sei que nem todas as almas são capazes de compreender este
amor que Nosso Senhor pede; mas vós, a quem Jesus fez compreender
isto, reparai esta indiferença, esta frieza. Pedi-lhe que dilate o
vosso coração para poder conter muito amor. Por vossa ternura e as
respeitosas familiaridades que Jesus vos permite, podeis reparar o
que não é dado a todos compreender. Fazei isto, sim, e sobretudo
amai muito.
Não
vos canseis jamais de trabalhar. Recomeçai cada dia como se
tivésseis de começar e não tivésseis feito nada. Esta renúncia
perpétua da própria vontade de seus cômodos, e da maneira, própria
de ver, é um longo martírio, mas muito meritório e muito agradável
a Deus.
1878
(Retiro
de agosto) — Os grandes pecadores e os que ficaram toda a vida,
afastados de Deus pela indiferença, e bem assim as religiosas que
não foram o que deveriam ter sido, estão no grande Purgatório. E
lá as operações que se fazem por estas almas não são aplicadas.
Elas foram indiferentes para com Deus em vida, e por sua vez agora
Ele, o Senhor, é indiferente para com elas e as deixa numa espécie
de abandono, a fim de que, elas reparem assim, a sua vida que foi
nula.
Ah!
Não podeis imaginar nem representar ainda na terra quem é Deus.
Nós, porém, O sabemos e O entendemos, porque nossa alma está
desprendida de todos os laços que a prendiam e impediam de
compreender a Santidade, a Majestade do bom Deus, Sua grande
misericórdia. Somos mártires, nós nos derretemos de amor, por
assim dizer. Uma força irresistível nos leva para o bom Deus como
nosso Centro, e, ao mesmo tempo, uma força nos impele para o lugar
da nossa expiação. Estamos neste estado, oprimidas e aflitas pela
impossibilidade de satisfazer os nossos desejos.
Ó
que sofrimento! Nós, porém, o merecemos e aqui ninguém murmura.
Queremos o que Deus quer. Ninguém poderá compreender na terra o que
padecemos!
Sim,
eu estou bem aliviada, eu não estou mais no fogo. Agora eu só tenho
o desejo insaciável de ver a Deus, sofrimento bem cruel ainda!
Sinto, todavia, que se aproxima o termo do meu exílio e me aproximo
do lugar a que aspiro com todos os meus desejos.
Eu
o percebo muito bem. Eu me sinto pouco a pouco mais livre, mas dizer
quando chegará o dia, não o sei. Só Deus o sabe! Talvez eu ainda
tenha de ficar anos a desejar assim o Céu. Continuai sempre a rezar
e eu vos pagarei mais tarde, embora eu desde já reze por vós, e
muito.
Ó
como são grandes as misericórdias de Deus para convosco! Quem
poderá compreender, porque Jesus age assim para convosco? Por que
vos ama muito mais do que as outras? Será que o mereceis? Não. Pois
o mereceis até bem menos do que outras almas. Mas Ele quer proceder
assim para convosco! É Ele o Senhor das Suas graças.
Sede
então muito reconhecida. Ficai sempre em espírito aos pés do
Senhor, e deixai que Ele faça o que quiser. Vigia muito vosso
interior. Sede bem fiel ao examinar tudo que possa agradar a Jesus.
Não tenhais olhos nem coração senão para Ele. Consultai-O sempre
antes de qualquer coisa. Abandonai-vos ao que Ele quiser, e depois,
ficai tranquila. Tudo quanto vos disse se há de cumprir. Não deveis
pôr obstáculos, é Jesus quem o quer assim.
Quando
eu estiver lá, eu vo-lo direi, mas eu penso que as grandes festas no
céu se celebram por um duplo êxtase de admiração, de ação de
graças, e sobretudo, de amor.
Para
que chegueis a uma grande união com Deus, como já vos disse, é
necessário que nada vos perturbe: penas, alegrias, sucessos,
insucessos, boa, ou má graça. É necessário que nada disto vos
impressione nem um pouco, mas que Jesus domine tudo em vós e que
tenhais os olhos fixos n’Ele para compreender Seus menores desejos.
Eu
vos repito ainda, não tenhais medo de mim. Não me vereis no
sofrimento. Mais tarde, quando estiverdes mais forte de alma, vereis
as Almas do Purgatório. Mas não penseis que será para vos
assustar. Deus vos dará então a coragem necessária, e tudo se fará
para cumprir a Sua santa vontade.
— Mas
isto não é um castigo?
Resposta:
— Não. Eu estou aqui para meu alívio e para vossa santificação.
Prestai um pouco de atenção ao que vos digo…
— É
verdade, mas eu acho estas coisas tão esquisitas… que posso eu
pensar de tudo isto? Não é ordinário estar a vos escutar assim…
Resposta:
— Eu compreendo bem o vosso embaraço. Eu sei o que tendes sofrido
com isto, mas já que Deus o permite, e é para meu alívio, deveis
ter piedade de mim, não é? Quando eu estiver livre, vereis como eu
vos darei mais do que fizestes por mim. Eu, desde já, rezo muito por
vós.
– Onde
está a Irmã X?
Resposta:
— No Grande Purgatório, onde ela não recebe as orações de
ninguém. O bom Deus fica muito contrariado, se assim posso falar, na
morte de muitas religiosas, porque Ele chamou estas almas para que O
servissem fielmente na terra, e fossem depois da morte imediatamente
O glorificar no Céu. E acontece o contrário, pelas suas
infidelidades, ficam elas muito tempo no Purgatório, muito mais
tempo até que as pessoas do mundo, que não receberam tantas graças!
1879
(Retiro
de setembro) — Nós vemos São Miguel como se veem os Anjos, eles
não têm corpo. São Miguel vem ao Purgatório buscar todas as almas
que já estão purificadas, porque é ele quem as conduz ao Céu.
Sim, é verdade, ele está entre os Serafins, como me disse
Monsenhor. É o primeiro Anjo do céu. Nossos Anjos da Guarda vêm
também nos ver, mas São Miguel é muito mais belo do que todos
eles! Quanto à Santíssima Virgem, nós a vemos com o seu corpo. Ela
vem ao Purgatório nas Suas festas e volta para o Céu com muitas
almas. Enquanto Ela está conosco, não sofremos. São Miguel a
acompanha, mas enquanto São Miguel está só, nós sofremos como
sempre.
Quando
eu vos falei do Grande, e do segundo Purgatório, era, para vos fazer
compreender. Eu queria dizer que há diferença de graus no
Purgatório. Assim, eu chamo o Grande Purgatório,
o lugar onde estão as almas mais culpadas, onde eu fiquei dois anos,
sem poder dar nenhum sinal dos meus tormentos, pois no ano em que eu
comecei a me queixar que eu ainda estava no Grande Purgatório quando
comecei a vos falar.
No
segundo Purgatório, que é sempre o Purgatório,
mas que, no entanto, é diferente do primeiro, sofre-se também,
porém, menos do que no primeiro Purgatório. Finalmente, há um
terceiro lugar que é o Purgatório do desejo.
Lá não há fogo. Lá estão as almas que não desejaram bastante o
céu e que não amaram bastante a Deus neste mundo. Eu estou agora lá
neste momento.
Nestes
três purgatórios, há ainda graus. À medida que uma alma se
purifica, sofre menos, e já não sofre os mesmos tormentos. Tudo
está em proporção às faltas que deve expiar.
O
Retiro foi bom. Há de produzir muitos frutos. O Diabo é que não
está contente.
O
bom Deus ama muito o Padre que vos pregou o retiro.
Dizei
ao bom Padre que eu agradeço o “Memento” que prometeu
rezar por mim na Santa Missa. Da minha parte, não serei ingrata.
Pedirei a Deus que lhe conceda as graças de que ele necessita.
Fizestes
muito bem em lhe dizer esta tarde tudo que vos disse. Foi São Miguel
quem vo-lo enviou. A Comunidade aproveitou, mas ele veio aqui
principalmente para vós. São Miguel, a quem amais e que vos
protege, quis que fosse um dos seus missionários, que soubesse tudo
o que vos disse. Deus tem desígnio nisto. Conhecereis mais tarde.
Mais tarde também podereis lhe dar, algumas novas mais precisas
sobre São Miguel.
Vós
me perguntais se o Padre P. é agradável a Deus? Eis o que deveis
lhe dizer: que ele continue a proceder como o fez até aqui. O que
Deus mais gosta nele é a sua pureza de intenção, o seu espírito
interior e a grande bondade para com as almas. Dizei-lhe, que ele
continue a se unir mais ao Coração de Jesus. Quanto mais íntima
for esta união, mais a sua vida toda será proveitosa e suas ações
serão proveitosas para as almas e meritórias para o Céu.
Eu
não espero dele uma perfeição comum. Que ele recomende nas missões
e retiros, o oferecimento das ações do dia, porque no mundo, e
mesmo nas Comunidades, não se pensa bem nisto, e muitas ações boas
não terão recompensa no último dia, porque não foram oferecidas a
Deus antes de serem executadas. Que ele não perca nunca a coragem,
embora veja que seus esforços não produzem o que deseja. Pense ele
que Deus fica satisfeito com seus trabalhos, ainda que tenha
conseguido dar a um coração, um quarto de hora de amor de Deus que
seja.
Pedi
muito por mim, a fim de que, logo alcance o objeto de meus longos e
tão grandes desejos. Eu vos hei de ser, muito mais útil no céu do
que aqui. Tivestes um bom pensamento de me convidar no encerramento
do retiro, para adorar Jesus presente em vosso coração, durante a
ação de graças depois da Comunhão. Se já o tivésseis feito até
agora, eu teria tido muito mais alivio. Fazei também assim antes de
todas as vossas orações. Depois oferecereis um pouco do vosso
trabalho por mim, eu tenho um desejo tão grande de ver a Deus!
Eu
espero há muito tempo, um pouco mais de amor, em tudo o que fazeis.
Quanto mais uma alma ama a Jesus, tanto mais as suas orações e
ações são meritórias diante d’Ele. No Céu, só o amor é que
há de ser recompensado. Tudo o que for feito com outra intenção,
será nulo e por conseguinte, perdido. Amai então a Jesus como Ele
quer ser amado, com isto eu sinto um grande alívio.
– Deus
está um pouco mais contente comigo nestes dias?
Resposta:
— Sim, Ele está muito contente convosco, porque Lhe procurastes
agradar mais. Já notastes como Ele é bom? Não vos deu tanto prazer
também nestes dias? Pois bem, eis como Ele há de proceder sempre
para convosco. Quanto mais fizerdes por Ele, mais Ele fará por vós.
Sou tão feliz ao ver que realmente quereis trabalhar para a vossa
perfeição, e se fosse preciso ficar mais tempo no Purgatório, eu o
faria de boa vontade, se soubesse que por este sofrimento, alcançaria
que chegásseis ao estado em que Deus vos quer ver, para cumprir os
desígnios que tem sobre vós.
Não
olheis nunca para trás, para examinar muito vosso procedimento.
Entregai tudo nas mãos de Deus e caminhai sempre avante.
Vossa
vida deve se resumir em duas palavras: sacrifício e amor. Sacrifício
de manhã à noite, e ao mesmo tempo: amor.
Se
soubésseis o que é o bom Deus! Não haveria sacrifício que não
quisésseis fazer, sofrimento que não quisésseis padecer para O ver
um minuto somente, e então, ficaríeis bem satisfeita, bem
consolada, ainda que nunca mais tivésseis de vê-lO. Que não será,
então, vê-lO por toda eternidade?
(13
de agosto) — Qual é o melhor meio de glorificar a São Miguel?
Resposta:
— O meio mais eficaz de o glorificar no Céu e na terra, é
recomendar quanto possível, a devoção às Almas do Purgatório e
fazer conhecer a grande missão que ele tem junto das almas
sofredoras. Ele é o encarregado de levá-las do lugar da expiação
e introduzi-las depois da satisfação, no Céu, morada eterna. Cada
vez que uma alma vem aumentar o número dos eleitos, Deus é
glorificado por ela e esta glória, de certo modo, reflete sobre o
glorioso Ministro do Céu. É uma honra para ele, apresentar ao
Senhor as almas que irão cantar as infinitas misericórdias e unir
Seu reconhecimento aos dos eleitos por toda eternidade. Eu não posso
vos fazer compreender, todo o amor que o celeste Arcanjo tem por seu
divino Mestre e o amor que por Sua vez, Deus tem por São Miguel e
bem como a grande piedade que São Miguel tem de nós. Ele nos dá
coragem no sofrimento, quando nos fala do Céu. Dizei ao Padre que,
se ele quiser dar um grande prazer a São Miguel, recomende muito a
devoção às Almas do Purgatório. Não se pensa muito nisto neste
mundo! Quando se perdem os parentes e amigos, fazem algumas orações,
choram durante alguns dias, depois… tudo se acaba! As almas ficam
abandonadas! É verdade que isso elas merecem muito porque não
rezaram pelos mortos quando estavam na terra, e o divino Juiz, só
nos dá no outro mundo, o que fazemos neste. As pessoas que deixaram
esquecidas as Almas do Purgatório, serão esquecidas também, mas se
lhes tivessem dado a inspiração de rezar pelos defuntos, e lhes
feito conhecer o que é o Purgatório, talvez elas tivessem procedido
de outra maneira, de modo muito diferente…
Quando
Deus o permite, podemos nos comunicar diretamente com o Arcanjo, à
maneira dos espíritos e como as almas se comunicam entre si.
— Como
se festeja São Miguel no Purgatório?
Resposta:
— No dia de sua festa, São Miguel vem ao Purgatório e volta para
o Céu com muitas almas, principalmente as almas que lhe tiveram
devoção na terra.
— Que
glória recebe São Miguel da sua festa na terra?
Resposta:
— Quando se faz a festa de um Santo na terra, ele recebe no Céu
uma glória acidental. Ainda mesmo que não o festejem na terra, em
memória de alguma ação especial heroica que praticou neste mundo,
ou da glória que deu a Deus em alguma ocasião, nesta época, recebe
no Céu uma recompensa especial que consiste numa maior glória
acidental, junta com a que lhe dão na terra.
A
glória acidental que recebe o Arcanjo São Miguel, é superior a de
todos os outros Santos, porque esta glória de que vos falo, é
proporcionada à grandeza do mérito daquele que a recebe, como
também ao valor da ação que mereceu esta recompensa.
— Conheceis
as coisas da terra?
Resposta:
— Eu não as conheço senão enquanto Deus o quer, e meu
conhecimento é muito restrito. Conheço alguma coisa da comunidade e
é só. Não sei o que se passa na alma das outras pessoas, à
exceção da vossa, e isto porque Deus o permitiu, para vossa
perfeição. O que vos digo algumas vezes de pessoas particulares, e
ainda vos direi, Deus mo fez conhecer no momento, mas fora disto não
sei mais de coisa alguma. Certas almas, têm conhecimentos mais e
mais extensos do que eu. Tudo isto é proporcionado ao mérito.
Quanto
aos graus do Purgatório, eu vos posso falar deles, pois eu passei
por lá. No Grande Purgatório há
diferentes graus. No mais profundo e baixo, no que mais se sofre, e
que é um inferno momentâneo; lá estão os pecadores que cometeram
enormes crimes durante a vida, e que a morte os surpreendeu neste
estado, sem que tivessem tempo de se penitenciarem. Salvaram-se por
milagre, muitas vezes pelas orações dos parentes e de pessoas
piedosas. Algumas vezes nem puderam se confessar, e o mundo os julgou
condenados, mas o bom Deus, cuja misericórdia é infinita, lhes deu
no momento da morte a contrição necessária para se salvarem, tendo
em vista algumas ações boas que praticaram na vida. Para estas
almas, o Purgatório é terrível! É um inferno, exceto isto, que no
Inferno se amaldiçoa a Deus, enquanto que no Purgatório O bendizem
e agradecem, por terem sido salvos.
Logo
em seguida, vêm as almas que, sem terem cometido grandes crimes,
foram indiferentes para com Deus. Não cumpriam o dever pascal, e
convertidas na hora da morte, nem puderam às vezes comungar, e no
Purgatório, se encontram em penitência de sua longa indiferença.
Sofrem penas inauditas, abandonadas, sem orações. Se se fazem
orações por elas, não as podem aproveitar.
Depois,
enfim, há ainda o Purgatório das religiosas e dos religiosos
tíbios, que se esqueceram dos seus deveres, indiferentes para com
Jesus; Padres, que não exerceram seu Ministério, com a reverência
devida à Majestade Divina e não fizeram as almas que lhe foram
confiadas, amar bem a Deus.
Eu
estou neste grau. No segundo Purgatório, se encontram as almas que,
morrem culpadas de pecados veniais não expiados antes da morte, ou
então, em pecados mortais perdoados, mas dos quais não satisfizeram
inteiramente à Justiça Divina. Há também no Purgatório,
diferentes graus, segundo os méritos das pessoas.
Assim,
o Purgatório das pessoas consagradas e que receberam maiores graças,
é mais longo e mais penoso do que o das pessoas do mundo.
Finalmente,
o Purgatório do desejo, que se chama o Átrio ou
Vestíbulo do Céu. Poucas pessoas o evitam. Para o evitar é
necessário ter desejado ardentemente o céu, e tendo em vista Deus,
a presença e a visão de Deus. E é raro isto, porque muitas
pessoas, mesmo muito piedosas, têm medo de Deus e não desejam
bastante o Céu com ardor. Este Purgatório, tem seu martírio bem
doloroso como os outros. Estar privado da vista do bom Jesus, que
sofrimento!
— Conhecei-vos
uma às outras no Purgatório?
Resposta:
— As almas se comunicam entre si quando Deus o permite, porém, à
maneira das almas, sem palavras…
Sim,
é verdade que eu vos falo, mas sois um espírito? Havíeis de me
compreender se eu não pronunciasse as palavras? Para mim, pois, que
Deus o permitiu, eu vos compreendo sem que pronuncieis palavras com
os lábios. Há entretanto, comunicações de almas, assim, quando
vos vem um bom pensamento pelo vosso Anjo de Guarda, ou por Deus
mesmo. Eis a linguagem das almas.
— Onde
está o Purgatório?
Resposta:
— No centro da terra, próximo do Inferno (como o vistes depois da
Comunhão). As almas estão aí num lugar restrito, comparado à
multidão que aí se encontra, pois são milhares e milhares de
almas. Entretanto, que lugar ocupa uma alma? Cada dia aí chegam
milhares e milhares, e, a maior parte, dos trinta aos quarenta anos.
Eu vos digo segundo os cálculos da terra, porque aqui é outra coisa
muito diferente. Ah! Se soubessem e pensassem o que é o Purgatório,
e se soubessem que amargura é pensar, que a gente está aqui por
própria culpa! Estou aqui há oito anos, e parece-me que há dez mil
anos!… Ó, meu Deus! Dizei isto ao vosso Padre espiritual. Que ele
aprenda de mim o que é este lugar de sofrimento, a fim de que ele o
faça conhecer para o futuro. Ele há de experimentar por ele mesmo,
quanto é proveitosa, a devoção às Almas do Purgatório!
Deus
concede muitas vezes mais graças por intermédio das almas do
purgatório, do que pela intercessão dos próprios Santos. Quando o
Padre X quiser obter uma coisa com mais segurança, dirija-se de
preferência às almas que mais amaram a Santíssima Virgem neste
mundo, e que, por conseguinte, esta boa Mãe deseja libertar mais
depressa, e depois ele vos dirá se não foi muito bem tudo!…
Há
também algumas almas, que não ficam no Purgatório propriamente
dito. Assim, por exemplo, eu vos acompanho por toda parte, e quando
repousais, eu sofro mais, pois fico no Purgatório. Outras almas
fazem às vezes o seu Purgatório nos lugares onde pecaram, ao pé
dos santos altares, onde se encontra o Santíssimo Sacramento, mas
não importa o lugar onde se encontram, porque levam com elas o
sofrimento, embora sejam estes menos intensos do que no Purgatório
mesmo.
O
Padre tem razão quando vos diz, que não deveis procurar senão a
vontade de Deus em tudo o que fazeis. Será para vós felicidade, ver
a vontade de Deus em tudo o que acontece. Sofrimentos ou alegrias,
tudo vem igualmente de Jesus. Sede muito boa, duas vezes boa, para
dar prazer a Jesus, que é tão bom para convosco! Tende sempre os
olhos da alma abertos para Ele, a fim de prevenir o menor dos Seus
desejos. Ide mesmo adiante, a fim de Lhe dar prazer.
A
inglesa que se afogou junto do Monte São Miguel, foi diretamente
para o Céu. Teve ela a contrição necessária no momento da morte,
e ao mesmo tempo o Batismo de desejo. Tudo aconteceu por intercessão
de São Miguel. Feliz naufrágio!
Pio
IX foi direito para o Céu. Seu Purgatório estava já feito na
terra.
— Como
sabeis que M. P. foi direito para o Céu, pois não a vistes passar
pelo Purgatório?
Resposta:
— Deus me revelou e Ele também por pura bondade, permite que eu
saiba o que vós me pedis, quando eu não O vi ou não percebi por
mim mesma. A Justiça de Deus nos retém no Purgatório é verdade, e
nós o merecemos, mas crede que a sua misericórdia e seu Coração
Paterno, não nos deixam lá sem nenhuma consolação. Desejamos
muito nossa união com Deus, mas Ele não a deseja menos do que nós.
Na terra, Ele se comunica de uma maneira íntima a certas almas e se
compraz em lhes desvendar Seus segredos. As almas que lhe são
agradáveis, são as que no seu modo de proceder não vivem e não
respiram senão por Jesus, e só procuram agradá-lO. No Purgatório
há almas bem culpadas, mas arrependidas, e não obstante as faltas
que têm ainda a expiar, estão confirmadas em graça e não podem
mais pecar. São perfeitas. Pois bem, à medida, e na proporção que
uma alma se purifica no lugar da expiação, compreende melhor a
Deus, ou Deus e ela se compreendem melhor, sem entretanto se verem,
porque então não haveria mais Purgatório!
Se
nós não conhecêssemos a Deus mais do que aí na terra, nossas
penas, nosso martírio, não seriam tão poderosos, nosso martírio
tão cruel! O que faz nosso principal tormento, é a ausência
d’Aquele único objeto de nossos longos anos de desejos.
— E
quando uma alma é destinada a ter uma mais bela coroa no céu, não
tem também no Purgatório, mais graças do que as outras?
Resposta:
— Sim, quanto mais uma alma está destinada a ocupar um lugar mais
elevado no céu, também os seus conhecimentos são mais extensos e
sua união mais íntima com Ele no lugar da expiação. Tudo aqui é
proporcionado ao mérito.
— Os
três amigos de V. P. estão no Céu há muito tempo?
Que é feito das orações que se fizeram por eles?
Resposta:
— As pessoas que estão no Céu, e pelas quais rezam na terra,
podem dispor destas orações pelas almas que desejem aplicá-las. É
uma lembrança bem doce para as almas do outro mundo, ver que os
parentes e os amigos não as esqueceram na terra, embora não tenham
mais necessidade de orações. E em retribuição não são elas
ingratas!
Os
juízos de Deus são bem diferentes dos da terra. Ele olha para o
temperamento, o caráter, o que se fez por leviandade ou por pura
malícia. Conhece o fundo dos corações, não lhe é difícil ver o
que neles se passa. Jesus é muito bom, sim, mas é muito justo
também!…
— Que
distância há entre a terra que habitamos e o Purgatório?
Resposta:
— O Purgatório está no centro do globo. A terra mesma não é um
Purgatório? Entre as pessoas que nela moram, umas aí fazem o seu
Purgatório inteiramente pela penitência voluntária ou aceita.
Estas, depois da morte, vão diretamente para o céu. Outras, começam
o Purgatório na terra, porque a terra é um lugar de sofrimento, mas
estas almas como não têm bastante generosidade, vão acabar o seu
Purgatório da terra no Purgatório real.
— As
mortes repentinas são uma justiça ou uma misericórdia de Deus?
Resposta:
— Estas espécies de mortes às vezes são justiça e outras
misericórdia de Deus. Quando uma alma tem o temor de Deus e Deus
sabe que ela está preparada para comparecer diante d’Ele, para lhe
poupar os horrores da angústia que poderia ter nos últimos
momentos, Deus a retira deste mundo com uma morte repentina. Às
vezes também Deus toma estas almas por justiça. Não ficam de todo
perdidas, mas sem os últimos Sacramentos, ou recebendo-os às
pressas, sem estarem preparadas para a última viagem, seu Purgatório
é bem mais doloroso e se prolonga muito. Outros encheram a medida de
seus crimes, abafaram a voz de todas as graças divinas e Deus as
tira da terra, a fim de que não excitem mais a vingança divina.
— O
fogo do Purgatório é um fogo como o da terra?
Resposta:
— Sim, com esta diferença: o fogo do Purgatório é uma
purificação da Justiça Divina e o da terra é bem “doce”,
comparado com o do Purgatório. É uma sombra, junto dos grandes
braseiros da Divina Justiça.
– Como
uma alma pode se queimar?
Resposta:
— Por uma justa permissão de Deus. A alma foi verdadeira culpada,
pois o corpo nada mais fez que obedecê-la (que malícia, ter um
corpo morto?); a alma sofre, como se ela tivesse corpo para sofrer.
— Dizei-me
o que se passa na agonia e depois? A alma encontra a luz nas trevas?
Sob que forma se pronuncia a sentença?
Resposta:
— Eu não tive agonia, como bem sabeis, mas eu posso vos dizer que
no último momento decisivo, o Demônio emprega toda a sua raiva em
torno dos agonizantes. Deus, para dar mais mérito às almas, permite
que elas sofram as últimas provas nestes últimos combates,
sobretudo as almas fortes e generosas, a fim de que, tenham um lugar
mais belo no céu. Muitas vezes, no fim da vida, naqueles transes da
morte, naquelas lutas terríveis contra o Anjo das Trevas (fostes
testemunha disto…), saem elas vitoriosas. Deus não permite que uma
alma que lhe foi dedicada na vida, pereça nestes últimos momentos.
As pessoas que amaram a Santíssima Virgem e a invocaram toda a vida,
recebem dela muitas graças nas últimas lutas. Acontece o mesmo para
as que foram devotas de São José e de São Miguel, ou de algum
Santo. Nesta hora, então, é que a gente é muito feliz de ter um
intercessor junto de Deus neste momento penoso! Há almas que morrem
tranquilas, sem nada experimentarem do que acabo de vos dizer. Deus
tem seus desígnios em tudo. Faz ou permite tudo para o bem
particular de cada um.
Como
hei de vos descrever o que se passa depois da agonia? Não é
possível compreender o que se passa então. Vou procurar explicar da
melhor maneira que puder. A alma, ao deixar o corpo, se encontra toda
tomada, toda investida, se assim posso me exprimir, de Deus. Ela se
encontra numa tal claridade, que num instante percebe toda a sua vida
e o que ela mereceu. É em meio desta visão clara que se pronuncia
sua sentença. Se é uma alma culpada, e por conseguinte, merece o
Purgatório como eu, ela fica de tal maneira esmagada sob o peso das
suas faltas, que ficam para apagar, que ela por si mesma se atira no
Purgatório. A alma vê o bom Deus, mas está aniquilada na sua
Presença. É só então que a gente compreende o bom Deus, o seu
grande amor pelas almas, e que desgraça é o pecado aos olhos da
Majestade Divina! Eu vi também meu Anjo da Guarda. Para vos dar a
entender como é que São Miguel leva as almas ao Purgatório, porque
uma alma não se leva, eu vos digo que é neste sentido que ele está
presente na execução da sentença. Tudo quanto se passa no outro
mundo, é um Mistério para o vosso!
— E
quando uma alma vai direto para o céu?
Para
esta alma a união começada com Jesus na terra, continua no Céu, na
morte, eis o Céu, mas a união do Céu é muito mais íntima que a
da terra.
Tendes
muita razão de não gostar dos êxtases. É preciso aceitá-los
quando Deus os envia, mas Ele não quer que a gente os deseje. Não
são estas coisas que levam ao céu. Uma vida mortificada, e
humilde, é muito mais para se desejar e é muito mais segura. É
verdade que diversos Santos tiveram revelações de Deus, que lhes
dava isto depois de longos combates, e de uma vida de renúncia, ou
ainda, porque queria se servir deles para grandes coisas, tendo em
vista a Sua maior glória. Todavia, tudo isto se fez sem ruído, sem
brilho, no silêncio da oração e quando eram descobertos, ficavam
envergonhados e não falavam disto senão por obediência. Pelo que
me dizeis, podeis ficar tranquila. Eis como se pode conhecer, quando
uma graça vem de Deus. Estas graças vêm como uma onda que vos
surpreende num belo dia, como uma chuva em pleno dia claro, que se
despeja sobre a alma, quando o Céu parece mais sereno. Não se deve
temer então haver procurado isto, pois nem se pensou nisto às
vezes. Haveis de ter observado isto diversas vezes. É muito
diferente isto, das graças que julgam serem dadas por Jesus, e, pelo
contrário, não são mais do que trabalho da imaginação, que as
produziu. Estas devem ser temidas, porque o Demônio se
aproveita, de um cérebro fraco, de um temperamento mole e de um
juízo pouco equilibrado, e ilude estas pobres almas que entretanto
não pecam, contanto que se submetam às pessoas que as dirigem.
E posso vos dizer que há muitas destas neste mundo de hoje… O
demônio procede assim para lançar a religião ao ridículo.
Poucas
pessoas amam a Deus como Ele quer. Elas se procuram a si mesmas,
julgando procurar a Deus, e sonham com uma santidade que não é
verdadeira.
— Dizei-me
então em que consiste a verdadeira Santidade?
Resposta:
— Já o sabeis, mas já que desejais, vou repetir o que já foi
dito diversas vezes. A verdadeira santidade consiste em se
renunciar de amanhã à noite, viver de sacrifício. Saber pôr de
lado a toda hora o “eu” humano, deixar que Deus trabalhe como
queira em nós. Receber, com uma profunda humildade, as graças que
Ele nos dá, reconhecendo-se indigna delas. Estar quanto possível
sempre na presença de Deus. Fazer todas as ações sob o divino
olhar e não procurar outra testemunha para os próprios esforços.
Ter a Deus como única recompensa, e todas as coisas que eu já vos
disse. Eis a santidade que Jesus exige e quer das almas que querem
viver só para Ele. O resto não é mais que ilusão.
Certas
almas fazem, pelo sofrimento, o seu Purgatório na terra; outras por
amor, porque o amor tem também um martírio. A alma que procura amar
verdadeiramente a Jesus, acha que, apesar dos seus esforços, ela não
O ama na medida dos seus desejos. Isto é para a alma um martírio
perpétuo, causado unicamente pelo amor, e não é um martírio sem
grandes dores! É como já vos disse, um pouco daquele estado da alma
do Purgatório que impele incessantemente para Deus, seu único
desejo, e se vê repelida porque sua expiação não está acabada!
— Se
eu não tivesse falado a ninguém, tudo o que me dizeis
desde que estou vos ouvindo, qual seria o resultado? Sabeis que eu
tenho um grande desejo de guardar segredo, guardar isto tudo só
comigo?
Resposta:
— Sois livre de o fazer ou não, mas se ainda não falastes disto,
eu vos aconselho a que o façais, porque Deus nunca permitiu que a
perfeição de ninguém viesse diretamente do céu. Ela habita na
terra, e quer que na terra mesmo ela se aperfeiçoe, segundo os
conselhos que recebe para isto. Fizestes bem em confiar o que vos
custava tanto dizer. E além do mais, tudo isto não vem de vós, e
Deus, que de tudo sabe tirar proveito para a sua glória, dirige tudo
para proveito daqueles que Ele ama.
(Novembro-Dezembro)
— O dia e a oitava dos Defuntos trazem uma alegria no Purgatório
e se livram muitas almas?
Resposta:
— No dia dos Mortos muitas almas deixam o lugar de expiação para
o céu, e por uma grande graça do Bom Deus, só neste dia todas as
almas sofredoras, sem exceção, têm parte nas orações públicas
da Santa Igreja, até mesmo as do Grande Purgatório. Entretanto, o
alívio de cada alma é proporcionado ao seu mérito. Umas recebem
mais, outras menos. Entretanto, todas aproveitam esta graça
excepcional. Muitas almas, pobres almas, só recebem este único
alívio pela Justiça de Deus, durante os longos anos que passam no
Purgatório.
– Entretanto,
não é no dia dos Mortos que sobem mais almas ao Céu.
É na noite de Natal?
Há
muitas coisas que eu vos poderia dizer, mas eu não tenho permissão.
É
preciso que me interrogueis, porque então eu posso responder. Eu
estou bem aliviada pelas orações do Reverendo Padre. Dizei-lhe que
lhe agradeço pelas orações que fez e que mandou fazer por minha
intenção. Eu rezo sempre por ele. Espero fazer mais ainda quando eu
estiver no céu. Dizei-lhe também, que eu sei que ele reza por mim e
pelas Almas do Purgatório. Por permissão de Deus há um sofrimento
maior para as Almas, quando as orações que se fazem por elas não
lhes podem ser aproveitadas. No Purgatório, não se recebem as
orações da terra, senão na medida em que Deus quer que sejam
aproveitadas às almas. Depende da disposição de Deus. Quanto ao
tempo da nossa libertação, não sabemos nada. Se soubéssemos o fim
dos nossos sofrimentos, seria um alívio, uma alegria para nós, mas
não! Vemos bem que nossas dores diminuem quando a nossa união com
Deus se torna mais íntima, mas em que dia? (segundo a terra, porque
não há dias), e em que dia estaremos todos reunidos? Não o
sabemos, é o segredo de Deus!…
As
Almas do Purgatório não têm conhecimento do futuro, a não ser que
Deus lhes queira dar isto. Algumas almas o possuem, umas mais, outras
menos. Mas o que adianta saber o futuro para nós, a menos que se
trate da glória de Deus e do bem de algumas almas?
Não
se admirem se o Demônio e seus satélites, têm algumas vezes
conhecimento de coisas que se realizam no futuro. O Diabo é um
espírito e, por conseguinte, tem mais astúcias e conhecimentos do
que qualquer pessoa na terra, à exceção dos Santos, aos quais Deus
ilumina com suas luzes. Ele, o Diabo, procura rondar por toda parte,
procurando o mal. Ele vê o que se passa, no mundo, e segundo a sua
sagacidade, pode prever coisas que se vão realizar. Eis a única
explicação. Desgraçados são aqueles que se entregam ao Demônio e
o consultam! É um pecado que desagrada a Deus, e muito! (Não
está aí uma condenação do Espiritismo, que muitas
vezes é uma consulta ao Diabo? – Nota do
tradutor).
— As
almas podem alguma vez se enganarem?
Resposta:
— Sim, mas não quanto às coisas que existem, só quanto ao
futuro. Pode acontecer, por exemplo, que Deus na sua Justiça queira
castigar um reino, uma província, uma pessoa, é uma intenção que
Ele manifestou. Todavia, se alguma pessoa daquele reino, daquela
província pela oração ou por outros meios, desarma a Divina
Justiça, Deus dará a graça, concederá a graça ou diminuirá o
castigo, segundo as previsões da Sua infinita sabedoria. Muitas
vezes permite que os grandes acontecimentos sejam preditos antes ou
os dá a conhecer a algumas almas, a fim de que elas previnam e
afastem o castigo. A misericórdia de Deus é tão grande, que Ele
não castiga senão em caso extremo. Assim para aquela pessoa de que
me falaste outro dia. Deus me fez conhecer que não lhe infligirá
castigo, senão pela metade, se ela permanecer nas mesmas
disposições. Eis como a gente pode às vezes parecer que se engana.
– Há
muitos Protestantes salvos?
Resposta:
— Pela misericórdia de Deus, um certo número de Protestantes se
salvam, mas o Purgatório deles é longo e rigoroso. Eles não
abusaram da graça, é verdade, como muitos católicos, mas não
tiveram as graças insignes dos Sacramentos e outros socorros da
verdadeira Religião, o que faz com que a sua expiação se prolongue
por muito tempo no Purgatório.
Eu
falo mais baixo do que de costume, porque há oito dias vós falais
muito baixo com Deus na recitação dos Salmos. Quando rezardes mais
alto, eu falarei também mais alto.
— Conheceis
no Purgatório a perseguição que está sofrendo a
Igreja?
Resposta:
— Sabemos que a Igreja está sendo perseguida e rezamos pelo seu
triunfo, mas quando será ele? Eu o ignoro. Talvez algumas almas o
saibam. Eu não o sei…
No
Purgatório as almas não ficam só ocupadas com seus sofrimentos.
Elas rezam pelos grandes interesses de Deus, pelas pessoas para
abreviar seus sofrimentos. Louvam, agradecem a Nosso Senhor as
misericórdias infinitas para com elas, porque o limite do Purgatório
e do Inferno, para muitas almas foi bem extremo, e por um pouco não
se condenaram! Imaginai qual não há de ser o reconhecimento, a
gratidão destas almas que foram assim arrancadas de Satã!
Eu
não vos posso explicar como vemos nós a terra, de modo muito
diferente do vosso modo de ver. Isto só se pode entender quando a
alma deixa o corpo. Então a terra que ela acaba de deixar, não lhe
há de parecer mais do que um pontinho, no horizonte sem fim da
eternidade, que se abre para ela.
Eu
recebo mais alívio de uma das ações de graças feita, com uma
grande união a Jesus, do que de uma oração vocal. O que Deus mais
ouve? Tudo o que é feito com espírito interior. Quanto mais íntima
é a união de uma alma com Deus, mais esta alma é ouvida. Uma alma
intimamente unida a Jesus, é dona do seu Coração Divino. Deveis
procurar sempre esta união que Jesus espera de há muito tempo de
vós. Se quereis agradá-lO, eis o único meio: aproximar-se sempre
mais do Seu Coração, por uma grande atenção aos menores desejos
da Sua Vontade Santíssima. É preciso que Ele vos vire e revire como
bem queira, sem nunca encontrar resistência da vossa parte. Então
haveis de ver e compreender Sua bondade!
Procurai
trabalhar atentamente só por Deus. Não procureis outro, para
testemunha de vossas ações.
(8
de dezembro — 2 horas da tarde — Imaculada Conceição) — Ai!
Quantas vidas parecem cheias de boas obras e, no entanto, na hora da
morte estarão vazias! Se soubésseis quão poucas são as pessoas
que agem só por Deus e que praticam seus atos só por Deus! Na
morte, então ai! Quando a gente não está mais cego, quanto
arrependimento! Ai! Se refletissem algumas vezes no que é a
eternidade! Que é esta vida, comparada com este dia sem noite para
os eleitos, e esta noite, que não há de ter fim dos condenados!
Ama-se tanta coisa na terra, apegam-se a tudo neste mundo, exceto a
Aquele que unicamente deveria merecer nossa afeição e ao qual
recusamos nosso amor! Jesus nos tabernáculos espera os corações
que O amam, e não os encontra…
— No
Purgatório, se ama?
Resposta:
— Sim, mas é um amor de reparação, e se na terra nós tivéssemos
amado a Deus como deveríamos, não seríamos tão numerosas e não
haveria tantas almas no lugar da expiação!
— No
Céu, Jesus é bem amado?
Resposta:
— No céu se ama muito a Deus. Lá, Deus é desagravado, mas não
como na terra. Jesus deseja o amor na terra, na terra onde veio para
se aniquilar em cada Tabernáculo, a fim de que fosse mais fácil
chegarem-se a Ele. E no entanto, não fazem isto, não O procuram nem
amam!…
Eu
vos disse que há almas que fazem o seu Purgatório ao pé dos
altares. Elas ficam ali pelas faltas que cometeram nas igrejas. Estas
faltas que foram diretamente a Jesus presente nos Tabernáculos, são
punidas com muita severidade no Purgatório. As almas que ficam
diante do Tabernáculo em adoração, lá estão em recompensa da
devoção ao Santo Lugar. Elas sofrem menos do que se estivessem no
Purgatório mesmo, e Jesus, que elas contemplam com os olhos da alma
e da fé ao mesmo tempo, lhes alivia com Sua Presença Real, o que
elas padecem.
1880
(Janeiro)
— Noite de Natal — Milhares de almas deixam o lugar da
expiação para o céu. Muitas ficaram, e eu sou do número das
que ficaram. Dizeis que a perfeição de uma alma é bem longa. É
verdade. Estais admirada de que não obstante tantas orações eu
ainda fique tanto tempo sem gozar da presença de Deus. Ai! a
perfeição de uma alma no purgatório não vai mais depressa do que
na terra. Há algumas almas que só têm alguns pecados veniais a
expiar. É um número pequeno o delas. Estas não ficam muito tempo
no purgatório.
Algumas
orações bem feitas, alguns sacrifícios, as livram em pouco tempo.
Porém, quando são almas como eu, e é o caso de quase todas, que
passaram a vida quase nula e que se ocupam pouco ou quase nada da sua
salvação, é preciso neste caso recomeçar a vida no lugar da
expiação, aperfeiçoar a alma de novo, amar, desejar Aquele que na
terra não amamos bastante. Eis porque a libertação destas almas,
muitas vezes se prolonga por muito tempo. Deus ainda me concedeu uma
grande graça: a de vir pedir orações. Eu não a merecia e sem isto
eu ficaria aqui anos e anos, como a maior parte.
– As
religiosas e as outras da mesma Congregação, têm relações entre
si?
Resposta:
– No Purgatório como no Céu, as religiosas da mesma família não
estão sempre juntas. As almas não merecem todas a mesma penitência
nem a mesma recompensa. Entretanto, elas se reconhecem no Purgatório.
Podem também com permissão de Deus, se comunicarem entre elas.
– Pode-se
receber uma oração, um pensamento de um amigo defunto e lhe dar a
conhecer a saudade que se tem dele?
Resposta:
– No Purgatório como no Céu, pode-se fazer chegar até aqui a
lembrança e as saudades da terra, mas como vos disse, não são
úteis às almas do Purgatório, porque elas sabem e conhecem as
pessoas que se interessam por elas na terra. Deus permite algumas
vezes, que delas se possa receber algum conselho, alguma advertência.
Assim, o que eu vos disse diversas vezes a respeito de São Miguel,
foi da parte de Deus, e também o que vos disse do vosso Padre
espiritual. Todas as comissões que me destes, algumas vezes, para o
outro mundo, eu as fiz sempre, mas tudo isto está subordinado à
vontade de Deus.
– As
faltas são conhecidas no Purgatório por todos, como
serão no Dia do Juízo?
Resposta:
– Nós não conhecemos no Purgatório, as faltas dos outros, exceto
quando Deus o permite, para certas almas, mas segundo seus desígnios,
e isto para muito poucas almas…
– Tendes
de Deus um conhecimento mais perfeito do que o nosso?
Resposta:
— Ó, que pergunta! Sim, nós O conhecemos muito melhor, e O amamos
muito melhor, e também muito mais! Ai! E é isto o que causa nosso
maior tormento! Na terra não se sabe o que é o Bom Deus! Fazem
d’Ele uma ideia muito estreita; mas nós, ao deixarmos nosso
invólucro de carne, de barro, então, nada entrava mais a liberdade
de nossa alma. É então, e só então, que conhecemos a Deus, Sua
bondade e Suas misericórdias e Seu amor! Depois desta visão tão
clara, esta necessidade tão grande de se unir a Deus, a alma tende a
se voltar para Ele, e é repelida porque não é bastante pura. Eis o
sofrimento!… É o mais duro e mais amargo dos sofrimentos. Ó, se
nos fosse permitido voltar à terra depois que conhecemos assim ao
bom Deus, que vida não haveríamos de levar! Mas… inúteis
arrependimentos!… E no entanto, na terra não se pensa nisto e se
vive na cegueira!. . . Não se dá importância para a eternidade! A
terra é uma passagem onde só se recebe um corpo, que por sua vez há
de voltar à terra. E só pensam e desejam a terra e não pensam no
Céu! E Jesus e o amor de Jesus, sempre esquecidos!
— No
Purgatório, as almas se consolam mutuamente no amor de
Deus, ou cada uma delas é, completamente, isolada em cada
sofrimento?
Resposta:
— No purgatório nossa única consolação, nossa única esperança
é só Deus. Na terra, Deus permite que a gente seja consolada, às
vezes, nas penas do corpo e do espírito por um coração amigo. Se
neste coração não encontra ainda o amor de Jesus, as consolações
são vãs e perdidas, mas aqui, as almas estão abismadas em Deus na
vontade divina, e só Deus pode aliviar a dor que padecem… Todas as
almas são torturadas, cada uma segundo a culpa que têm, mas todas
têm uma dor comum que ultrapassa as demais: a ausência de Jesus que
é nosso alimento, nossa vida, nosso tudo. E estamos separadas d’Ele
por nossa culpa!
Depois
de uma ação, não é preciso voltar atrás e andar perdendo tempo
em examinar se a fez bem ou mal. É certo que é preciso examinar as
ações de cada dia, a fim de as fazer sempre melhor, mas que isto
não seja à custa da tranquilidade da alma. Deus ama muito as almas
simples. É preciso ir a Ele com grande simplicidade, boa vontade,
sempre pronta a se sacrificar por Ele, e Lhe dar prazer. Deveis
proceder para com Jesus, como uma criancinha com sua mãe, confiando
na bondade d’Ele, entregando-Lhe nas mãos divinas, todos os vossos
interesses espirituais e corporais, e depois, procurá-lO sempre em
tudo, agradar em tudo, sem vos preocupardes com outra coisa.
Deus
não olha tanto as grandes ações, os atos heroicos, como uma ação
simples, um pequeno sacrifício, contanto que estas ações sejam
feitas por amor. Quantas vezes um pequeno sacrifício, conhecido só
de Deus e da alma que o praticou, não se torna mais meritório, que
um outro muito maior que foi aplaudido! É necessário sermos bem
interiores, para não tomarmos para nós, os elogios que se nos
fazem.
Deus
procura almas vazias de si mesmas, para enchê-las de Seu divino
amor. Encontra muito poucas. O amor de si não deixa lugar para
Jesus. Não deixeis passar nenhuma ocasião de vos mortificar,
principalmente no interior. Jesus tem muitas graças para vos
conceder na quaresma, preparai-vos por grande fervor e um grande
amor. Amai a Jesus, principalmente. Ele é tão pouco amado pelo
mundo e é tão ultrajado!
A
Santíssima Virgem vos ama muito. Da vossa parte, amai-A também, de
todo coração e procurai glorificá-lA o mais que vos for possível.
Nunca
chegareis a compreender bem a bondade de Deus. Se alguém refletisse
bem algumas vezes, seria suficiente para ficar Santo; mas neste mundo
não se conhecem bem a misericórdia e a bondade do Coração de
Jesus! Cada um as mede segundo o seu modo de ver, e esta maneira é
defeituosa. Daí vem que, se reza tão mal!
Sim,
poucas pessoas sabem rezar como Jesus o gostaria. Falta-se à
confiança, e no entanto, Jesus só nos ouve, depois do ardor dos
nossos desejos e na medida do nosso amor. Eis porque muitas vezes, as
graças que se pedem ficam sem efeito.
É
preciso ver tudo como provindo da bondade de Jesus: o que aflige como
o que consola. É o amor que tudo faz para nosso bem, o bem dos seus
amigos, Deus quer de nós principalmente amor e que luteis assim
contra vós mesma, contra vossas más inclinações, e procedeis com
espírito de fé. Pois bem, a fé cederá à realidade. É necessário
proceder, como se Jesus estivesse sempre presente. E que isto vos
seja uma coisa natural, apesar de ser tão sobrenatural!
— As
promessas feitas em favor daqueles que rezam o terço de São Miguel,
são verdadeiras?
Resposta:
— As promessas são reais, mas não se deve acreditar que as
pessoas que rezam o terço por rotina e sem procurar fazê-lo com
perfeição, sejam logo tiradas do Purgatório. Seria um erro. São
Miguel faz muito mais ainda do que promete, mas os que estão
condenados a um longo Purgatório, ele não os retira assim tão
depressa! É verdade que a lembrança da devoção ao Santo Arcanjo
alivia muito as almas, mas que sejam de todo libertadas do
Purgatório, não. Eu que o diga, eu posso bem servir de exemplo!…
A libertação imediata só a terão as pessoas que trabalharam
corajosamente para a sua perfeição, e que tiveram pouca coisa a
expiar no Purgatório.
A
França é bem culpada, e infelizmente ela não está só! Neste
momento, não há um reino cristão, que não procure aberta ou
surdamente expulsar Deus do seu seio. As Sociedades Secretas e o
diabo, fomentam estas revoltas. É agora a hora do príncipe das
trevas. Deus há de mostrar, que só Ele é o Senhor único! Talvez
não seja feito isto com doçura, e fará sentir o Seu poder, mas nos
próprios castigos, Jesus é misericordioso. São Miguel há de
intervir na luta pessoal da Igreja. Ele é o Chefe desta Igreja tão
perseguida, mas que não será aniquilada como pensam os maus. Quando
há de intervir São Miguel, eu não o sei. É preciso rezar muito
nesta intenção, invocar o Arcanjo lembrando-lhe os títulos que
tem, pedir-lhe a intercessão junto d’Aquele sobre o qual tem tanto
poder!
Que
não se esqueçam da Santíssima Virgem! A França, é o seu reino
privilegiado. Ela o salvará. Fazem muito bem em pedir, por toda
parte, rosários e terços. E esta oração é a mais eficaz nas
necessidades presentes!
No
Purgatório, nós não recebemos as indulgências que nos são
aplicadas, senão à maneira de sufrágio e como Deus o permite, e
segundo as suas divinas disposições. É verdade que não temos
apego ao pecado, mas não estamos sob o reino da misericórdia, mas
sob o império da Justiça, e desta Justiça, recebemos o que Deus
quer que nos seja aplicado.
(Maio)
— Trabalhai sem descanso e com todas as vossas forças, para a
vossa perfeição. Tendes bastante firmeza de caráter, para vencer
todas as dificuldades que se opõe à vossa união com Jesus, até
que chegueis lá onde Ele quer.
Vossa
vida será um martírio perpétuo. Custa muito renunciar–se a cada
instante. É um martírio contínuo, mas neste martírio se
experimentam as mais doces alegrias. A alma sofre, mas Aquele por
quem ela sofre, Lhe concede a cada sacrifício, a cada renúncia, uma
graça que a anima e encoraja a caminhar sempre avante, e a se
entregar sempre mais. Nada agrada tanto a Nosso Senhor, como ver uma
alma que se esforça, não obstante todos os obstáculos que se
encontram no caminho, para poder se entregar cada vez mais para a
glória e pelo amor de Deus.
Estais
aflita por ver que Deus é insultado em Paris, mas estas pessoas não
sabem o que fazem, e Jesus se sente mais insultado e ofendido com os
pecados que cometem as almas que Lhe são consagradas e não são o
que deveriam ser, do que com as injúrias daqueles que não são seus
amigos.
Jesus
gostaria que O amásseis com um amor de criança, isto é, com a
ternura de uma criança, que só quer agradar aos seus paizinhos
queridos, e, no entanto, sois tão fria para com Jesus! Não é isto
que Ele espera de vós, a quem tanto ama!
Não
dirigis vossa pureza de intenção como Deus o quer. Assim, ao invés
de oferecer de um modo vago as intenções, podeis fazer com mais
fruto tendo as intenções bem determinadas. Por exemplo: quando
tomais a refeição dizei: “Meu Jesus, alimentai a minha alma com a
vossa Santa graça, assim como eu alimento agora meu corpo”. Quando
lavais vosso rosto ou vossas mãos: “Meu Jesus purificai a minha
alma como eu o faço com meu corpo”. E assim em cada uma das ações.
Habituai–vos a falar sempre a Jesus com o coração. Que Ele seja
tudo no que fazeis ou dizeis.
É
preciso nunca se desculpar. Que vos adianta que vos julguem culpada,
quando não o sois? E se reconheceis uma falta, humilhai-vos e…
silêncio! Não vos desculpeis nem em pensamento.
Só
as ações feitas com grande amor, sob o olhar de Deus, para cumprir
a Sua Santa Vontade, só elas terão a recompensa imediata, ao passar
pelo Purgatório. Que cegueira há no mundo a este respeito!
(Novembro)
— Eis que para todas acabou–se o retiro, mas, para vós ele
continua. Continuai o vosso retiro sempre, durante todo o ano em
vosso coração. Ainda mesmo em meio das maiores ocupações, tende
sempre um lugarzinho reservado onde vos recolhereis no coração, e
com o Coração de Jesus, e lá não O perdereis nunca de vista.
O
retiro foi muito agradável a Deus, e muito proveitoso às almas.
Jesus vê com prazer as almas religiosas que se voltam para Ele e O
procuram como único fim. Para isto é que Ele as chamou para O seu
serviço, mas como é fácil na terra esquecer-se, a gente mesmo, do
que é mais sagrado! Um bom retiro ajuda as almas a retomarem o
fervor primitivo. É o que se fez no retiro que acabais de ouvir.
Este retiro consolou muito o Coração de Jesus.
Que
são estes poucos instantes que passamos na terra, comparados com a
eternidade?
Na
morte vereis que nunca se fez demais. Sede generosa e não vos
escuseis. Vede o fim para o qual vos chama Jesus: a santidade, o puro
amor, e depois, caminhai sempre sem olhar para trás.
A
cruz, as grandes cruzes, as que trituram o coração, são a herança
dos amigos de Deus. Vós queixastes nestes dias a Jesus, porque Ele
vos enviou muito sofrimento durante este ano? É verdade, mas por que
achais tão pesadas as cruzes? É que não O amais ainda bastante. As
cruzes ainda não se acabaram. As que tivestes até aqui são apenas
o prelúdio do que vos espera. Não vos disse que teríeis
sofrimentos do corpo e do espírito, e às vezes os dois juntos? Não
há santidade sem sofrimento. Entretanto, quando deixardes que a
graça possa agir livremente e que Jesus possua vossa vontade, e seja
o Mestre absoluto de tudo em vós, então as cruzes por mais pesadas
que o sejam, não hão de pesar mais. O amor absorverá tudo. Até
lá, porém, sofrereis muito, porque não é num instante que a alma
chega assim a se desapegar de todas as coisas, para não agir senão
por amor. Jesus vê com muito prazer os vossos esforços. Ó, se
Jesus fosse mais conhecido na terra! Mas é tão esquecido! Pelo
menos vós, amai-O, crescei sempre neste amor para agradá-lO.
Trabalhai sem descanso, para chegardes até lá, onde Ele vos quer
ver.
(16
de setembro) — Como se compreende muito pouco na terra o desapego,
que Jesus quer de uma alma, que deve ser toda d’Ele! Algumas se
julgam santas porque experimentam um amor mais sensível do que
ordinariamente; mas, todas estas sensibilidades naturais nada são. É
necessário que a alma se eleve, se desapegue pouco a pouco, de tudo
que a cerca, e sobretudo de si mesma, de seu amor-próprio, das suas
paixões, a fim de chegar à União Divina e só Jesus sabe quanto
custa à natureza chegar até lá! O coração há de ser triturado,
a fim de sair dele todo o amor humano, e é difícil! Poucas almas
compreendem estas coisas! Vós que compreendeis um pouco de tudo
isto, por misericórdia de Jesus, vós a quem Ele tanto ama, entrai
corajosamente neste caminho da abnegação e da morte de vós mesma.
Voai por cima da terra, e de tudo que vos cerca, para vos abismardes
na Santíssima Vontade de Deus. Não perder de vista, esta santa
vontade de Deus, nem um minuto! Não penseis que com isto não
podereis cumprir as vossas obrigações, absorta neste pensamento.
Haveis de ver que acontece justamente o contrário. A alma quanto
mais unida a Jesus, tanto mais será exata no cumprimento dos seus
deveres. Aquele a quem ama fará tudo por ela. Será um com ela. E
então, não estará bem dirigida e ajudada no que faz? Quanto bem
pode fazer uma alma interior! Aliás, tudo o que se fizer fora disto,
é inútil. A alma unida a Jesus tem direito sobre o Seu Coração, é
senhora deste Coração e Ele, nada lhe recusa.
Refleti
bem nisto que vos estou dizendo! Uma só das vossas ações,
oferecidas para meu alívio, com pureza de intenção, quando estais
bem unida a Jesus, me alivia mais do que diversas orações vocais.
Quanto mais depressa vos aperfeiçoardes, tanto mais depressa
chegareis a me livrar do Purgatório.
É
verdade que a Madre Superiora sofreu muito nestes últimos dias, mas
um dia de grande sofrimento como ela o experimenta algumas vezes, é
mais proveitoso para a alma dela e para a Comunidade, do que dez dias
ou mais de boa saúde, em que pode trabalhar e fazer tudo o que é de
seu cargo.
(2
de outubro) — Dizei muitas vezes no dia: “Meu Deus, realizai em
mim os vossos desígnios, e dai–me a graça de não pôr obstáculo
a vossa vontade! Meu Jesus, eu quero o que vós quereis, como
quereis, e tanto tempo quanto quiserdes!”
(3
de outubro — Domingo) — Ó, se vos fosse dado compreender na
terra, como Jesus é tratado com indiferença e desprezo neste mundo!
E não só pelo mundo. Ele é insultado, ridicularizado, mesmo por
aqueles que O deveriam amar. É assim que se encontra indiferença
nas Comunidades, entre religiosos e religiosas, Sua gente escolhida!
Lá, onde deveria ser tratado como Amigo, como Pai, como Esposo, O
consideram e O tratam mais como um estranho. Esta indiferença se
encontra também no Clero. Jesus é tratado como de igual para igual.
Os que deveriam tremer pensando na augusta missão que receberam, a
desempenham com indiferença e aborrecimento!
Quantos
possuem o espírito interior? Um número muito pequeno. São
numerosos no Purgatório, os Padres que expiam a sua vida sem amor e
sua indiferença.
É
preciso que eles expiem pelo fogo e em torturas de todas as formas,
as suas negligências. Eis o grande sofrimento do Coração de Jesus:
a ingratidão dos Seus. E no entanto, o divino Coração está todo
transbordando de amor e só quer difundi–lO.
Jesus
quer encontrar algumas almas mortas para si mesmas. Jesus derramará
nelas ondas de amor, mais do que já o fez com ninguém neste mundo.
Ó, como Jesus, como a Sua misericórdia, como Seu amor, são pouco
conhecidos neste mundo!
Procura–se
conhecer tudo, aprofundar–se em tudo, exceto no que traz a
verdadeira felicidade, a única coisa verdadeira… Que tristeza!
(14
de outubro — Durante minha ação de graças) – A menor
infidelidade da vossa parte, o menor esquecimento, e menor
indiferença para com Jesus, Lhe é mais sensível e mais Lhe fere o
Coração tão bom, tão amoroso, do que uma injúria de um inimigo.
Vigiai–vos com grande cuidado, não deixeis passar coisa alguma.
Que Jesus possa vir e se achar feliz em vosso coração, para que O
consoleis das amarguras e desgostos que recebe no mundo. Procedei com
Ele como para com um pai, e o melhor dos pais e o mais dedicado dos
Esposos. Consolai-O, reparai as injúrias que recebe cada dia. Tomai
os interesses da Sua glória e do Seu Sagrado Coração. Esquecei-vos
diante d’Ele, e fazendo assim, vossos interesses se tornarão os
Seus, e Ele fará mais por vós do que vós com vossas ocupações.
Olhai
tranquilamente todas as coisas que vão passando em torno de vós.
Que nada vos detenha. Vossa única alegria, vosso único repouso só
se encontram em Jesus. Trabalhai só para Ele, e Seu amor vos dará
coragem. Nunca haveis de fazer demais por um Deus tão bom!
Amai
tanto a Deus a ponto de nunca adquirir neste mundo o Seu amor sem
sofrimento e sem mérito. Os sofrimentos da terra são meritórios,
não os deveis perder.
Muitas
Almas do Purgatório contam convosco, para as tirar do lugar dos seus
sofrimentos. Pensai bem nisto e rezai muito por elas de todo coração.
1881
Os sofrimentos do corpo e do
coração, são a herança dos amigos de Jesus, enquanto estão neste
mundo. Quanto mais Jesus tem amor a uma alma, tanto mais a faz
participante das dores, que Ele sofreu aqui por nosso amor. Feliz a
alma assim privilegiada! Quantos méritos não pode adquirir! E’ o
caminho mais curto para chegar ao Céu. Não tenhais medo do
sofrimento, ao invés, amai-o porque ele nos aproxima mais perto
d’Aquele que amamos.
Já não vos disse um dia, que
o amor tornará doce o que vos parece agora tão amargo, porque não
amais bastante? O meio mais infalível para chegar depressa à
união com Jesus, é o amor, mas o amor unido ao sofrimento. Se
soubésseis como o sofrimento é bom para a alma! São as mais doces
carícias que o Divino Esposo faz àquela que ama e com quem quer se
unir intimamente. Jesus envia à alma que ama, sofrimento sobre
sofrimento, penas sobre penas, a fim de desapegá–la de tudo que a
cerca… Então pode lhe falar ao coração.
(Abril) — Jesus não vos
deixará em paz, enquanto não tiverdes chegado à perfeição que
Ele quer de vós. Voltai–vos para todos os lados; enquanto a vossa
vontade não for uma só vontade com a vontade de Deus, enquanto não
fizerdes todas as ações sob o olhar de Deus, não tereis paz nem a
calma interior.
1882
(Setembro) — Jesus faz muito
por vós e fará ainda muito mais no futuro, mas é necessário que
correspondais às Suas graças e sejais sempre bem generosa. As almas
que chegam à perfeição que Jesus delas pede, são senhoras do Seu
Divino Coração. Ele nada lhes recusa. Quando chegardes lá, Jesus e
vós sereis um só. Tereis os mesmos sentimentos, os mesmos desejos.
Ó, amai muito a Jesus, uni-vos
a Ele do modo mais forte que seja possível, com todas as potências
de vosso coração. Não vivais nem respireis mais do que o amor de
Jesus.
1883
Um ano a mais que se foi para a
eternidade! Assim passam todos, todos, uns após outros. Sucedem-se
os dias até aquele que põe termo à vida da terra, e começa a vida
da eternidade! Empregai bem todos os instantes. Cada um deles pode
ganhar o Céu e vos evitar o Purgatório. Cada uma das vossas ações
feitas sob o olhar de Jesus, vos dará um grau de glória a mais no
Céu, e ao mesmo tempo um grau de amor para Jesus também.
O
sofrimento precede sempre o amor e há um grau de amor que só
atingem os que sofreram e sofreram muito. Eu vos falo,
principalmente, dos sofrimentos do coração.
O maior sofrimento que possa
ter uma alma que ama verdadeiramente a Jesus, é não amá-lO quanto
ela o deseja.
(Retiro de Maio) – Deus tem
muitos meios para chegar aos seus fins, quando Ele quer alguma coisa
de especial de uma alma. Este retiro deve ser o começo da grande
perfeição, a que Jesus vos chama desde há muito.
Com Jesus, o que podereis
temer? Ele é vosso Pai, vosso Amigo, vosso Esposo, vosso tudo. Não
tem Ele o direito de exigir de sua alma o que Ele queira, sem dizer
por quê? É o grande Senhor, é o Senhor de todos. Adorai os Seus
desígnios e obedecei-lhe cegamente. É o que Ele quer de vós.
Procurai, pois, trabalhar generosamente para a vossa santificação.
Redobrai vossa ternura, vosso amor por Jesus. Amai pelos que O não
amam, reparai pelos que O ultrajam, pedi perdão pelos que nunca
pensam nisto. Jesus espera tudo isto de vós.
(20 de Maio) — Na terra nos
arrumamos ao nosso modo, mas no outro mundo, é Deus quem nos arruma
ao Seu modo.
(Retiro de 29 de Agosto) –
Sete horas da noite. Habituai-vos a falar a Nosso Senhor como a um
amigo, O mais devotado e sincero. Não fazer e não dizer nada sem O
consultar. Há vários anos que eu estou vos dizendo isto. Eu falei
disto muitas vezes, e hoje torno a repetir. Deus quer que presteis
muita atenção nisto e o pratiqueis. Este olhar da alma, sempre fixo
em Jesus, para perceber as suas menores vontades, esta conversação
divina que Ele quer ter convosco, não vos impedirão de vos
entregardes aos trabalhos exteriores. Ao contrário, é impossível
conservar–se calma no exterior, se o interior não o está. As
paixões interiores se refletem sempre no exterior, e a alma que
vigia cuidadosamente o seu interior é também senhora do exterior!
Eis o que Jesus pede de vós. Uma vida de fé e de união contínua
com Ele, uma vida humilde, oculta, conhecida só d’Ele. Seja Ele
tudo para vós. Olhai tudo que vos acontece, como outros tantos meios
de que Ele se serve para vos unir a Ele e realizar os Seus desígnios.
Sede generosa, que não vos falte energia… Começai então esta
vida de renúncia e de sacrifício, e sobretudo de amor. Achareis a
calma e a paz que Ele há muitos anos vos oferece.
Que a Santa Vontade de Deus,
seja a base de tudo quanto tiverdes de fazer ou sofrer. Jesus espera
muito de vós, muitos sofrimentos do corpo e do espírito, mas também
muito amor. Não se pode amar sem que a natureza sofra, já o
sabeis muito bem. Já o experimentastes no passado e preparai-vos
para o futuro. Deus vos deu tudo que é preciso, para sentir o
sofrimento mais do que os outros. É uma misericórdia e uma graça a
mais. Onde há grandes sacrifícios a fazer, há grandes méritos.
Sede bem generosa. Pôr de lado o “eu”, a Jesus adianta! Pensai
muitas vezes nisto: se quereis que vossas ações agradem a Jesus, é
preciso que em cada uma delas, haja sempre um pequeno sacrifício,
alguma coisa que custe.
1886
(Maio) – Para a alma
religiosa é preciso o espírito de sacrifício, o espírito
interior, a pureza de intenção. Eis a síntese da vida religiosa.
Uma religiosa pode aliviar as
almas de seus parentes defuntos, com as ações todas praticadas com
grande pureza de intenção e muito mais do que pelas orações.
A alma mais querida de Jesus, é
sempre a mais crucificada na terra, mas a cruz enviada por Jesus tem
doçuras misturadas com as amarguras. Há cruzes que vêm por nossa
culpa, e nestas ficam só as amarguras.
1887
(Fevereiro) — Jesus não
mostra à alma tudo quanto exige dela, assim de uma vez. Ela se
assustaria. Porém, pouco a pouco a torna mais forte e lhe descobre
Seus segredos e a torna participante da Cruz.
(24 de Junho) — Ficai bem
unida a Jesus. Antes de qualquer ação, consultai-O. Sempre de
coração a coração, como a um amigo que se tem sempre perto.
Jesus quer vossa alma toda
inteira, com todas as suas faculdades, todas as potências; vosso
coração com todas as ternuras, todo o vosso amor. Tudo haveis de
buscar na fonte daquele Divino Coração, que nunca se esgota. Eis
como deveis proceder como esposas dedicadas.
Durante o dia, várias vezes
deixai-vos penetrar bem da presença de Deus, recolhei–vos diante
de Sua divina Majestade, reconhecei vossa miséria, mas também a Sua
bondade infinita, agradecei-Lhe afetuosamente. Podeis falar com Jesus
o dia inteiro. É o que Ele espera de vós já há muito tempo.
Se fordes fiel a tudo quanto
vos disse, Jesus vos guardará Suas comunicações mais íntimas,
Suas carícias divinas, Seu amor de Pai e Esposo amante, e
alcançareis tudo quanto Lhe pedirdes. Jesus não vos há de recusar
nada. Haveis de vos dar toda a Ele e Ele se dará todo a vós.
Deus deseja que este retiro,
vos ponha no estado que Ele espera de vós, há muito tempo. Deus
chega aos Seus fins, por meios a nós desconhecidos. Pois bem,
coragem, mãos à obra! Jesus vos concederá graças novas.
Correspondei a elas generosamente, para vós e para a Comunidade. Que
vossa vontade, seja uma só vontade com a de Jesus.
Pela permissão de Deus, nós
conhecemos no Purgatório o que se passa na terra, neste momento, a
fim de que rezemos pelas grandes necessidades, mas nossa oração não
basta. Se Jesus encontrasse algumas almas de boa vontade, que
quisessem reparar e desagravar a Majestade Divina ultrajada, seria
uma grande alegria para o Seu Coração tão amargurado. Estas almas
poderiam obter misericórdia, esta misericórdia que para dá-la só
quer que o pecador se humilhe. Dizei isto à Madre Superiora.
Todas estas provas, Deus as
permitiu para vos dar força de alma e fazer triunfar a Sua glória,
Sua justiça e Seu amor.
Quando puderdes, fazei uma
visita a Jesus e dizei–Lhe vossos sofrimentos, alegrias, tudo
enfim. Falai–Lhe como a um Amigo, a um Pai, a um Esposo.
Não perder de vista a Divina
Presença. Deus vos quer santa e só para Ele. Não vos prejudiqueis.
O comum, eis o que Jesus quer de vós!
Últimos
Ensinamentos
Que a fé prática anime todas
as vossas ações. Que vossa confiança e amor, vos faça empreender
tudo quanto Ele exige de vós. Dizei cada manhã ao levantar: “Meu
Jesus, eis-me aqui para cumprir a vossa Santa Vontade; que quereis
que eu faça hoje para vos agradar?”
Fazei todos os exercícios de
piedade sob o olhar de Jesus, e com muito amor. Só se pode fazer bem
às almas, na medida da união com Deus.
Deus procura almas que reparem
os ultrajes que Ele recebe, que O amem, e que O façam amar. Ele vos
quer neste número.
Jesus, antes de conceder a uma
alma, uma união íntima com Ele, a purifica pela provação, e
quanto maiores desígnios têm sobre esta alma, tanto mais a prova é
maior.
Fixai vossa morada habitual no
Coração de Jesus. Que o amor seja a cadeia que una, vosso coração
Àquele Coração adorável. Vosso coração tão miserável se
purificará, se há de desapegar ao contato com um Coração tão
puro!
Ide buscar no Coração de
Jesus o que necessitais, para vós e para os outros. Ele nada vos há
de recusar.
Os sofrimentos do coração,
são bem mais penosos que os do corpo. Para uma alma que ama a Jesus,
a dor maior é magoar a Jesus, por suas ingratidões e pecados.
Pedi ao Coração de Jesus
força de alma necessária, para que Ele cumpra em vós Seus
desígnios.
Para fixar o espírito na
presença de Deus, tomai cada dia uma das catorze estações de Nosso
Senhor na Paixão e pensai bastante nela. Jesus gosta que nos
lembremos do que Ele sofreu por nós. Nos dias de festa tomai um
dos Mistérios gloriosos, a Ressurreição, a Ascensão. Pensai
também muitas vezes na Eucaristia, e na vida oculta de Jesus no
Tabernáculo. Lá, sobretudo, é que haveis de ver o Seu amor. Ficar
sozinho sem adoradores, na maior parte das igrejas do mundo! Esperar
em vão, que alguém venha Lhe dizer: eu vos amo!
Tudo passa, e passa depressa!
Não tenhamos tanta preocupação, pelas coisas que um dia hão de se
acabar! Olhemos sempre, o que nunca mais se há de acabar. Por nossas
ações santas e unidas a Jesus, embelezemos nosso trono no Céu.
Façamos o nosso trono mais alto, alguns degraus mais próximo
d’Aquele que havemos de contemplar e amar por toda a eternidade.
Eis qual deve ser a vossa ocupação na terra.
LEMBRANÇA
(2 de Novembro de 1890 –
Última bênção do mês do Rosário)
Vou procurar fazer com que
entendais quanto possível o que é o Céu. Festas e sempre novas,
que se sucedem sem interrupção, uma felicidade sempre nova e que a
gente nunca sentiu. É uma torrente de alegria que transborda sem
cessar sobre os eleitos. O Céu é principalmente Deus, Deus amado,
sentido, provado; é uma saciedade de Deus, sem se poder saciar
nunca!
Quanto mais a alma amou a Deus
na terra, tanto mais atinge o cume da perfeição, tanto mais
compreende o Céu!
Jesus é a verdadeira alegria
da terra, e a eterna alegria dos Céus!
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Almas do Purgatório: Manuscrito do Purgatório- Introdução (sanctisanimasinpurgatorio.blogspot.com)