BLOG CATÓLICO PARA OS CATÓLICOS.

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"Uma vez que, como todos os fiéis, são encarregados por Deus do apostolado em virtude do Batismo e da Confirmação, os leigos têm a OBRIGAÇÃO e o DIREITO, individualmente ou agrupados em associações, de trabalhar para que a mensagem divina da salvação seja conhecida e recebida por todos os homens e por toda a terra; esta obrigação é ainda mais presente se levarmos em conta que é somente através deles que os homens podem ouvir o Evangelho e conhecer a Cristo. Nas comunidades eclesiais, a ação deles é tão necessária que, sem ela, o apostolado dos pastores não pode, o mais das vezes, obter seu pleno efeito" (S.S. o Papa Pio XII, Discurso de 20 de fevereiro de 1946: citado por João Paulo II, CL 9; cfr. Catecismo da Igreja Católica, n. 900).

terça-feira, 27 de julho de 2021

DO CONHECIMENTO PRÓPRIO.


1. Não podemos ter muita confiança em nós mesmos, porque muitas vezes nos faltam a graça e o discernimento.

Pouca luz há em nós, e essa bem depressa, por negligência nossa a perdemos.

Frequentemente não advertimos, como é grande a nossa cegueira interior.

Muitas vezes são más as nossas ações e piores as nossas desculpas.

Move-nos não raro a paixão, e cuidamos que é zelo.

Censuramos nos outros pequenas faltas e desculpamos as nossas, mais graves.

Bem depressa sentimos e ponderamos o que dos outros sofremos, mas não advertimos no que de nós sofrem os outros.

Quem sinceramente examinasse as próprias ações, não julgaria com severidade as alheias.

2. O homem interior antepõe o cuidado de sua alma, a todos os demais cuidados; e quem olha para si com diligência, abstém-se facilmente de falar dos outros.

Nunca serás homem interior e devoto, se não guardares silêncio das coisas alheias e não te ocupares especialmente de ti.

Se voltares toda a tua atenção para ti e para Deus, pouco te impressionará o que perceberes em teu redor.

Onde estás quando não estás presente a ti mesmo? De que te aproveita haver percorrido tudo, se te descuidaste de ti?

Se queres ter paz e verdadeira união com Deus, despreza tudo o mais, a fim de só olhares para a tua alma.

3. Muito progresso farás, se te desembaraçares dos negócios temporais; muito afrouxarás, pelo contrário, se lhes deres importância.

Aos teus olhos nada avulte como grande ou elevado, agradável ou aceito, senão Deus somente ou o que de Deus vem.

Tem por vã toda consolação, que te vier das criaturas. A alma que ama a Deus, despreza tudo o que está abaixo de Deus.

Só Deus, eterno e imenso, que tudo enche, é consolação da alma e verdadeira alegria do coração.1


1ª Reflexão2


Tão fracos somos, que muitas vezes corremos grave risco de confundir o bem com o mal e tomar como virtude o que realmente é vício. Nunca nos desembaraçamos bastante das insinuações do amor-próprio, para julgarmos com inteira imparcialidade os nossos defeitos; inventamos pretextos para passarmos por inocentes aos olhos da nossa consciência e nenhum escrúpulo temos em censurar com rigor as ações e até as intenções dos nossos irmãos. Trazemos os olhos no que os outros fazem, aplicamos os ouvidos ao que dizem, e somos cegos e surdos a respeito do que se passa em nós, como se nenhuma responsabilidade tivéssemos da nossa vida. Queremos que os outros sofram os nossos defeitos e não desculpamos os deles. Se um nosso amigo ou conhecido está atribulado, damos-lhe conselhos acertados, que não tomamos para nós em igualdade de circunstâncias. Muito pouco sabemos do que mais nos interessa, porque não penetramos a fundo no conhecimento das nossas fraquezas.

Quantas pessoas há que, parecendo empenhadas em passar por piedosas, nada mais fazem que desacreditar a piedade? São um princípio de discórdia no seio da família, gastam em devoções vãs o tempo que deviam empregar no cumprimento das suas obrigações. Por isso mesmo, a sua ação é estéril: nem edificam com o seu exemplo, nem corrigem com as suas palavras. O remédio para este grande mal está na consideração atenta dos próprios defeitos.

Como o cego de Jericó, clamarei: “Senhor, que eu veja: filho de Davi, tende compaixão de mim”. É verdade, meu Deus, que não mereço a vossa compaixão, porque muitas e muitas vezes me tenho tornado réu da vossa justiça, transgredindo os vossos Preceitos; mas, agora estou arrependido do passado e disposto a seguir as vossas inspirações do futuro.


2ª Reflexão3


Ainda que soubesses o que há de bom e mau em cada homem, sem excetuar um só, de que serviria isto, se não te conhecesses a ti mesmo?

Ninguém te pedirá conta no dia do Juízo, da consciência dos outros, senão da tua. Deixa pois um cuidado, cujo princípio é a soberba e a malignidade, e ocupa-te de outro mais agradável a Deus e mais útil para ti: conhecer-te a ti mesmo.

Esta é a verdadeira e maior ciência do cristão: este deve ser nosso estudo de todos os instantes.

Quem melhor se conhece, mais se despreza: aflige-se de ver a chaga de seu coração, de sentir o amor-próprio que o domina, de sofrer secretos apetites que o atormentam, e neste aperto exclama com o Apóstolo: “Quem me livrará deste corpo de morte!”4

Feliz, venturoso livramento! Mas, que acharemos nós depois, se formos fiéis? A Deus, unicamente a Deus, e n’Ele, todas as coisas, toda a consolação, todo o bem. Ó minha alma, se disto não duvidas, começa desde já a desembaraçar-te do peso que te oprime, a desapegar-te da terra e de seus bens, das criaturas e de seus encantos, dize adeus ao mundo, e vive só para Jesus Cristo.


3ª Reflexão5


Os que têm bastante cuidado de sua consciência, não estão muito sujeitos ao juízo temerário. Pois, como as abelhas, vendo nevoeiros ou tempo confuso, recolhem-se em seus cortiços para resguardarem o mel, assim os pensamentos das boas almas, não saem a pousar sobre objetos emaranhados, nem entre as ações nebulosas dos próximos; mas para evitarem encontrá-las, recolhem-se dentro de seu coração, para nele guardarem, bem guardadas, as resoluções de sua própria emenda.

É costume de uma alma inútil, divertir-se no exame da vida alheia. Excetos aqueles que respondem por outros, tanto na família como na sociedade; pois, uma boa parte de sua consciência consiste em olhar e vigiar a dos outros. Façam pois com amor, seu dever e a isto se limitem nesse ponto.6


Oração


Meu Senhor, Jesus Cristo, que quisestes ser amarrado pelos malvados, quebrai as cadeias de meus pecados, e prendei-me de tal modo, pelos laços da caridade e de vossos Mandamentos, que não se extraviem as potências de minha alma e de meu corpo, para cometer coisa alguma contrária a vossa santa vontade. Amém.7


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1.  Imitação de Cristo, Livro II, Cap. V, pp. 60-61. Tradução do Pe. Leonel Franca, S.J., 4ª Edição, Livraria José Olympio editora, Rio de Janeiro/São Paulo, 1948.

2.  Imitação de Cristo, Livro II, Cap. V, pp. 93-94. Novíssima Edição, por Mons. Manuel Marinho, Editora Viúva de José Frutuoso da Fonseca, Porto, 1925.

3.  Imitação de Cristo, Presbítero J. I. Roquette, Livro II, Cap. V, pp. 109-110. Editora Aillaud & Cia., Paris/Lisboa.

4.  Rom. VII, 24.

5.  Imitação de Cristo, versão portuguesa por um Padre da Missão, Livro II, Cap. V, p. 99. Imprenta Desclée, Lefebvre y Cia., Tornai/Bélgica, 1904.

6.  São Francisco de Sales, “Introdução à Vida Devota”, IIIª Parte, Cap. XXXVIII.

7.  São Francisco de Sales, Opusc. III.


domingo, 25 de julho de 2021

JESUS OU A MENTIRA: QUAL O CAMINHO A SEGUIR?


Manda-nos o Verbo que O amemos sobre todas as coisas e ao próximo como a nós mesmos e que testemunhemos este amor por atos, assim como Ele mesmo nos dá o exemplo. Em relação a Deus e ao próximo, devemos mostrar-nos fiéis a estes Preceitos; cada um de nós ouve este chamado. Mas quais são as almas que a ele correspondem? São aquelas que, tendo fome e sede da virtude, correm com desejos santos pelo caminho que o Cristo crucificado nos traçou. Com esta sede e estes desejos, eles se aproximam da fonte… Assim nos convida Cristo, o doce Jesus, a beber a água viva.

A outra voz que nos incita é a do Demônio… Ele traz a morte em si e eis por que nos impele a beber a água morta. Se lhe perguntares: ‘Que me darás se me entregar ao teu serviço?’, ele te responderá: ‘Far-te-ei presente do que possuo: já que vivo sem Deus, necessário te será também viver sem Ele. Estou no fogo eterno onde há choro e ranger de dentes; estou abismado nas trevas e privado de luz; perdi toda esperança e tenho por companheiros todos os condenados e supliciados. Eis o que te darei como recompensa e como consolação’…

Qual é pois o caminho que estamos convidados, consequentemente, a seguir? É a via da mentira. A mentira gera o miserável amor-próprio que te leva a amar, de forma desregrada, o fausto, a magnificência do mundo, as criaturas e a ti mesmo, sem te preocupares em perder a Deus e a beleza da tua alma. Na tua cegueira, fazes do mundo o teu Deus; como um ladrão, furtas o tempo que deverias consagrar à glória de Deus, à salvação de tua alma e ao bem dos outros, pois que o desperdiças na tua própria satisfação, concedendo a teu corpo mais bem-estar e conforto do que Deus permite… Cristo escreveu Sua doutrina no próprio Corpo; fez de Si mesmo um livro, cujas iniciais são tão grandes e rubras que o mais iletrado e menos atencioso pode, facilmente, distingui-las e compreendê-las. O Diabo coloca diante dos teus olhos o livro de teu próprio sensualismo, no qual estão escritos todos os vícios e tendências más da tua alma: a cólera, a impaciência, o orgulho, a infidelidade para com o Criador, a injustiça, a impureza, o ódio ao próximo, o gosto do pecado e o descaso pela virtude, o grosseirismo, a calúnia, a preguiça, a negligência. Se a vontade se detém neste livro, dele se impregnando e pondo em prática suas lições, segue, como um ímpio, a trilha da mentira, indicada pelo Demônio, e bebe a água morta, para seu castigo e condenação eterna”.1

Eis aqui a mensagem que Catarina devia transmitir ao mundo político como ao mundo religioso. Existem dois reinos: – de um lado, o egoísmo, o mundo, o pecado, as trevas, a morte, o Inferno; – do outro lado, o amor, a renúncia, o cumprimento do dever, a luz, a vida, o Céu. A porta de entrada para o reino da morte é o eu, Ego; a porta do reino de Deus é o Verbo, Jesus. Aquele que vive no seu eu apega-se àquilo que passa e perecerá; – aquele que se fixa em Jesus, fixa-se no imperecível e será salvo.

Esta doutrina parecia tão eminentemente verdadeira a Catarina que ela não podia deixar de pregá-la em todas as ocasiões, aos grandes e aos pequenos, “oportuna e inoportunamente” como diz o Apóstolo. “Esta mulher”, escreveu o bom tabelião Cristófano Guidini maravilhado, “pouco se preocupava em saber se o que ela dizia agradável ou não”.2 Para ela, a política, assim como todas as outras obras humanas, constituía capítulos de moral e o homem de Estado devia ser, como todos os outros homens, um imitador de Cristo. Imiscuía-se entre as repúblicas beligerantes, penetrava na Igreja corrompida, admoestando os homens a deporem as armas a fim de se darem o ósculo da paz, exortando-os a que passassem do nepotismo e da simonia à retidão e probidade, do temor dos homens ao temor de Deus, do próprio Eu a Jesus.


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Fonte: Johannes Joergensen, “Santa Catarina de Sena”, Livro Segundo, Cap. IX, pp. 142-143. 2ª Edição, Editora Vozes Ltda, Petrópolis/RJ, 1953.

1.  Carta 318.

2.  “Costei, per l’onore di Dio, non curava dispiacere o di piacere”. (Arch. Stor. Ital. IV, p. 36).


sábado, 24 de julho de 2021

A EUCARISTIA – BOSSUET. 12ª PARTE.


Deus amou tanto o mundo!

As consequências desse amor.

Creiamos nesse amor e imitemo-lo.


Deus amou tanto o mundo que deu seu Filho único, a fim de que aquele que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna”.1

Que quer dizer: que deu seu Filho único? É que o deu à morte, assim como Ele dissera antes: “Assim como Moisés elevou a serpente no deserto, cumpre também que o Filho do homem seja elevado”, quer dizer que seja elevado e posto na Cruz. Foi, pois, assim que Deus deu seu Filho único: deu-O à morte, e à morte de Cruz.

Mas como foi que Deus fez para dar seu Filho único à morte? O Filho de Deus, em quem está a vida, e que é Ele próprio a vida, pode morrer? A fim de que Ele pudesse morrer, Deus fê-Lo homem, fê-Lo Filho do homem de uma maneira admirável, incompreensível, veracíssima, realíssima, singularíssima, que admira toda a natureza; e por esse meio cumpriu-se o que Deus queria, que o Filho do homem, que é ao mesmo tempo Filho de Deus, fosse elevado na Cruz, e dado à morte pela vida do mundo.

Deus, portanto, amou tanto o mundo que lhe deu seu Filho único, Deu-O primeiro ao mundo quando Ele se fez homem; e deu-O em segundo lugar ao mundo quando O deu para ser a Vítima dele. A mesma Carne que Ele tomara, para tornar-se semelhante a nós e unir-se a nós, no-la dá Ele de novo dando-A por nós em Sacrifício.

Eis aí duas coisas do nosso Salvador: uma, que o Filho de Deus devia vir em carne, para se unir a nós e ser-nos semelhante; outra, que o mesmo Filho de Deus devia imolar-se na mesma Carne que tomara, e oferecê-la por nós em Sacrifício. Uma terceira deve realizar-se nessa Carne imolada: cumpre ainda que Ela seja comida para consumação desse Sacrifício, em penhor certo de que foi por nós que o Filho de Deus a tomou e ofereceu, e de que Ela é inteiramente nossa. É uma terceira maravilha que deve realizar-se na Carne de Jesus Cristo.

Como o fará Ele? Teremos que devorar-Lhe a Carne, ou viva ou morta, na sua própria espécie de natureza? E já que é preciso que seu Sangue nos seja tão dado a beber quanto a sua Carne a comer, a fim de que, assim dado, nos seja em penhor de que foi para a remissão dos nossos pecados que ele foi derramado, haverá que engolir esse Sangue em sua própria forma? Livre-nos Deus! Deus achou o meio de, sem nada perder da substância de seu Corpo e de seu Sangue, os tomarmos apenas de maneira diferente daquela por que eles são naturalmente expostos aos nossos sentidos. Por esse meio, temos toda a substância de uma e de outro; e Deus, dando-no-los sob uma forma estranha, poupa-nos o horror de comer carne humana e de beber sangue humano na sua própria forma.

E como foi que Ele fez isso? Tomou pão e disse: Isto é meu corpo, meu verdadeiro corpo, mas sob a figura de pão; tomou uma taça de vinho e disse: Isto é meu sangue, meu verdadeiro sangue, sob a figura deste vinho de que enchi a taça que vos apresento. Portanto, assim como Ele fez seu Filho eterno e imortal o Filho do homem, para que Ele pudesse morrer, assim também, para que pudéssemos comer essa Carne e beber esse Sangue, fez Ele esse Corpo pão de certo modo, visto que revestiu seu Corpo da espécie e da forma do pão; quis que seu Sangue fosse vertido nas nossas bocas, e corresse em nós sob a forma e figura do vinho. Temos, pois, toda a substância de uma e de outro; as figuras antigas se cumprem, a nossa fé fica contente, o nosso amor tem o que pede: tem Jesus Cristo todo, na sua própria e verdadeira substância; e a Igreja O come, a Igreja O recebe; como esposa, goza-Lhe do Corpo; está-Lhe unida corpo a corpo, para Lhe estar também unida coração a coração, espírito a espírito.

Como é que tudo isso pode fazer-se? Deus amou tanto o mundo! O amor pode tudo; o amor faz, por assim dizer, o impossível; para se contentar, e para contentar o seu caro objeto. Deus também fez para nós o impossível; digo para nós, porque, para Ele não há impossível, tudo Lhe é possível. Mas aquilo que era impossível à natureza fazer, e ao senso humano compreender, Ele o fez; seu Filho tornou-se filho do homem, e aproximou-se de nós; a natureza humana, que Ele pôs de alguma forma entre Ele e nós, não impediu que fosse Ele próprio em pessoa que viesse a nós, mesmo como Deus; ao contrário, Ele a nós veio pelo próprio homem, e a Carne que Ele tomou foi o nosso vínculo com Ele. Do mesmo modo, quando o o Filho do homem foi dado à morte, foi verdade que o próprio Filho de Deus morria, na natureza que havia tomado. Se em seguida se faz mister comer Carne dada por nós em Sacrifício, o seu amor achará meios para isso: Tomai, comei; isto é meu corpo; não vos informeis do modo, é a substância que vos é preciso, pois é à substância que está unida a Divindade e a vida. Sob a figura deste pão, está o meu próprio Corpo; sob a figura deste vinho, está o mesmo Sangue que foi derramado por vós. Comei, bebei; tudo é vosso, não penseis no que os sentidos vos apresentam; é à vossa fé que falo; é a ela que digo: Isto é meu Corpo. Lembrai-vos, pois, de que sou Eu que o digo. Ninguém mais senão Eu, nenhum outro senão um Deus, nenhum outro senão o Filho de Deus, por quem tudo foi feito, poderia falar deste modo. Lembrai-vos de que, sob a figura deste pão e deste vinho, está meu Corpo, está meu Sangue, que Eu vos dou, este Corpo dado à morte, este Sangue derramado por vossos pecados.

E como foi que tudo isso se fez? Deus amou tanto o mundo! Só nos resta crer, e dizer com o discípulo bem-amado: “Havemos crido no amor que Deus teve a nós”.2 Bela profissão de fé! Belo símbolo! Que credes, cristãos? Creio no amor que Deus tem a mim. Creio que Ele me deu seu Filho; creio que Ele se fez homem? Creio que se fez minha Vítima; creio que se fez meu alimento, e que me deu seu Corpo a comer, seu Sangue a beber, tão substancialmente quanto tomou e imolou um e outro. Como, porém, o credes? É que eu creio no seu amor, que pode por mim o impossível, que o quer, que o faz. Perguntar-Lhe outro como, é não crer no seu amor e no seu poder.

Se cremos nesse amor, imitemo-lo. Quando se trata da glória de Deus e do seu serviço, o nosso zelo não deve achar nada impossível. “Se podeis crer, diz Ele, tudo é possível àquele que crê”. Notai; se podeis crer; toda a dificuldade é crer; mas se uma vez crerdes bem, tudo vos é possível. Deus entra nos desígnios do vosso zelo, e o seu poder vos vem em auxílio. O obstáculo que tendes a vencer não está nas coisas que tendes a executar por Deus; está em vós mesmo, está na vossa fé; se puderdes crer. Porém, Deus nos ajuda a crer. “Creio, Senhor! Ajudai a minha incredulidade”.


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Fonte: Jacques-Bénigne Bossuet, Bispo de Meaux, “Meditações sobre o Evangelho” – Opúsculo A Eucaristia”, Cap. XII, pp. 59-64. Coleção Boa Imprensa, Livraria Boa Imprensa, Rio de Janeiro/RJ, 1942.

1.  Jo., III, 16.

2.  Jo., IV, 16.


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