BLOG CATÓLICO PARA OS CATÓLICOS.

BLOG CATÓLICO, PARA OS CATÓLICOS.

"Uma vez que, como todos os fiéis, são encarregados por Deus do apostolado em virtude do Batismo e da Confirmação, os leigos têm a OBRIGAÇÃO e o DIREITO, individualmente ou agrupados em associações, de trabalhar para que a mensagem divina da salvação seja conhecida e recebida por todos os homens e por toda a terra; esta obrigação é ainda mais presente se levarmos em conta que é somente através deles que os homens podem ouvir o Evangelho e conhecer a Cristo. Nas comunidades eclesiais, a ação deles é tão necessária que, sem ela, o apostolado dos pastores não pode, o mais das vezes, obter seu pleno efeito" (S.S. o Papa Pio XII, Discurso de 20 de fevereiro de 1946: citado por João Paulo II, CL 9; cfr. Catecismo da Igreja Católica, n. 900).

sexta-feira, 15 de setembro de 2023

AS SETE DORES DE NOSSA SENHORA.


15 de SETEMBRO


Maria deixara-se ficar de pé junto da Cruz do Senhor, e, como o predissera Simeão, “uma espada de dor atravessara-Lhe a alma”. Impotente, “vira o Filho nas angústias da morte e recolhera-Lhe o último suspiro”. A dor que Lhe ferira, à beira da Cruz, o seu Coração Maternal, mereceu-Lhe a palma do martírio. Celebrada já no século XVII com grande solenidade pelos Servitas, a festa das Sete Dores de Maria só em 1817 foi estendida à Igreja Universal, em memória dos sofrimentos que a Santa Igreja padecera na pessoa do Pontífice exilado e detido e depois restituído à liberdade por intercessão de Nossa Senhora.

Pio X elevou-a em 1908 à categoria de 2ª classe e em 1912 fixou-a a 15 de Setembro, Oitava da Natividade. Assim como a festa das Sete Dores no Tempo da Paixão nos lembra a parte que Maria teve no Sacrifício de Jesus, esta no Tempo depois de Pentecostes diz-nos da compaixão que a Mãe do Salvador sente para com a Igreja, Esposa de Jesus e com Ele crucificada, e cuja devoção às Dores de Maria aumenta nos tempos calamitosos que atravessa.1



Afastai-vos de mim. Quero chorar a minha dor amarga. Não vos deis o trabalho de me consolar”.2

A quem te hei de comparar, a quem te hei de assemelhar, ó filha de Jerusalém? A quem te poderei igualar para consolar-te, ó virgem filha de Sião? A tua dor é grande como o Oceano”.3

Ao pé da Cruz do Senhor estava a Sua Mãe e a irmã de Sua Mãe, Maria de Cléofas e Salomé e Maria Madalena. Mulher, eis aí teu filho, disse Jesus; e olhando para o discípulo: Eis aí tua Mãe”. V. Glória ao Pai.

Oração: Ó Deus, em cuja Paixão, uma espada de dor varou, conforme o predissera Simeão, a alma Santíssima de Maria Virgem e Mãe, fazei por vossa misericórdia que, celebrando as Dores da acerba transfixão que sofreu, logremos, por seus merecimentos e pelos de todos os Santos que rodeiam fielmente a Cruz, recolher os ditos frutos da vossa Paixão. Vós que viveis e reinais… R. Amém.

Oração4

Puríssima Virgem Maria, transpassada de dor com a espada que profetizou Simeão; cuidadosa e necessitada fugindo para o Egito; triste e atribulada buscando o Filho perdido; cheia de amargura e lágrimas encontrando-O com a Cruz às costas; aflita e ansiosa vendo-O agonizar e morrer; angustiada e atormentada com o Filho morto nos braços; só e sem consolo deixando-O sepultado: suplico-Vos humildemente, que a graça que Vos peço, se for para maior glória de Deus e bem de minha alma, alcançai-me da Divina Majestade, e senão, que se faça em tudo Sua Santíssima Vontade, e que eu nunca O ofenda. Suplico-Vos, também, que intercedais por nosso Santíssimo Padre, pela paz e concórdia entre os príncipes cristãos, exaltação da Santa Fé Católica, destruição das heresias, conversão dos infiéis, e confusão dos turcos: olhai com os olhos de piedade a vossos devotos, e concedei-lhes especialíssimos auxílios de graça para maior glória de Deus e vossa. Amém.



Ladainha de Nossa Senhora das Dores5


Senhor, tende piedade de nós.

Jesus Cristo, tende piedade de nós.

Senhor, tende piedade de nós.


Jesus Cristo, ouvi-nos.

Jesus Cristo, atendei-nos.


Deus Pai dos Céu, tende piedade de nós.

Deus Filho, Redentor do mundo, tende piedade de nós.

Deus Espírito Santo, tende piedade de nós.

Santíssima Trindade, que sois um só Deus, tende piedade de nós.


Santa Maria, rogai por nós.

Mãe das Dores, rogai por nós.

Mãe do Crucificado, rogai por nós.

Rainha dos Mártires, rogai por nós.

Modelo dos que sofrem, rogai por nós.

Consolo dos aflitos, rogai por nós.

Auxílio dos necessitados, rogai por nós.

Proteção dos desamparados, rogai por nós.

Fortaleza dos pusilânimes, rogai por nós.

Refúgio dos pecadores, rogai por nós.

Saúde dos enfermos, rogai por nós.

Esperança dos moribundos, rogai por nós.


Por vossa pobreza e desamparo no estábulo de Belém, socorrei-nos, ó Mãe das Dores.

Pela compaixão que experimentastes na Circuncisão do Divino Infante, socorrei-nos, ó Mãe das Dores.

Pela dor que Vos causou a profecia de Simeão, socorrei-nos, ó Mãe das Dores.

Por vossas angústias na Fuga para o Egito, socorrei-nos, ó Mãe das Dores.

Pela dor que Vos causou o Morticínio das Crianças, ordenado por Herodes, socorrei-nos, ó Mãe das Dores.

Pela aflição com que procurastes o Menino Jesus, quando O perdestes, socorrei-nos, ó Mãe das Dores.

Pela tristeza profunda que a cegueira de vosso povo Vos causou, socorrei-nos, ó Mãe das Dores.

Pela dor e angústia que a prisão de vosso Filho Vos causou, socorrei-nos, ó Mãe das Dores.

Pela visão dolorosa de vosso Filho maltratado, em caminho para a morte, socorrei-nos, ó Mãe das Dores.

Por vosso sofrimento inexprimível na hora da Crucifixão, socorrei-nos, ó Mãe das Dores.

Pela grande tristeza que Vos encheu a Alma a Morte de vosso Unigênito, socorrei-nos, ó Mãe das Dores.

Por vossa perseverança inquebrantável ao pé da Cruz, socorrei-nos, ó Mãe das Dores.

Por vossa resignação admirável à vontade do Altíssimo, socorrei-nos, ó Mãe das Dores.

Pelos grandes merecimentos de vossas dores, socorrei-nos, ó Mãe das Dores.


De todo o pecado, livrai-nos, ó Mãe das Dores.

Da falta de caridade e dureza para com os necessitados, livrai-nos, ó Mãe das Dores.

Do orgulho e soberba, livrai-nos, ó Mãe das Dores.

De nos mostrarmos descontentes com os desígnios divinos, livrai-nos, ó Mãe das Dores.

Do desânimo e impaciência no sofrimento, livrai-nos, ó Mãe das Dores.

Das ciladas do Inimigo, livrai-nos, ó Mãe das Dores.

D o espírito de impenitência, livrai-nos, ó Mãe das Dores.

Da morte infeliz, livrai-nos, ó Mãe das Dores.

Da condenação eterna, livrai-nos, ó Mãe das Dores.


Cordeiro de Deus, que tirais os pecados do mundo, perdoai-nos, Senhor.

Cordeiro de Deus, que tirais os pecados do mundo, ouvi-nos, Senhor.

Cordeiro de Deus, que tirais os pecados do mundo, tende piedade de nós.


Jesus Cristo, ouvi-nos.

Jesus Cristo, atendei-nos.


Senhor, tende piedade de nós.

Jesus Cristo, tende piedade de nós.

Senhor, tende piedade de nós.


V. Em toda a aflição, angústia e necessidade.

R. Vinde em nosso auxílio, ó Bem-aventurada Virgem Maria.


Oremos

Senhor Jesus Cristo, nós Vos suplicamos a graça de ter como intercessora junto de Vós, agora e na hora de nossa morte, a Bem-aventurada Virgem Maria, cuja Alma foi transpassada pelo gládio da dor em vossa Paixão. Vós, que viveis e reinais com o Pai e o Espírito Santo, por todos os séculos dos séculos. Amém.


__________________________

1.  Missal Quotidiano e Vesperal, por Dom Gaspar Lefebvre, beneditino da Abadia de São André, Sinopse, Iª e IIª Vésperas e Intróito da Missa das Sete Dores de Nossa Senhora (15 de Setembro), p. 1605. Desclée de Brouwer & CIE, Bruges (Bélgica). 1952. Cfr. Jo. 19, 25-27.

2.  Sl. 109.

3.  Thren. 2, 13.

4.  Santo Antônio Maria Claret, Caminho Reto e Seguro para Chegar ao Céu, p. 222. Tradução do Espanhol, 5ª edição, Administração da Revista “Ave Maria”, São Paulo/SP. 1909.

5.  “Vademecum” – Orações Cotidianas para Uso Comum das Educandas das Missionárias “Servas do Espírito Santo” e Membros da “Obra Auxiliar do Espírito Santo”, Editada pela Direção Geral da mesma Congregação; Segunda Parte, Cap. “Ladainhas”, pp. 255-257. Tipografia do “Lar Católico”, Juiz de Fora/MG, 1958.


quinta-feira, 14 de setembro de 2023

A EXALTAÇÃO DA SANTA CRUZ.

DIA 14 DE SETEMBRO


Instituiu-se a festa da Santa Cruz, para celebrar a memória daquele dia, em que o Sagrado Madeiro, sobre o qual o Salvador do mundo, Jesus Cristo, consumou a grande obra da Redenção, foi solenemente trazido pelo imperador Heráclio a Jerusalém, donde catorze anos antes o tinha levado Cosroas, rei da Pérsia. Atenta sempre a Igreja e sempre solícita em dar a este precioso instrumento, todo o culto que por tantos títulos se lhe deve, instituiu esta festa em reverência da Santa Cruz, celebrando todos os anos as maravilhas que obrou neste dia, que com razão se pode chamar, o dia do seu triunfo.

Cosroas II, filho de Hormisdas, rei da Pérsia, subiu ao torno no ano de 591, e foi tão desumano, que mandou tirar a vida ao seu próprio pai. Este detestável parricídio tornou-o tão aborrecido de seus vassalos, que se viu obrigado a procurar a sua salvação na fuga.

Refugiou-se, pois, em Constantinopla sob a proteção do imperador Maurício, que o acolheu com excessiva bondade e o restituiu ao trono. Mas Focas, que de simples centurião tinha subido aos primeiros cargos do império, fez-se proclamar imperador, no ano de 601; perseguindo Maurício até próximo de Calcedônia, primeiro mandou tirar a vida a quatro filhos seus diante do infeliz pai, e depois mandou cortar a cabeça ao mesmo Maurício.

Resolvido Cosroas a vingar a morte de seu insigne benfeitor, declarou guerra a Focas, entrou na Síria, apoderou-se da Palestina, da Armênia e da Capadócia, devastando o Oriente, até as portas de Constantinopla. Heráclio, filho do governador da África, animado com o clamor dos povos, que já não podiam suportar as violências do tirano, foi com uma esquadra ao porto de Constantinopla, e derrotadas as tropas de Focas, o fez prisioneiro e lhe mandou cortar a cabeça. Foi Heráclio proclamado imperador no ano de 610, e não se poupou à diligência alguma, para pactuar com o rei da Pérsia; mas este, orgulhoso com as suas primeiras vitórias, desprezou todas as propostas do imperador, e voltou a começar as suas irrupções nas terras do imperador. Entrou na Palestina, pôs cerco a Jerusalém no ano de 615, tomou-a e levou para a Pérsia o tesouro mais precioso que tinham os cristãos no Oriente, isto é, a Santa Cruz, onde Jesus Cristo morrera para a salvação de todos os homens; e apoderando-se também de todos os vasos sagrados, levou igualmente para a Pérsia grande número de cristãos escravos, entre os quais o Patriarca de Jerusalém, Zacarias, que nunca perdeu de vista o Sagrado Madeiro. Levaram-na como em triunfo os infiéis para a cidade de Cresifonte, sobre o Tigre, intentando erigir com Ela um troféu à sua idolatria; mas a Cruz, ainda que ao parecer, cativa entre os inimigos, fez-se respeitar deles, da mesma maneira que em outros tempos a Arca do Senhor entre os filisteus.

Nenhum persa teve a ousadia de tocar o Sagrado Penhor da nossa Redenção, conservando-se sempre dentro da caixa ou estojo de prata, em que a metera Santa Helena, sem que toda a cobiça de Cosroas se atrevesse a aproveitar-se mesmo dela, pelo respeito que tinha àquela preciosa Relíquia.

Segunda vez lhe pediu Heráclio a paz, sujeitando-se a indignas condições; mas o soberbo persa, orgulhoso com suas vitórias, respondeu aos embaixadores de Heráclio, que lhe concederia a paz com a condição de que o imperador e todos os seus vassalos cristãos renunciassem a Jesus Cristo e adorassem o sol, único Deus dos persas. Horrorizaram-se os cristãos ao ouvirem semelhante proposição, e animado de justiça e indignação o imperador, declarou em presença de seus oficiais, que estava pronto a derramar até a última gota do seu sangue para humilhar tão insigne insolência.

O Clero Secular, os Mosteiros e todos os cristãos ofereceram ao imperador os seus bens para uma empresa tão justa, considerando-a já como negócio de religião. Heráclio pôs-se à frente de suas tropas e marchou direto à Pérsia. Estando já em presença do exército inimigo tomou na mão uma imagem milagrosa do Filho de Deus, percorreu com ela as fileiras, lembrando aos seus soldados, que iam pelejar por Jesus Cristo e que assim deviam pôr a sua confiança no auxílio do Senhor, Deus dos Exércitos.

Não foram enganados em sua esperança: deu-se a batalha, e os persas, posto que superiores em número, e acostumados a vencer, foram inteiramente derrotados. A campanha foi ainda mais gloriosa para os cristãos; o imperador bateu os persas em muitos reencontros, obrigou Cosroas a abandonar a cidade de Gaza, onde estava o célebre templo do fogo. Tendo entrado Heráclio na cidade, achou no palácio a estátua de Cosroas sentado debaixo de uma espécie de meia laranja, que representava o Céu.

Ao redor da estátua viam-se o sol, a lua e as estrelas e também alguns Anjos, que estavam em pé com cetros de ouro na mão. Mandou o imperador lançar fogo a este palácio, ao templo e a toda a cidade; donde prosseguindo em suas conquistas, entrou na Albânia; aqui, movido de compaixão, deu a liberdade a 50 mil prisioneiros, que levava consigo e em pouco tempo se apoderou de muitas províncias.

Enquanto Heráclio adiantava as suas conquistas por país inimigo, estava Constantinopla cercada pelos Avaros, que tinham rompido a paz e pelos persas que se mantinham na Calcedônia, mas recorrendo os sitiados naquele transe à Santíssima Virgem, foram ouvidas a suas orações. O exército dos bárbaros pereceu, lavrando nele um grande contágio; fatigados por outra parte pelas contínuas sortidas dos sitiados, levantaram o cerco. Vendo o imperador que o Céu se declarava visivelmente em seu favor, marchou no desígnio de encontrar Cosroas, ainda que fosse no centro da Pérsia.

Não tardou a encontrá-lo; a princípio, como que se acovardaram os cristãos, à vista do exército inimigo muito superior em forças; mas Heráclio animou-os levando sempre na mão a imagem de Jesus Cristo: “Eis, filhos, lhes dizia em breves palavras, por Deus combatemos; cada um de vós, vencerá a mil”. Com efeito, os dois exércitos vieram às mãos, Cosroas foi inteiramente desbaratado, todos os seus oficiais prisioneiros, e ele próprio obrigado a salvar-se pela fuga.

Depois de odioso, tornava-se agora, desprezível a seus vassalos; estes abandonaram-no. Seu filho primogênito Siroes, a quem ele tentara deserdar em proveito de seu filho segundo, foi proclamado rei, o qual mandou tirar a vida barbaramente a seu pai dentro da prisão, dispondo que o fizessem morrer às flechadas, durante cinco dias, para que fosse mais cruel e prolongada a sua morte. Pediu depois a paz a Heráclio, deixando a seu arbítrio as condições; a principal, foi a restituição da Cruz do Salvador, que havia 14 anos que estava em poder dos persas dentro de Cresifonte, e que poria em liberdade o Patriarca Zacarias com todos os outros cristãos cativos. Aceitou Siroes todas estas condições; o Sagrado Tesouro foi primeiramente levado a Constantinopla em triunfo, saindo a recebê-lo todo o povo com ramos de oliveira e velas acesas, entoando hinos e cânticos. Saiu do poder dos persas a Cruz do Salvador no ano de 627.

No seguinte, embarcou o imperador Heráclio para a transportar a Jerusalém e dar graças a Deus por suas vitórias. Facilmente se pode imaginar o regozijo e a concorrência dos fiéis, quando viram voltar a Jerusalém aquele Sagrado Madeiro, Trono adorável das misericórdias do Salvador do mundo. Concorreram à Cidade Santa, de toda a parte. Quis o mesmo imperador levar até ao Calvário aquele Sagrado peso, vestido das mais ricas e vistosas galas imperiais. Precedido do Clero, acompanhado do Patriarca, rodeado dos grandes do império, e entre as alas de uma imensa multidão de povo carregou sobre os seus ombros a Sagrada Cruz; mas ao chegar à porta que olha para o Calvário, ficou estranhamente atônito ao sentir-se imobilizado; e vendo que não podia dar um passo, assombraram-se todos diante daquele prodígio, mas o Patriarca descobriu logo a causa.

Considerai, Senhor, lhe disse respeitosamente, que talvez essa púrpura imperial e essas vistosas galas que vos adornam, sejam menos conformes ao pobre e abatido traje, com que Jesus Cristo levou essa mesma Cruz, e saiu por esta mesma porta para subir ao Monte Calvário”. Penetrou logo o imperador o alcance destas palavras, e movido por elas, se despojou das vestes imperiais, descalçou os pés, e coberto de humilde túnica, com a cabeça descoberta e despojado de toda a insígnia imperial, caminhou sem dificuldade até ao Calvário, colocou em seu lugar o Sagrado Madeiro, e rogou ao Patriarca que, tirando-O do estojo, O mostrassem a todo o povo. O Patriarca reconheceu que os selos estavam intactos e inteiros; abriu o estojo de prata com a chave, que se achava no Tesouro, e tendo-A adorado, deu com Ela a bênção aos fiéis; depois tornou a fechá-La e a colocou no mesmo lugar, onde catorze anos antes estivera.

Quis Deus exaltar a glória deste precioso instrumento da nossa Redenção com pompa tão augusta, acompanhando-a de muitos milagres no dia 14 de Setembro de 629. Ofereceu ainda à igreja de Jerusalém, o imperador, dons preciosíssimos: reparou os Santos Lugares; restituiu às suas dignidades o Patriarca e outros Ministros da Igreja, deixando por toda a parte ilustres monumentos da sua insigne piedade.

Ordenou-se que todos os anos se celebrasse uma solene festa em memória desta gloriosa restituição, a qual foi muito célebre, com especialidade no Oriente, e neste dia concorriam peregrinos a Jerusalém de toda a parte do mundo. Mas deve advertir-se que muito tempo antes deste sucesso, quer na igreja grega, quer na latina, já se celebrava uma festa com o nome de “Exaltação da Santa Cruz” no mesmo dia 14 de Setembro, que era para comemorar aquelas palavras de Cristo, falando de Sua morte: Quando eu for exaltado da terra, atrairei a mim todas as coisas: Logo que tiverdes levantado o Filho do homem, conhecereis quem eu sou.1 O Cardeal Barônio diz que foi exaltada a Cruz no tempo de Constantino Magno, quando se deu liberdade aos cristãos de pregar o Evangelho e de edificarem igrejas públicas. Também se chamou Exaltação da Santa Cruz aquela solenidade, que com tanta magnificência e tanto aparato se celebrou em Jerusalém, quando Santa Helena encontrou o verdadeiro Lenho da nossa Redenção, e O mandou colocar na magnífica igreja que à sua custa se edificou no Calvário, celebrando desde então a igreja grega e latina uma solene festa no dia 14 de Setembro com o título de Exaltação da Santa Cruz. Faz menção dela o Sacramentário de São Gregório; e Canísio cita as palavras com que a anuncia o Menológio dos gregos: Exaltatio pretiosae et vivificae crucis sub imperatore Constantino Magno: a exaltação da preciosa e vivífica Cruz em tempo de Constantino Magno. O autor da vida de Santo Eutiques, Patriarca de Constantinopla, que foi seu contemporâneo, refere que muito tempo antes do imperador Heráclio, voltando o Santo Patriarca do seu desterro por ordem dos imperadores Justino e Tibério, passou por um Mosteiro, onde no dia 14 de Setembro se celebrou com grande solenidade a festa da Exaltação da Santa Cruz. Leôncio, Bispo de Nápoles na ilha de Chipre, escrevendo a vida de São Simeão, por sobrenome Salus, fala da festa da Exaltação da Santa Cruz, a qual era celebrada com grande solenidade e muito concurso dos fiéis, como estabelecida de há muito antes de Heráclio.

Assim pois, parece muito provável, que o imperador Heráclio escolheu o dia 14 de Setembro, para restituir a Cruz ao mesmo lugar, donde catorze anos antes a haviam tirado os persas, como dia já consagrado há muito para a Exaltação da Santa Cruz; e que pela devoção e grande confiança que sempre teve nela o grande Constantino, se determinaram os mesmos Pontífices a instituir esta Festa.


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Fonte: Pe. Croiset, S.J., “Ano Cristão”, Vol. IX, pp. 173-177, 14 de Setembro, Festa da Exaltação da Santa Cruz; Tradução do Francês pelo Pe. Matos Soares, Porto, 1923.

1.  Jo. 12, 32.


domingo, 10 de setembro de 2023

O SANTÍSSIMO NOME DA VIRGEM MARIA.


FESTA DO SANTÍSSIMO NOME DE MARIA1

Como era costume entre os judeus, oito dias depois da Virgem Santíssima nascer, os seus pais deram-Lhe, inspirados por Deus, o Nome de Maria. A Liturgia, que celebra o Santíssimo Nome de Jesus poucos dias depois do Natal, instituiu esta festa ao Santo Nome de Maria dentro da Oitava da Natividade. A Espanha, por aprovação do Romano Pontífice, concedida em 1513, foi a primeira a celebrar esta festa. Inocêncio XI, em 1683, estendeu-a à Igreja Universal, em ação de graças pela vitória alcançada por João Sobieski, rei da Polônia, sobre os turcos que tinham cercado Viena e ameaçavam o Ocidente. O nome Maria, que é hebreu, quer dizer em português, Senhora Soberana. E a Senhora é realmente Soberana, em virtude da soberania que Lhe foi conferida pelo Filho, Rei e Soberano do Universo. Chamemos a Maria, Nossa Senhora, pelo mesmo título que chamamos a Jesus Nosso Senhor. Pronunciar o Seu nome é afirmar o seu domínio, implorar o seu auxílio e colocarmo-nos debaixo da sua proteção maternal.

Curva-se-ão diante de Ti os mais ricos do povo. As virgens serão apresentadas ao Rei depois d’Ela. As suas companheiras ser-te-ão apresentadas com alegria e com júbilo. Saiu do meu coração uma palavra boa: consagrarei ao Rei todo o meu ser”.

Oremos: Concedei, Senhor Onipotente, que, alegrando-nos com a proteção e o Nome da Santíssima Virgem, mereçamos, por sua intercessão maternal, ser livres de todos os males na Terra e alcançar a glória eterna no Céu. Por Nosso Senhor Jesus Cristo… Amém.


NA COLMEIA DA MEDITAÇÃO


Primeira Parte2

1º – Importância do Nome. É um dos primeiros atos que se realiza quando nasce uma criança, o dar-lhe um nome. – Todos lembram com carinho a festa do seu nome e costuma celebrar-se com solenidade semelhante, e por vezes ainda maior, do que a do dia do aniversário natalício. É uma das festas de família em que ao celebrar-se o Santo do nome do pai ou da mãe, se manifestam mais as suavíssimas expansões e alegrias profundas dos filhos.

Recorda estas festas e as que com motivo do Santo do teu próprio nome terás celebrado…; felicitações, obséquios, presentes, visitas… etc., tudo isto é próprio deste dia. – Pois bem, hoje meditemos a Festa do Nome de Maria… a Festa do dia do Santo da Santíssima Virgem… Grande dia, grande festa deve ser para os seus devotos, para seus filhos amados!

Pensa, além disso, que a importância do nome depende da conformidade com a pessoa, isto é, que quanto melhor a representar, mais adequado será aquele nome. – No mundo muitas vezes dão-se os nomes por capricho dos pais, por lembranças de família… nunca se atende a que seja digno e represente adequadamente a pessoa. – Porém, em Maria não foi assim. – Não era conveniente que se Lhe impusesse qualquer nome, senão um que reunisse todas as graças e maravilhas que Deus havia encerrado n’Ela. Por isso, ninguém podia dar-Lhe um nome completo e adequado senão o próprio Deus… E esse Nome é Maria!

2º – Grandeza deste Nome. Já se compreende qual será esta grandeza se o próprio Deus é o Autor dele. – Tanto mais, que Deus nos deu n’Ele como que um resumo do que é a Santíssima Virgem. Quando o Senhor escolhia a alguém para alguma coisa de extraordinário, o que primeiro fazia era mudar-lhe o nome, para que esse novo nome que Ele lhe dava correspondesse ao altíssimo fim a que destinava essa pessoa. – Assim mudou o nome de Abraão…, impôs o nome de Isaac… por meio de um Anjo, indica a Zacarias como se chamará o Precursor e lhe diz que será João…

O mesmo Jesus Cristo ao fundar a Igreja e ao eleger entre os Apóstolos o que será sua cabeça e fundamento, Simão, também lhe muda o nome e lhe chama Pedro. – Agora pergunta a ti mesmo, que vale a dignidade e importância do ofício confiado a Abraão, a Isaac, ao Batista e a São Pedro, em comparação com a dignidade e com o destino de Maria? – Quem pode, pois, dar-Lhe um nome digno dessa grandeza senão o próprio Deus?

Nós podemos chamar-nos de muitas maneiras, e como agora por vontade de nossos pais temos este nome atual, podíamos ter outro muito diferente. – Porém, com a Santíssima Virgem não foi assim…, chamou-A Maria e não pode ter outro nome, porque o próprio Deus não encontrou outro modo melhor de A chamar. – Vê, pois, que magnífico, que sublime não é este Santíssimo e Dulcíssimo Nome!

Em certo modo pode dizer-se, que vale tanto quanto a própria Santíssima Virgem, pois que, a Ela representa. – Por isso, o Evangelho que tão poucas palavras diz da vida de Maria, não omite este pormenor de tanta importância e expressamente diz: “e o nome da Virgem era Maria”.3 Assim, afirma São Pedro Damião, “que o nome de Maria foi tirado desde toda a eternidade dos tesouros da própria Divindade, quando no Céu foi decretada a Redenção mediante a Encarnação do Verbo”.

3º – Utilidade deste Nome. Tira, pois, por conclusão, como devemos respeitar e venerar este Santíssimo Nome e como depois do Nome de Jesus, não há outro nome nem mais Santo, nem mais doce, nem mais útil para nós, que o Nome de Maria.

Se o Nome de Jesus é santificador, também o Nome de Maria nos santifica, se soubermos pronunciá-Lo com o respeito e amor que merece.

E aqui está por que depois do Nome de Deus e do de Jesus, o Nome de Maria é o mais popular de todos. – As Mães ensinam-No a seus filhos…, os doentes e atribulados assim A chamam; os moribundos, deste modo A invocam… Quantas igrejas, quantas ermidas levantadas em todo o mundo em honra do nome de Maria!… Quantos pecadores convertidos só com esta invocação!… Quantos milagres realizados com a invocação do Nome de Maria!

Nada há mais doce às almas santas, nem mais proveitoso às pecadoras, do que juntar estes dois Nomes benditos de Jesus e Maria e pronunciá-Los e invocá-Los muito constantemente, para acostumar-se a tirar deles a imensa utilidade que a sua frequente repetição traz às almas.

Tu fazes assim? Procuras estudar a importância e a grandeza divina deste Santíssimo Nome? – O pronuncias muitas vezes com verdadeiro fervor, especialmente nas tentações, dificuldades, contrariedades e desgostos da vida? – Procuras, sobretudo, tê-Lo bem gravado no fundo do teu coração?…



Segunda Parte4

Se este Nome não nos pode ser indiferente, antes deve interessar-nos muito saber conhecê-Lo e pronunciá-Lo com fervor, é muito importante que nos detenhamos a examinar e a meditar o que ele significa. – É difícil acertar com o seu verdadeiro significado… Dão-se mais de trezentas significações dele, e foi providência do Senhor que significasse muitas coisas e todas muito boas, para dar-nos a entender que na Santíssima Virgem se reúnem todas as excelências e perfeições. – De todas estas interpretações vejamos as mais prováveis, que são as seguintes:

1º Formosa. Melhor ainda, “a Formosura”, por excelência, como se quisesse significar que só Ela é “a formosura”, e que qualquer outra fora d’Ela não existe senão na aparência. – “Formosa como a lua”, canta a Igreja; porque assim como nas trevas da noite, onde tudo é feio e triste, aparece a luz plácida, serena e bela da lua, realçando no meio das trevas e brilhando mais que todas as estrelas juntas… assim Maria destaca-Se e eleva-Se pela Sua branca formosura e comunica-a a todos os que d’Ela querem participar.

A Igreja também a chama – Tota Pulchra. – Toda formosa, pois que n’Ela não há nada que não seja formoso: seu Corpo, sua Alma, seus Olhos, seus Sentidos, seu Coração… tudo; porque n’Ela não há nada feio, ou manchado com alguma coisa que embacie essa formosura. Pensa no que o mundo chama formoso e convencer-te-ás de que ele nem sequer conhece a sombra do que é a formosura. A uma beleza corporal, muitas vezes artificial, sempre aparente, pois apenas é uma coisa exterior e nada mais… a isso chama ele formosura…; com essa formosura se contenta…; não conhece outra. Ao contrário, olha para Maria e a todo o momento a verás formosíssima, e Toda Formosa. Que bem quadra este Nome a Maria, se o significado de Maria é este!

2º Senhora e Dominadora. E é de fato verdadeira Senhora. – Nunca foi escrava, nem serva do Demônio… do pecado… das paixões… Escrava só do Senhor…; e por isso mesmo Rainha e Senhora. – O povo cristão assim o entende e por isso A chama Nossa Senhora.

Recorda como é Senhora dos Anjos, que se gloriam de poder servi-La. – Eles, foram muitas vezes seus servos; na Anunciação, na Fugida para o Egito, na Gruta de Belém… no mesmo Calvário, Anjos de dor foram a ampará-La e a chorar com Ela. – É Dominadora dos próprios Demônios que A temem, só com ouvir-lhe o Nome. – A este Santo Nome ajoelham os Céus, a terra e os abismos. – O Demônio teme a Senhora, ainda mais do que a Jesus, pois, assim quis Deus para que a humilhação fosse maior e mais admirável o triunfo de Maria.

E, finalmente, Senhora dos homens. Mas, Senhora e Rainha de Misericórdia. – Jesus dividiu o seus Reino e o seu Cetro, e ficando Ele com a Justiça, como Juiz que é dos vivos e dos mortos, deu a Maria o poder da Misericórdia. – A sua grandeza e majestade não ofende, não aterra; pelo contrário, arrasta amorosamente, mas com força, ainda que seja muito suave esta força. – Vê se não sentes em ti isto mesmo ao prostrar-te aos pés desta grande Senhora. Por isso, é Rainha e Senhora dos corações. – Ninguém, senão Ela, tem direito a mandar nos nossos corações.

Examina se é Ela que realmente manda e dispõe, como Senhora absoluta do teu coração.

3º Mar e Estrela do Mar. O mar é o conjunto de todas as águas da terra e do Céu, que caiem por meio da chuva e a ele vão parar.

Assim, diz o Gênesis, que ao criar Deus a terra, reuniu todas as águas num ponto e chamou-as Mar. – Do mesmo modo sucedeu com Maria; todas as graças que o Senhor repartiu pelas criaturas, Anjos e homens, reuniu-as em Maria – e por isso, é o mar de graças onde se encontram todas as que queiramos buscar.

Do mar se levantam as nuvens, que logo caiem em forma de chuva a fecundar a terra; assim derrama Maria do Oceano imenso das Suas graças, as que fazem frutificar as almas em virtude e santidade. As águas do mar são amargas como foram amargas as penas do Coração de Maria, verdadeiro mar de amarguras, pois sofreu mais do que todos os corações juntos, na Paixão de seu Filho. – Por isso, se chama a Rainha dos Mártires, por ter padecido mais que todos eles.

Finalmente, é Estrela do Mar, porque é a Luz que guia os navegantes deste mar do mundo…, do mar das paixões, que é no que mais facilmente podemos naufragar…, no qual navegamos geralmente às escuras, pois que a todo o instante nos cega o amor-próprio e a força da paixão dominante. – Ela é a Estrela que está no alto, para que sempre a possamos ver…, para que a possamos encontrar sempre. – Por isso, A colocou Deus tão alto, para que de qualquer parte A vejamos; mas também por isso mesmo, não A podemos ver sem levantarmos os olhos…, quanto mais os abaixares para veres as coisas da terra menos A encontrarás. – Vês como fica bem à Virgem Santíssima este Nome em todos e em cada um destes significados! – Compreendes, portanto, porque só a Ela convêm Nome tão excelso? – Trabalha por imitá-La e tê-La sempre presente, repetindo sem cessar este dulcíssimo Nome, como se gosta de repetir o nome de uma pessoa que se ama.


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1.  Missal Quotidiano e Vesperal, por Dom Gaspar Lefebvre, beneditino da Abadia de São André, Sinopse e Intróito da Missa do Santíssimo Nome de Maria (12 de Setembro), p. 1599. Desclée de Brouwer & CIE, Bruges (Bélgica). 1952. Cfr. Sl. 44, 13.15-16.

2.  Dr. D. Ildefonso Rodriguez Villar, “Pontos de Meditação sobre a Vida de Nossa Senhora”, 13ª Meditação, pp. 61-64. Tradução da 5ª edição, revista pelo Pe. Manuel Versos Figueiredo, S.J., Livraria Figueirinhas, Porto, 1948.

3.  Luc. 1, 27.

4.  Dr. D. Ildefonso Rodriguez Villar, ob. cit., 14ª Meditação, pp. 65-69.


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