BLOG CATÓLICO PARA OS CATÓLICOS.

BLOG CATÓLICO, PARA OS CATÓLICOS.

"Uma vez que, como todos os fiéis, são encarregados por Deus do apostolado em virtude do Batismo e da Confirmação, os leigos têm a OBRIGAÇÃO e o DIREITO, individualmente ou agrupados em associações, de trabalhar para que a mensagem divina da salvação seja conhecida e recebida por todos os homens e por toda a terra; esta obrigação é ainda mais presente se levarmos em conta que é somente através deles que os homens podem ouvir o Evangelho e conhecer a Cristo. Nas comunidades eclesiais, a ação deles é tão necessária que, sem ela, o apostolado dos pastores não pode, o mais das vezes, obter seu pleno efeito" (S.S. o Papa Pio XII, Discurso de 20 de fevereiro de 1946: citado por João Paulo II, CL 9; cfr. Catecismo da Igreja Católica, n. 900).

sexta-feira, 2 de abril de 2021

QUÃO PORTENTOSA E ADMIRÀVEL SEJA, A PAIXÃO DE JESUS CRISTO.


Amemos a Deus,

porque Deus morreu por nosso amor.


Poderá Deus, no caso que se determinou a baixar ao mundo em forma humana, obrar este Mistério em carne impassível, e imortal: porém, não quis senão ser homem mortal, e passível, semelhante a nós; e com efeito, comprar a nossa vida eterna à custa da Sua morte, e morte dolorosíssima e afrontosíssima, qual foi a de Cruz. Eis aqui, ó minha alma, outra nova e apertadíssima obrigação, em que Deus te pôs de O amares; tão excessiva e prodigiosa; que os Santos Doutores da Igreja não acham adequados termos para explicar ainda esse limitado conceito, que dela formam: e com ser estupendo o benefício da Encarnação do Verbo: é certo que este de Sua Paixão e Morte o sobrepuja muito. Si Trinitas Personarum (diz um Douto) hypostatice millies myriadibus infer homines se conjunxisset: non tantum amoris erga nos, tantaeque benevolentiae dedisset argumentum, quam dum in Cruce pro peccatoribus vitam ponit.1

Os mesmos Anjos se admiram, e estavam como atônitos, de ver que Deus para resgatar o servo entregou o Filho, e para perdoar os culpados justiçou a Inocência, e para sarar o frenético, se vazava todo o Sangue do Médico: Fusus est Sanguis Medici, et factus est medicamentum phrenetici.2 O insólito e imensurável desta demonstração de caridade fez alucinar e perder o tino aos Sacerdotes, Pontífices, Fariseus, e sábios da Lei, e ao mesmo Lúcifer, com todo o Conciliábulo de seus Demônios: e é o que ainda hoje dificulta ao Gentilismo o crédito do Mistério da Cruz. Porque os Judeus êmulos de Cristo nunca lhes pareceu que podiam concordar se estes dois extremos sumamente opostos, Ser Filho de Deus, e morrer; particularmente, morte cruel, afrontosa e violenta. E assim o seu discurso em perseguir e condenar à morte a Cristo foi este: Ou este homem é Filho de Deus, ou não: se o é, Ele se livrará das nossas mãos; por mais que O atormentemos, não pode morrer, nem ser vencido do poder humano, e leis da natureza: se o não é, justamente Lhe procuramos a morte, pois, usurpa para Si blasfemamente o que é próprio só do Altíssimo. Este foi o seu pensamento, como já muito de antes estava revelado no livro da Sabedoria: Gloriatur Patrem se habere Deus videamus ergó, si sermones illius veri sunt… si enim est verus Filius Dei, suscipiet illum, et liberabit eum de manibus contrariorum.3 Por isso também, clamavam com irrisão, quando o Salvador piedosíssimo estava na Cruz:4 Salvou aos outros e não pode se salvar a Si? Desça da Cruz, já que é Filho de Deus bendito e O creremos. E em outra ocasião, havendo dito o Senhor que importava fosse exaltado na Cruz, rompeu-lhe a multidão: Nós sabemos pela Lei, que Cristo é eterno: Como dizes agora, que importa ser levantado na Cruz? De sorte que a esta gente com ser de letras e criados nas doutrinas da Lei Santa, nunca lhes passou pela cabeça que Deus havia de entregar à morte a seu Unigênito Filho por amor dos homens. Suposto que esta ignorância neles foi grandemente culpável, cegando-os a sua malícia e inveja, com que perseguiam a um homem inocentíssimo e admirável em milagres, e não querendo investigar, nem entender as Escrituras: e na dúvida de se era ou não, Filho de Deus, abalançarem-se a dar-Lhe a morte, foi erro desmascarado e atrevimento formidável, e depravadíssima maldade.

Quase do mesmo modo Lúcifer, com toda sua infernal canalha, com serem espíritos de astúcia e sutileza, que excede toda humana capacidade, nunca chegaram a assentar que Cristo era Filho de Deus, uma vez que O viam tão pobre, desprezado, fraco, e sujeito às calamidades de filho de Adão, como os demais homens. E tanto que foram rastejando o Mistério por conjecturas, logo procuraram solicitamente impedir, e embargar a Paixão e Morte do Senhor: porém, já não puderam refrear da carreira começada a impiedade judaica e o mal que lhes tinham persuadido. E depois que caíram de todo na conta, deram por perdido o seu Reino do pecado, parecendo-lhes que uma demonstração tão poderosa, qual era morrer Deus por amor dos homens, os levaria todos a amá-Lo e a não empregar seus corações em outra coisa.

Realizado o prodígio, Mistério da Cruz, seguiu-se o pregarem-no os Apóstolos sagrados, para ser crido. Porém, a uns parecia matéria de escândalo, a outros de riso, como diz São Paulo: Judoeis quidem scandalum, gentibus autem stultitiam.5 Os daquele povo ingrato se envergonhavam e escandalizavam, de ouvir dizer que Deus morrera por eles em uma Cruz entre dois ladrões, e que eles O mataram: e ao Gentilismo, parecia-lhe tanto amor, vaidade, a qual está mui longe do ser Divino. Tanto assim; que ainda nos nossos tempos presentes, quando já o dia da Fé e Religião Cristã tem esclarecido em quase todo o mundo, foi proposto e perguntado à Santa Inquisição Geral de Roma, se podiam os Missionários da China encobrir aos que recebiam daqui escândalo e o reputavam por estultícia. Foi respondido, que de nenhum modo se devia encobrir ou reservar para depois do Batismo a doutrina da Paixão do Senhor:6 pois em seus abatimentos estava escondida a fortaleza e glória de Deus, e a vitória sobre o mundo, o Inferno e o pecado. Esta determinação aprovou a Congregação De propaganda: e à sua instância a confirmou o Papa Inocêncio X. E assim, a maior maravilha da graça do Senhor, foi render por meio da pregação Evangélica, a todo o mundo a crer e adorar por seu Deus um homem morto e pregado em um patíbulo.7

Nós os que em virtude da mesma Cruz já agora cremos nela, se nos parece este Mistério coisa bem ordenada e digna de Deus, é porque vivemos na região da luz da Fé, já feitos ao leite da doutrina de nossa Mãe a Santa Igreja Católica; mas, devemos muito advertir que diferente conceito faremos desta fineza de morrer Deus por nós, quando na pátria soubermos que coisa é Deus; porque impossível é tomarmos o peso a este abatimento, senão quando o tomarmos aquela sublimidade: e só quem vir a Cristo entre duas Pessoas Divinas no trono do Empíreo, poderá medir a distância que vai dali a pôr-se o mesmo Senhor entre dois ladrões no Calvário. O amoris vim! (exclama admirado S. Bernardo) Ita né summus omnium vilissimus factus est omnium? Quis hoc fecit? Amor dignitatis nescius, dignationedives, affectus potens, suasu efficax.8 Oh, força de amor! É possível, que a Pessoa mais alta de todas, se faz de todas a ínfima? Quem fez isto? O amor, que ignora dignidades e derrama dignações, valente no afeto, na persuasão eficacíssimo.



Logo se esta demonstração do amor Divino é a todas as luzes estupenda, singularíssima e infinita; que feia ingratidão será negar-lhe a correspondência do nosso pobrezinho amor? Algumas vezes tiveram os servos de Deus visões, em que lhes mostrou coisas inanimadas, em representação de figuras vivas: tenho para mim que se houvesse de representar-se uma figura desta ingratidão, quem visse sua fealdade feiíssima morreria de pavor. É possível, que não ao homem não haja de amar, a um Deus que morreu por ele de amor? Para Cristo nos mostrar o Coração, o abre por meio de uma cruel lançada; e nós os pecadores, amados de graça e à porfia recusarmos dar-Lhe o coração? Para nos abraçar consigo, estende os braços quanto pode, à custa de os fixar com cravos em um madeiro: e nós fugimos de abraçar este Senhor, sua lei e vontade, e vamos abraçar nossa perdição e opróbrio? Clama por tantas bocas quantas feridas, que nos ama, que nos quer, que não nos percamos, que acudamos a Ele e acharemos todo o bem: e nós duros, rebeldes e insensíveis, se o clamor nos entra por um ouvido, por outro nos sai? Não teremos com uma Pessoa infinitamente digna e soberana, aqueles bons termos, que se devem a qualquer outra que com seu amor nos obriga?

Conta-se que Tygranes Rei, sendo, juntamente, com sua mulher cativo por Ciro, Rei dos Persas, perguntando-lhe este, que daria pela liberdade de sua mulher, respondeu prontamente: Que daria a própria vida de boa vontade. Ciro se pagou tanto da resposta, que logo deu a ambos liberdade. Perguntou depois Tygranes a sua mulher, que lhe parecera da majestade e presença Del-Rei Ciro. Respondeu a prudente matrona com afeto enternecido: Não sei senhor dar razão disso: porque desde o ponto em que vos determináveis a comprar a minha liberdade com a vossa vida, nunca mais empreguei os olhos em pessoa alguma fora de vós, que tanta estimação fizeste de mim.

Quem há de agora, sem pedir primeiro licença e perdão a Deus, meter em comparação este caso com o nosso, de que vamos tratando? Este Rei era um homem, como os outros: Cristo é Rei da Glória e do Universo, Filho de Deus e o mesmo Deus. Este Rei estava pronto para dar a vida: Cristo a deu com efeito pela nossa liberdade. Este Rei dava a vida por sua esposa igual com ele no estado e nobreza: Cristo deu a vida por nós miserabilíssimos pecadores e seus inimigos. Este Rei dava a vida a mais não poder, para conseguir o seu intento: Cristo podendo livrar-nos por outros muitos meios, não o quis senão por morte de Cruz, escolhida e aceita livremente, para mais nos mostrar seu excessivo amor. Pois, por que há de haver alma, que depois de realizada esta portentosa fineza, ponha os olhos e empregue o coração na vaidade do mundo, no regalo da carne, na estimação da honra? Para alma, e considera. Para e toma o peso a este excesso do amor Divino e à tua obrigação.

Se um escravo nosso em uma briga de perigo e empenho nos mostrasse tal fidelidade e valor, que saísse dali crivado de estocadas, para nos salvar da morte: em que obrigação ficaríamos a este escravo? Como lhe poderíamos negar o amor? E quão estranha ingratidão seria tratá-lo mal e sem causa, açoitá-lo e vendê-lo? Pois acaso não cremos nós que muito maior e infinitamente maior fineza realizou por nós Cristo, dando a vida para nos salvar da morte eterna? Não o cremos assim? Acaso por ser Deus, O que tomou para este efeito a forma de servo, perdeu esta fineza o preço que tivera, obrada por qualquer outro homem, em matéria de muito menos importância, qual é a vida temporal? Que será isto, que aos mais dos homens não os penetram este amor, não os rende, não os obriga? Uma das principais causas é, porque O não consideram: e assim se ficam nos limites da natureza terrena e brutal, sem passar aos da racional e do espírito. Que importa ser a luz grande ou pequena, para quem tapa os olhos? Assim também: Que importa serem estas razões tão claras e fortes, senão aplicamos o entendimento? Mas isto mesmo é torpe ingratidão, digna de Inferno e Inferno muito mais grave que o dos infiéis, que suposto foram também remidos, não creem nesta dívida. Senhor (exclama a Deus seu servo Agostinho), quem não Vos serve, porque o criastes, merece o Inferno: mas, quem não Vos serve, porque o remistes, merece que se faça outro Inferno novo.

Hora pois, se a falta de consideração nos é causa de não advertirmos na grandeza desta dívida e nesta especial deformidade de nossos pecados, que daqui lhe acresce, não haja Cristão, que se lhe passe dia, em que não medite aos pés deste Senhor crucificado, o quanto lhe deve e o como poderá mostra-se agradecido. Ali chore, ali se confunda, ali proponha emendar a vida e lhe peça espírito amigo de padecer por seu amor, espírito de não amar coisa alguma, senão a quem com sua morte de Cruz, o livrou da morte eterna. Corra de vagar com os olhos por aquele retrato do amor, obra primorosíssima da mão do mesmo Deus, onde não há partezinha, nem circunstância mínima, que não esteja vertendo finezas e significando afetos. Adore a Majestade Divina ali humilhada, admire a profundeza de tantos Mistérios, abrace a bondade deste Senhor, que tão patente se manifesta, prove da suavidade que as amarguras de sua Paixão e Morte estão destilando e aproveite os inumeráveis bens, que desta fonte nos manaram. Estes, são cinco pontos (compreensivos dos mais), que um servo de Deus tinha escritos ao pé de um Crucifixo,9 para matéria e motivo dos afetos de seu espírito. 1. Adoro majestatem. 2. Stupesco profunditatem. 3. Amplexor bonitatem. 4. Libo suavitatem. 5. Suscipio utilitatem. Se assim o fizermos, entraremos em luz, teremos princípio de ser criaturas de Deus; que todo o que não O ama e serve, ainda (falando moralmente) não o começou a ser, pois ainda não foi gerado pela palavra interior, e vivificada da verdade; segundo aquilo do Apóstolo Santiago: Genuit nos verbo veritatis, ut simus initium aliquod creaturae ejus.10


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Fonte: Ven. Pe. Manoel Bernardez, Oratoriano, Luz e Calor, Segunda Parte, Opúsculo I, Estímulo VI, Pontos 270-272, pp. 251-256. Nova Edição, Lisboa, 1871.

1.  P. Penequin. ig. Isagoge, p. 1, cap. 16, n. 3.

2.  August. Lib. 5, contra haereses.

3.  Sap. 2.

4.  Matth., 27, 42.

5.  1 Cor., 1, 23.

6.  Verricelli de Apostolicis Missionibus tit. 1, de Fide q. 7, sect. 2. fine.

7.  Habac., 3, 1. cornua in manib. Ejus: ibi absc. Est fort. Ejus, &.c.

8.  Serm. 64 in Cant.

9.  O Padre Cláudio Aquaviva, Geral que foi da Companhia de Jesus.

10.  Jac., 1, 18.


quinta-feira, 1 de abril de 2021

INSTITUIÇÃO DO SANTÍSSIMO SACRAMENTO.


1ª Meditação

Concluída a ablução dos pés e encerrados os ritos e sacrifícios da antiga lei, o Divino Mestre prepara-se para fazer de Si mesmo um Novo Sacrifício com a instituição do Santíssimo Sacramento.1 Estava na sua vontade escolher a data que melhor lhe aprouvesse para a celebração de tamanha solenidade; preferiu, porém, a véspera de sua Paixão e Morte,2 para que mais se destacassem as finezas do seu amor para conosco, e nossos corações se sentissem mais estimulados em corresponder a tanto afeto.3

Ao mesmo tempo que os homens pensam em dar-lhe a morte e morte ignominiosa e infame, Ele cuida em dar-nos a vida e vida infinitamente valiosa e abundantemente copiosa.4 Penetremos bem no âmago deste conceito.

Enquanto os homens tramam contra o Amável Salvador injustiças, perseguições, desonras, sevícias e tormentos, Ele engendra em sua mente os mais estupendos inventos, e resolve nos deixar o tesouro mais precioso que existe no erário da Sapiência e Onipotência de Deus.5

Enquanto os homens obstinados no mal, desejam por um excesso de maldade serem abandonados por Deus, Ele encontra meios sublimes para estreitar cada vez mais os laços de união com os homens, perpetuando entre eles sua morada.6 Ó benignidade! Ó caridade,7 verdadeiramente infinita, que entre os caudais da ingratidão humana não se extingue e não se entibia, mas antes cresce e chameja com mais ardor.8

Considerando o Apóstolo São Paulo que nem os flagelos e nem os espinhos; nem os pregos e nem a Cruz conseguiram esfriar ou diminuir o amor de Jesus para conosco, saiu-se também Ele naquele altaneiro surto de fervor, afirmando que nada nesta vida, inclusive a própria morte conseguiria separá-Lo do amor de Jesus.9

Ora, se é verdade, como é incontestável, que o Apóstolo não se cingiu somente à personalidade própria, mas entendeu abranger todos aqueles que estivessem adornados com o caráter de cristãos, que vergonha para mim não poder fazer parte deste número porque de sentimento tão oposto aos do Santo Apóstolo?

Sim, o amor que me votais, ó meu Jesus é constante e inabalável a todas as provas: mas o que Vos dedico é tão frágil que ao sopro de qualquer brisa se apaga e morre.

A me separar de Vós, é muitas vezes suficiente uma pequena ocasião, uma leve tentação; e tão longe estou de suportar por vosso amor perseguições e adversidades, que muitas vezes uma miserável paixãozinha me faz cambalear e cair. Ah! Meu Jesus que tão amiudadas vezes Me visitais no Adorável Sacramento, fazei que eu sinta os efeitos de vossa presença e minha alma saia do banquete Eucarístico mais fortalecida no vosso amor.10

Peço-Vos a esmola do vosso amor não feito de ternuras e suavidades, mas sólido e forte semelhante ao que tivestes por mim.11

Propósito

Se quiser imitar a Nosso Senhor Jesus Cristo o qual coerente com sua doutrina aos que lhe queriam mal, dando-lhe a morte, respondeu dando-lhes a vida no Santíssimo Sacramento, eu também esforçar-me-ei respondendo com toda amabilidade à quem me tratar com maneiras bruscas e pouco caridosas.12



2ª Meditação

Em palavras resumidas, mas altamente significativas, exprime São João a instituição do Santíssimo Sacramento, dizendo, que havendo Nosso Senhor Jesus Cristo tido sempre um grande amor aos seus que viviam neste mundo, amou-os com mais ardor e veemência especialmente no fim de sua vida,13 deixando-lhes um tesouro incomparavelmente superior a todos os tesouros da terra e do Céu, na Santíssima Eucaristia, chamada por isso, o Sacramento do seu inefável amor;14 manifestando de propósito este legado do seu amor à última hora para que se imprimisse mais em nossos corações.15

Assim como o Eterno Pai deu prova de imensa dileção que nos consagrava, dando-nos seu Unigênito Filho porque, juntamente, com Ele deu-nos tudo;16 assim o mesmo Unigênito em sinal de sua caridade para conosco, deu-nos a Si próprio e, juntamente, com sua Pessoa Divina entregou-nos tudo que tinha, não lhe sendo possível dar-nos, embora Onipotente, outro bem superior a este, porquanto nada existe que sobrepuje em grandeza, em carinho, em doçura, em riqueza, em santidade a este Augusto Sacramento.17 Com efeito, neste admirável Sacramento conferiu-nos o direito de usarmos do seu Corpo, do seu Sangue, de sua Alma e Divindade, e como consequência revestiu-nos dos seus méritos infinitos.18

Estende, ó minha alma, o voo dos teus pensamentos pela amplidão do infinito e vê se podes dar com tesouros, riquezas, maravilhas, ou algo de superior ao legado valiosíssimo que Jesus te deixou no seu Testamento!…

Pois bem, Ele fez tudo isto para que reconheças as finezas com que te amou;19 e a obrigação que te cabe é de corresponder a este amor.20

Deus meu, quem sou eu para que me consagreis tamanho amor, e o mesmo exijas de mim?21 Ah! Senhor, ainda que o amor-próprio procure alcançar-me em suas malhas, eu confesso não passar de uma criaturinha miserável, e o que mais me dói, é confessar não haver em mim nada que seja digno de Vossa Divina Majestade. De sorte que, se por um lado é digno de admiração o amor que me manifestais no Augustíssimo Sacramento, por outro é digno de estupefação a insensibilidade e ingratidão com que sois correspondido.

E até quando seremos nós ingratos e indiferentes à divina caridade?22 Quero amar-Vos, ó meu Jesus, mas Vós que conheceis quão fraca e movediça é minha vontade, revigorai-a com os vossos poderosos auxílios.

Mas de que maneira e em que medida Vos poderei demonstrar o meu reconhecimento.23

Vós mesmo me ofereceis a solução do problema. Deste-me tudo, a ponto de esgotar os tesouros das vossas riquezas infinitas; é justo pois que eu, em troca Vos dê tudo que possuo ou que possa ter. O bom e o melhor de mim mesmo vou empregá-lo no vosso santo serviço; não me falte, porém, vossa graça para que se torne real e prático o desejo que tenho de pagar, ainda que em parte mínima, a imensa dívida de amor que contraí convosco na instituição do Santíssimo Sacramento.24

Propósito

Tornarei práticas as minhas resoluções, oferecendo a Deus o sacrifício da memória, intelecto, vontade, declarando franco combate aos meus sentidos e paixões internas, lembrando-me de que a oração que não produz a reforma da vida, não passa de sentimentalismo doentio e inútil.



3ª Meditação

Nosso Senhor Jesus Cristo, Sacerdote Eterno figurado em Melquisedec25 que, único no Antigo Testamento ofereceu ao Altíssimo um sacrifício, não de animais, mas de pão e vinho,26 estando sentado a mesa, toma o pão em suas santas e veneráveis mãos e levantando os olhos ao Eterno Pai, benze-o,27 e o consagra dizendo: ESTE É O MEU CORPO.28 Da mesma maneira, toma nas mãos o cálice, deita-lhe o vinho e diz: ESTE É O MEU SANGUE.29

Apenas proferidas estas palavras, o pão deixa de ser pão, e se converte no seu verdadeiro Corpo; o vinho deixa de ser vinho para converter-se no seu verdadeiro Sangue.30 Não é dado à mente humana pesquisar, nem como isto tenha sido possível nem como o fato se deu; seria incidir na sofística incredulidade judaica.31 Assim como o Verbo de Deus se fez homem nas entranhas puríssimas da Santíssima Virgem, sem o concurso de homem, mas somente pela virtude do Espírito Santo, assim pela mesma virtude o pão é convertido na substância do Nosso Deus humanado.32

Mas, assim como na Pessoa de Nosso Senhor Jesus Cristo a Divindade, estava como que oculta e, invisível sob os véus da humanidade visível, assim na Santíssima Eucaristia, o Homem-Deus esconde-se sob as aparências do pão e do vinho,33 verificando-se neste Mistério a profecia que faz de Nosso Deus, um Deus escondido.

Mas sobre isto não nos entreguemos aos voos da fantasia; lembrando-nos de que, o que a razão fraca e míope não pode alcançar, deve supri-lo a fé34 adorando, e agradecendo a infinita Sapiência e Onipotência de Deus.

Eu pois creio, ó meu Senhor Jesus Cristo, com todo fervor do meu espírito, que em virtude da vossa taumaturga palavra, estais na Hóstia consagrada, com vossa Verdadeira e Real substância, com a Divindade e Humanidade, verdadeiro Deus e verdadeiro homem.35 Vós o dissestes, e assim é; passarão os Céus e a terra, porém, jamais falharão vossas palavras. Nesta fé quero viver; nesta firme e inabalável esperança quero também morrer.

Tenho prazer em não poder-Vos contemplar desveladamente, não possa compreender a sublimidade do Mistério, pois com isto me é dado oferecer-Vos o sacrifício dos meus sentidos e do meu intelecto.

Se minha crença não é digna de Vós, peço-Vos a reaviveis aumentando-a, enquanto eu vou preenchendo as lacunas da minha alma com a fé dos mais ilustres Santos da Vossa Igreja, especialmente aqueles que tiveram a dita de derramar o sangue em testemunho da vossa adorável Presença no Santíssimo Sacramento.

Propósito

Pedirei a Nosso Senhor Jesus Cristo me conceda uma fé tão firme, que na Santíssima Comunhão,36 e na Visita ao Santíssimo eu mostre uma devoção e uma veneração não comuns.



4ª Meditação

Escolheu de preferência, Nosso Senhor Jesus Cristo o pão, como matéria da instituição eucarística, para nos deixar nela uma memória perpétua de sua Paixão.37

Outras vezes tinha-se Ele comparado a um grão de trigo,38 e é agora no Santíssimo Sacramento que tem sua aplicação a comparação passada. Com efeito, como o trigo se bate, se mói, se mexe e remexe para que possa obter o pão diário, assim Nosso Senhor foi alanhado, remoído, britado e repisado sob os golpes da Paixão dolorosa;39 para que nos lembremos quanto nos amou,40 e este pensamento não se desalie nunca das nossas comunhões.41

Base principal e primária da nossa eterna salvação, é a Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo.42 Ora, estando esta contida e comemorada no Santíssimo Sacramento, vem daí quão grande sejam as esperanças que devemos pôr em Jesus Eucarístico.

Com razão exulta a Igreja na adoração deste Sagrado banquete reconhecendo ter-nos Nosso Senhor deixado um memorial de sua Paixão e um penhor de sua eterna glória.43 E na realidade, como poderemos duvidar de nossa salvação, sabendo como o nosso Salvador se fez nosso alimento nesta vida, para que nos seja facilitado a eterna vida no Céu?44

Por vezes deixo-me levar pelo desalento e vou cismando, – QUEM SABE SE CONSEGUIREI SALVAR-ME?

Mas agora vou reagir, esperando firmemente em Vós, ó meu Deus Sacramentado,45 pois que para garantir-me o galardão da eternidade me deixastes como caução, não somente os vossos méritos, mas todo o vosso Ser, toda a vossa Pessoa.46

Sejam pois, ó meu Jesus, tributados louvores, bênçãos e ações de graças, a vossa amargosa Paixão, da qual nasce a doce esperança do Céu, esperança sancionada e confirmada na instituição do Santíssimo Sacramento. Atualmente não Vos vejo no esplendor da vossa Majestade; mas espero contemplar-Vos, quanto antes, face a face no Céu. Sim, sim, espero atingir aquela besta pátria, e é tal minha esperança, que nada me intimida em virtude daquele pão de eterna vida que me preparastes sobre o altar, para reconfortar-me nas tristezas, e sustentar-me nas lutas.47 O único temor que venha a falhar minha eterna salvação, pode nascer tão somente do meu descuido e desleixo em usar dos meios necessários que Vós tendes posto ao meu dispor, mas para este inconveniente, recorro ainda ao Vosso Sacramento do qual me virá, luz, auxílio e força.48

Propósito

Antes e depois da Santíssima Comunhão, habituar-me-ei a meditar um pouco sobre a Paixão de Nosso Senhor e tanto mais fervorosa e frutuosa será a comunhão, quanto mais penetrar no doloroso Mistério do amor de Jesus paciente.



5ª Meditação

Um outro motivo teve em vista Nosso Senhor Jesus Cristo ao instituir a Santíssima Eucaristia, sob as espécies de pão, antes que de qualquer outra substância alimentícia. O pão é feito de grãos de trigo amontoados, triturados, moídos, esfarinhados e juntamente amassados; querendo com isto simbolizar aquela união, paz e caridade que deve mediar entre os fiéis que a querem seguir.49 E por isso, nos preceitua, que antes de nos aproximarmos do altar, nos reconhecermos com os nossos irmãos,50 apreciando Ele sobretudo e todas as coisas, a caridade fraterna.

O mesmo nome de Comunhão o exprime e diz; visto como esta palavra além de significar a união entre Jesus e nossa alma, expressa também a união nossa com o nosso próximo;51 de maneira que verdadeiramente não comunga quem não se acha em pacífica união com todos.52

Um Mistério de caridade fraterna é a Santíssima Eucaristia;53 e é nesta caridade que principalmente consiste a substância e o âmago do Cristianismo.54

Mas, como sem humildade, a caridade é uma casa sem alicerces, eis que o Divino Mestre nos dá na Eucaristia um exemplo também de profunda humildade. Grande, intraduzível e infinita fora sua humildade na Encarnação, quando restringiu, enclausurou nos augustos confins do homem, aquela Divindade que a amplidão dos Céus não pode conter.55

Mas, que dizer em face deste assombro de humildade em que o Unigênito do Pai, esconde e restringe além da Divindade a própria humanidade sob aparências de pouco pão e no breve círculo de uma Hóstia? Cheios de admiração, contemplemos o Homem-Deus feito alimento dos homens.56 Aquele Verbo Divino que nas fulgurâncias da glória, apascenta os Anjos, não pode rebaixar-Se mais do que fez, após ter-Se transformado em comida dos filhos de Adão.57

Com que profunda e sincera humildade devo pois dizer por ocasião da Sagrada Comunhão: DOMINE NON SUM DIGNUS, reconhecendo-me indigníssimo de receber-Vos, ó meu Deus!

Minha indignidade em face da vossa humildade aumenta ainda mais, porquanto sendo Vós Deus infinito, ocultais vossa grandeza nos véus do Sacramento, enquanto eu criatura vil e mesquinha, amo tanto e ardorosamente desejo aparecer, ser conhecido e estimado. Quereria imitar-Vos humilhando-me, mas como pode o nada abaixar-se além de seu nada?58 Ah! Meu Jesus, que no Santíssimo Sacramento desprendeis raios de humildade e caridade por toda parte,59 comunicai-me ao menos o tanto de humildade que me é preciso para conservar a caridade com o meu próximo.

Eu confesso minhas faltas passadas, declarando não ter devidamente praticado a caridade com o meu próximo, por causa do meu grande orgulho, perdoai-me, Senhor, e valei-me com Vossa graça. Neste momento ofereço-Vos meu coração, rogando-Vos o transformeis de tal maneira, que doravante ele Vos ame muito e ao próximo por vosso amor.60

Propósito

Antes e depois da Comunhão, entreter-me-ei em atos de humildade, reconhecendo a miserabilíssima coisa que eu sou, e em atos de caridade propondo nunca mais e em hipótese alguma, perturbar a paz entre irmãos.


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Fonte: Pe. Caetano Maria de Bergamo, O.F.M.Cap., “Pensamentos e Afetos sobre a Paixão de Jesus Cristo para cada dia do ano – Extraídos da Sagrada Escritura e dos Santos Padres”, Vol. 1, Caps. XXXII-XXXVI, pp. 84-96; Tradução de Frei Marcellino de Milão, O.F.M.Cap.; Escola Typographica Salesiana, Bahia, 1933.

1.  D. Bonav., Medit. Vit Chr., v. 73.

2.  I Cor., 11, 23; D. Greg., lib. 2 Mor., cap. 24.

3.  D. Chrysost., hom. 59 in Jo.

4.  Jo., 6, 57.

5.  Conc., Trid., sess. 13, c. 2.

6.  Matth., 28, 20; Euseb., Emiss., hom. 3 in dedic. Eccles.

7.  D. Bonav., Medit. Cap. 73.

8.  Cânt., 8, 7.

9.  Rom., 8, 35.39.

10.  D. Aug., Manual., c. 11.

11.  Idiot., de div. am., cap. 11.

12.  Luc., 6, 27.

13.  Jo., 13, 1.

14.  Christ. Durthm., in Matth. 26.

15.  D. Aug., epist. 118 ad Januar.

16.  Jo., 3, 16; Rom., 8, 32.

17.  D. Bonav., Medit. Vit. Chr. Cap. 73.

18.  Jo., 13, 3; D. Greg., lib. 2 Mor., cap. 24.

19.  D. Chrysost., hom. 69 in Jo.

20.  D. Chrysost. Hom. 48 in Jo.

21.  Job 7, 17.

22.  Christ., Druthm., in Matth. 26.

23.  Psalm., 115, 12.

24.  Idiot., Cont. Div. am., cap. 10.

25.  Psalm., 109, 4; Gên., 14, 18.

26.  D. Cypr., serm., in coena Dom.

27.  Eccles., in com. Missae.

28.  Matth., 26, 26.

29.  Matth., 26, 27.

30.  D. Ambr., de sacram., 1, 4, v. 4.

31.  Jo., 6, 52.

32.  D. Damasc., 1, 4, fid., Orthod., c. 14.

33.  D. Cypr., serm. De coena Dom.

34.  Is., 45, 15; Eccle., in seq., missae corp. Chr.

35.  D. Bonav., Medit., vit. Chr. Cap. 73.

36.  Luc., 17, 5; D. Aug., Manual., c. 11.

37.  D. Th., opusc., 57.

38.  Jo., 12, 24.

39.  Is., 53, 5.

40.  D. Chrysost., hom. 83 in Matth.

41.  I Cor., 11, 26.

42.  D. Chrysost., hom. 66 in Matth.

43.  Eccles., in vespr. Corp. Chr.

44.  Jo., 6, 56.58.

45.  Psalm., 41, 12.

46.  D. Chrysost., hom. 61 ad pop.

47.  Job 19, 27; Psalm., 22, 5.

48.  Eccles., in sequ. Missae.

49.  D. Aug., tract., 27 in Jo.

50.  Matth., 5, 23.

51.  D. Chrysost., hom. 24 in 1 Cor.

52.  D. Hieron., epist. 62 ad Theoph.

53.  D. Aug., in ps. 21.

54.  D. Cypr., serm. De coena Dom.

55.  Philip., 2, 6.

56.  D. Aug., serm. 127 de temp.

57.  Psalm., 77, 25; D. Aug., in ps., 33.

58.  D. Cirill., atex, in Jo., 13.

59.  D. Aug., serm. 127 de temp.; D. Aug., lib. 7 Conf., cap. 18.

60.  Idiot., de div. am., cap. 30.


NOSSO SENHOR JESUS CRISTO, PREPARA-SE PARA CELEBRAR, SUA ÚLTIMA PÁSCOA.


1ª Meditação

Nosso Senhor Jesus Cristo timbrou sempre em observar fielmente a lei mosaica até nas suas minudências,1 coerente consigo mesmo quer agora celebrar o rito pascoal embora Ele visse, através das cerimônias judaicas, uma outra páscoa de maior glória à Deus e maior vantagem a nós.

Consistia a Páscoa dos hebreus, em comemorar a passagem do povo de Deus da Escravidão de Faraó para a liberdade; enquanto para nós significa, a passagem do pecado à graça, da pena à glória.2 A páscoa, portanto, tão desejada pelo Salvador da nossa salvação eterna,3 e como para Ele celebrar a páscoa é sinônimo de morte,4 é-lhe, todavia, mui cara havendo dela falado frequentes vezes e sempre com desejo ardentíssimo.5

Os discípulos, portanto, atendendo aos desejos do Divino Mestre, puseram-se em movimento para fazer os preparativos como lhes fora ordenado.6 E qual será a páscoa que eu também devo desejar e com diligente solicitude aparelhar-me a celebrar? Ó minha alma, se a palavra páscoa significa passagem,7 a que Deus te manda celebrar será esta, que tu passes do amor desregrado que tens às coisas terrenas e caducas ao amor das celestiais e eternas.8

Feliz Páscoa para nós, se estamos resolvidos a dar tal passo! Eia, sus! Para que demoras inúteis e delongas perigosas? Passemos generosamente da tibieza ao fervor, da vaidade à verdade, da vida mundana à uma vida estritamente cristã.9

Eis-me aqui, Senhor, pronto a aderir às vossas inspirações e agradecendo-Vos o amor generoso porque ides celebrar páscoa tão dolorosa, espontaneamente resolvo imitar-Vos, celebrando eu também uma páscoa salutar mediante a reforma radical de minha vida. Bendita seja vossa misericórdia que dignou-se instruir e iluminar minha alma, surda e cega.10 Envergonho-me arrependido das vãs e torpes diversões nas quais prodigamente desperdicei um tempo tão precioso.11 De grande amargura transborda meu coração em refletir na troca infeliz que fiz, deixando-Vos à margem, imensa e inefável doçura!12 Já não serei o que fui. Adeus ó mundo, nas tuas orgulhosas máximas; adeus ó carne, nos teus bramidos culposos; adeus ó Demônio, nas tuas falazes lisonjas e desmentidas promessas! Deus, alma, eternidade, doravante serão estes os meus pensamentos e afetos.

Mas posso eu formular propósitos com tamanha franqueza, eu que já dei tantas provas de lamentável instabilidade? Ah, meu Jesus, se conseguir fazer a páscoa, quebrando as algemas das paixões que me escravizam, adquirindo assim a liberdade dos vossos eleitos, vossa será toda a glória, porque efeito daquela graça que me foi por Vós merecida e que eu de novo confiadamente peço pelos vossos padecimentos.

Propósito

É preciso me convencer de que tenho inadiável necessidade de reformar minha vida tíbia e relaxada. Usufruirei eficazmente da Paixão do Senhor, cujo Mistério é representado na última ceia, se, deveras mudar de vida.



2ª Meditação

Sabendo os Apóstolos da solicitude que tem o Divino Mestre por celebrar a próxima páscoa, perguntam-Lhe na manhã de quinta-feira Santa, onde quer que se prepare a ceia para o sacrifício do cordeiro;13 e Jesus para se conformar com a lei que preceitua não se celebre a páscoa senão na Cidade Santa,14 escolhe à Pedro e a João, e, é o discípulo amante e o discípulo amado,15 e dá-lhe instruções para que procurem em certa rua, à um certo homem e assim lhe falem da parte d'Ele: “A hora da minha partida está a chegar; quero celebrar a páscoa em tua casa”.16 Os dois Apóstolos obedecem; vão, encontram, falam e, em dois tempos, tudo está disposto e preparado.17

Em primeiro lugar, me será útil refletir como Nosso Senhor Jesus Cristo, o Soberano do Céu e da terra tenha-se por nosso amor empobrecido, a ponto de não possuir em Jerusalém, nem cômodo nem vivenda, precisando da casa alheia para celebrar a páscoa.18

Já tinha dito que as raposas têm suas covas e as aves seus ninhos, mas o Filho do homem não tem onde reclinar a cabeça.19 Grande confusão para mim tão agarrado aos meus cômodos e de tal maneira sensível, que rompe em queixumes e lamentos, toda vez que me falta qualquer bagatela. Pobreza de espírito, desprendimento de todas as afeições, tão necessário para quem aspira à fruição dos bens celestes, onde estás? Certamente não te acho dentro de mim! Em segundo lugar, deve considerar-se a honra de que é alvo o humilde e desconhecido dono da casa, escolhida por Nosso Senhor, como lugar próprio para celebração dos Mistérios mais altos e sublimes que jamais se tenham oferecido sob a face da terra, coligindo daí o grande amor que Jesus tem aos humildes e o seu cuidado em exaltá-los.=

Não se deve, porém, omitir uma terceira reflexão, e é a pronta e heroica obediência do proprietário do Cenáculo, o qual sabendo, pelos públicos editais,20 das perseguições e tramas urdidas pelos primazes da Sinagoga contra a Pessoa do Divino Mestre, não se retrai contudo diante do pedido; mas embora corra risco sua segurança pessoal, concede generosamente hospedagem a Jesus, objeto das iras dos poderosos da terra.21

O amor misericordioso de Jesus aproxima-se muitas vezes também de mim e segreda-me ao coração palavras dulcíssimas, pedindo-me permissão para entrar na casa de minha alma e aí poder celebrar a páscoa e operar para mim minha santificação. Que grande honra que o Filho do Altíssimo se digne lembrar-se de mim e queira favorecer-me com sua visita?22 Se é do vosso agrado, vinde com toda liberdade, ó Senhor! A casa com seus três aposentos: memória, intelecto e vontade, está ao vosso inteiro dispor, reconhecendo, porém, que ela não é digna de vossa presença, rogo-Vos a embelezeis enriquecendo-a de santas virtudes. Sim, vinde, meu Jesus; eu Vos espero. Cedendo-Vos meu coração e dando-Vos nele guarida, sei que vou sofrer perseguições23 do Demônio, do mundo, e de minha própria humanidade rebelde, mas nada temo, estribado em vossos auxílios.24

Propósito

Exercitarei uma vigilância rigorosa moderando as inclinações exageradas que tenho às coisas do mundo; lembrando-me que para engajar-me no exército de Jesus, cumpre combater os humanos respeitos e desprezar as prudências que cheiram à carne.



3ª Meditação

Não é a primeira vez que Jesus celebra a páscoa, havendo por costume realizar todos os anos, com pontualidade rigorosa, e com afetos dignos do seu Coração Santíssimo, esta cerimônia simbólica, que Lhe lembrava o sacrifício real de sua Pessoa a oferecer-se mais tarde na Cruz.25

Nesta última, porém, na qual tem seu ponto final todas as figuras e símbolos, compenetra-Se de um profundo recolhimento e dá começo ao sagrado rito com desusada solenidade. O cordeiro pascal seguindo as prescrições legais, é por Ele sacrificado na tarde da quinta-feira Santa;26 e é justamente as primeiras horas desta mesma noite que se dá sua captura, podendo considerar-se aquela noite como o prólogo do lúgubre drama de sua Paixão, que terá seu desfecho final na Crucificação e Morte.27

Acompanhemos, com devota atenção em todas as suas fases o banquete presidido pelo Salvador e não ficará nossa alma em jejum.28 Que pensamentos e afetos perpassam na mente e no Coração do Divino Mestre ao contemplar sobre a mesa o cordeiro assado; ao ter de cortá-lo em pedaços e reparti-lo entre os Apóstolos,29 e ao lembrar-Se de que tudo aquilo não passa de uma pálida figura da cruenta tragédia de que será expectadora amanhã toda Jerusalém no alto ensanguentado do Calvário?30

Nunca os séculos presenciariam, nem nunca presenciarão semelhante conúbio, vendo colocadas face à face a sombra e a luz, a figura e a verdade, o símbolo e a sua realidade.31

Ao contemplar o cordeiro, memorial dos grandes prodígios operados por Deus para libertar do Egito o povo escolhido, Jesus pensa que chegou a hora de voltar ao Seio do Pai querido, pois que, páscoa para Ele é a passagem deste vale de lágrimas para o Céu, sua pátria, desde a eternidade.32

Ele vai, portanto, fechar a porta do Velho Testamento e abrir a Nova Era de paz e de amor; vai pôr um termo ao período das figuras para iniciar a fase das realidades, vai enxertar sobre o tronco da lei mosaica o rebento viçoso da Nova Lei; já não sendo mais tempo de se imolarem animais à Divindade, imolando-Se daqui em diante o verdadeiro Cordeiro que tira os pecados do mundo. Jesus implora ao Altíssimo se digne acolher o Novo Sacrifício, e, assim como pelo passado, não dedignara-se aceitar em holocausto os cordeiros, agora seja Sua Divina Majestade servida, receber a oblação que faz de Si mesmo, pela salvação do mundo.33

Que ações de graças Vos renderei, ó Eterno Pai,34 por haverdes consentido que eu nascesse em uma terra banhada pela luz de vossa fé, santificada pela vossa lei e onde continuamente se Vos oferece a Hóstia Santa do Vosso Unigênito Filho?

Eu também, Senhor, vo-Lo ofereço em expiação das minhas culpas, unindo aqueles sentimentos que Ele teve ao banquete da última páscoa, quando generosamente se interpôs Mediador entre as dívidas insolúveis dos homens e a vossa Justiça. Ah! Senhor! Nada poderia oferecer-Vos que seja ou mais precioso, ou mais digno e aceitável aos vossos olhos, do que a Humanidade de Nosso Senhor Jesus Cristo, única oblação imaculada, única espiral de incenso que exala perfumes que Vos sejam agradáveis. É, pois, em nome desta Vítima que Vos peço perdoeis minhas fragilidades,35 e é apoiado nos merecimentos deste Cordeiro, que eu espero tudo de vossa misericórdia.36

Encoberto, pois, nas dobras da túnica imaculada do Vosso Unigênito, a Vós me apresento, ó Pai que estás no Céu, esperando a remissão de minhas culpas, esperando a graça e a glória, esperando, enfim, não ser iludido em minhas esperanças.

Propósito

Habituar-me-ei à oferecer ao Eterno Pai a Pessoa adorável de Jesus, como propiciação copiosa, dizendo com São João Batista: “Eis o Cordeiro de Deus; eis Aquele que tira os pecados do mundo”.37



4ª Meditação

Quando nos está iminente alguma contrariedade vultuosa, perturbamo-nos e, por vezes chegamos a nos irritar.

Não é assim que se dá com Nosso Senhor Jesus Cristo.

Ele sabe que está mui próximo de sua Paixão, da qual O separam apenas poucas horas; e, apesar disto, seu espírito se conserva numa tranquilidade imperturbável, dando-nos nesta sua atitude a prova de que é verdadeiro Filho de Deus e Salvador do mundo; não recuando, mas indo encontrar a morte com intrepidez.38

Como, um pai prestes a empreender uma longa viagem, dirige aos filhinhos palavras de despedida repassadas da maior ternura e incendido afeto, assim o amável Redentor, fala aos Apóstolos, neste último banquete, com acentuada doçura e fundas saudades.39

Claramente lhes revela o que Lhe vai acontecer nesta mesma noite, a fim de que a surpresa não os abata, e o imprevisto não os desalente,40 mas fiquem certos de que ninguém O obriga a sofrer e morrer, senão sua livre e espontânea vontade.41

Explana-lhes o Mistério da Redenção que iniciada com a pregação de sua doutrina, reforçada pelos milagres, vai ter o selo final com a Paixão e a Morte.42

Em seguida, como que expandindo-se, abre-lhes seu Coração e com acesso de transporte assim lhes diz: “Com imenso ardor tenho desejado celebrar esta páscoa convosco,43 e a páscoa deste ano é verdadeiramente a minha, e que me é mais cara,44 porque dela depende a salvação de todos os filhos de Adão.45

Pesquisemos donde nasce em Nosso Senhor Jesus Cristo o desejo tão veemente de celebrar esta páscoa.

Nasce o desejo do amor; e deve-se inferir ser este bem grande, se produz um desejo tão ardente. Sim, como mãe carinhosa nesta última hora Ele pensa em amar o filho, a Igreja,46 que vai ficar só no mundo, à mercê dos eventos, entregue as contingências do tempo, frente a frente aos perseguidores que lhe moverão encarniçada guerra.47

Ó Salvador caridoso, se do imenso desejo que tendes de ver realizado minha santificação e garantida minha salvação, eu tivesse uma parcela ao menos, quão diversa seria a conduta de minha vida e quanto maior zelo sentiria para minha perfeição! Quisera ser bom, e ajuntar todas as virtudes possíveis; quisera atingir o mais alto grau da santidade; sim, quisera-o, mas… o meu desejo é como o vai e vem das ondas, efeito de uma vontade enfraquecida.

Quem, deveras quer uma coisa, quer também todos os meios que a ela conduzem, envidando todos os esforços para consegui-la.48 Mas eu passo os dias numa sonolência inexplicável; cruzo os braços, e enquanto rapidamente declina a minha juventude e vem se aproximando a tarde de minha existência, reparo que estou de mãos vazias.

Acendei em mim, ó bom Jesus, o vosso amor e surgirá em meu coração o desejo de fazer-Vos o gosto em tudo aquilo que Vos apraz. Quisera agradar-Vos, mas minha fraca vontade é por demais instável. A Vós pertence, Senhor, torná-la forte na intenção e eficaz na execução dos seus deveres, de sorte que me torne santo nesta e salvo eternamente na outra vida.49

Propósito

Assim como Nosso Senhor Jesus Cristo desejou ardentemente sua Paixão por meu amor; assim eu também, por amor Dele, excitarei em mim o desejo de meditá-la e imitá-la, consistindo nisto a medula da santidade e a consumação do último fim.


____________________________

Fonte: Pe. Caetano Maria de Bergamo, O.F.M.Cap., “Pensamentos e Afetos sobre a Paixão de Jesus Cristo para cada dia do ano – Extraídos da Sagrada Escritura e dos Santos Padres”, Vol. 1, Caps. IX-XXII, pp. 48-59; Tradução de Frei Marcellino de Milão, O.F.M.Cap.; Escola Typographica Salesiana, Bahia, 1933.

1.  Matth., 5, 18; D. Chrysost., hom. 82 in Matth.

2.  D. Remig., in Cat. d. Matth. 26.

3.  D. Chrysost., hom. 80 in Matth.

4.  Matth., 26, 2.

5.  D. Chrysost., in Cat. Luc., 22.

6.  Matth., 26, 18.

7.  Beda in Marc., 14.

8.  D. Hieron., in Matth., 26.

9.  D. Bern., serm. 1 die pasch. Aug., lib. 18.

10.  D. Aug., 1, 10 Conf., cap. 27.

11.  D. Aug., 1, 10 Conf., cap. 21.

12.  D. Aug., lib. 2 Conf., cap. I.

13.  Matth., 26, 17.

14.  Deut., 16, 5.

15.  Teoph., in Matth., 26.

16.  Matth., 26, 18.

17.  Marc., 14, 16.

18.  D. Chrysost., hom. 82 in Matth.; 2 Cor., 8, 9.

19.  Matth., 8, 20.

20.  Jo., 11, 56.

21.  D. Chrysost., hom. 82 in Matth.

22.  Psalm., 8, 5.

23.  2 Tim., 3, 12.

24.  Psalm., 17, 4.

25.  Euseb., Emiss. In Matth., 26.

26.  Matth., 26, 20; Exod., 12, 6.

27.  Beda in Luc., 22.

28.  D. Bonav., Medit. Vit. Chr., cap. 73.

29.  Idem, ibid.

30.  D. Remig., in Cat. d. Th. Matth. 26.

31.  Orig., tract. 15 in Matth.; Euthiam., in Matth. 26; Euseb., Emiss. In Matth. 26.

32.  Patrem., Jo., 13, 3.

33.  Heb., 10, 8.

34.  D. Bonav., Medit., cap. 73.

35.  D. Aug., Medit., cap. 5 et 6.

36.  Psalm., 4, 6 et 8.

37.  Jo., 1, 19.

38.  D. Athan., serm. De pass. Dom.

39.  Teoph., in Luc., 22.

40.  Orig., tract., 15 in Matth.

41.  D. Chrysost., hom. 82 in Jo.

42.  Orig., tract., 15 in Matth.

43.  Luc., 22, 15.

44.  Teoph., in Luc., 22.

45.  D. Chrysost., hom. 80 in Matth.

46.  Euseb., Emiss. In Luc. 22.

47.  Tit., Bostr., in Luc. 22.

48.  D. Th. 1, 2, qu. 20, art. 4.

49.  Idiot., Cont. Div. am., cap. 11.


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