BLOG CATÓLICO PARA OS CATÓLICOS.

BLOG CATÓLICO, PARA OS CATÓLICOS.

"Uma vez que, como todos os fiéis, são encarregados por Deus do apostolado em virtude do Batismo e da Confirmação, os leigos têm a OBRIGAÇÃO e o DIREITO, individualmente ou agrupados em associações, de trabalhar para que a mensagem divina da salvação seja conhecida e recebida por todos os homens e por toda a terra; esta obrigação é ainda mais presente se levarmos em conta que é somente através deles que os homens podem ouvir o Evangelho e conhecer a Cristo. Nas comunidades eclesiais, a ação deles é tão necessária que, sem ela, o apostolado dos pastores não pode, o mais das vezes, obter seu pleno efeito" (S.S. o Papa Pio XII, Discurso de 20 de fevereiro de 1946: citado por João Paulo II, CL 9; cfr. Catecismo da Igreja Católica, n. 900).

sexta-feira, 27 de maio de 2022

NOVENA EM HONRA DO DIVINO ESPÍRITO SANTO. 1º DIA.


(Segundo os escritos de Santo Afonso M. de Ligório)1

*Começa no dia seguinte ao da Ascensão do Senhor.


Se Me amais, observai os Meus Mandamentos.2 E Eu rogarei ao Pai, e Ele Vos dará um outro Consolador, para que fique eternamente convosco, o Espírito da verdade, a quem o mundo não pode receber, porque não O vê, nem O conhece; mas vós O conhecereis, porque habitará convosco, e estará em vós”.3


Introdução

Entre todas as Novenas, a do Espírito Santo tem o primeiro lugar, porque foi celebrada pelos Apóstolos e a Santíssima Virgem no Cenáculo, e enriqueceu os fiéis com os mais preciosos dons, sobretudo, o mesmo dom do Espírito Santo, que Jesus Cristo nos mereceu pela Sua Paixão. Isto nos quis ensinar o nosso Salvador, quando disse aos Seus discípulos que, se Ele não morresse, não poderia nos enviar o Espírito Santo.4 De outro lado, sabemos pela fé, que o Espírito Santo é o amor que Deus Pai e o Verbo Eterno se consagram mutuamente; esta é a razão pela qual o dom de amor, que o Senhor concede às nossas almas, é o maior de todos os dons, e de modo especial atribuído ao Espírito Santo, conforme ao que diz o Apóstolo: O amor de Deus foi espalhado nas nossas almas pelo Espírito Santo, que nos foi dado.5 Convém, pois, que nesta Novena consideremos principalmente o grande preço do amor divino, a fim de concebermos vivo desejo Dele, e nos esforcemos para obtê-lO por piedosos exercícios, e sobretudo, fervorosas orações, pois que Deus O prometeu a quem pede com humildade: Vosso Pai Celeste dará o Bom Espírito a quem Lho pede.6

Sê, portanto, grande devoto do Divino Espírito Santo e zela pela Sua honra, para alcançares em abundância as Suas graças. O Espírito Santo remunera excessivamente o que se faz pela Sua honra. Quem Me glorifica – confessa Ele de Si próprio – terá a vida eterna”.7

A Mim, a Fonte das águas-vivas, deixaram, e cavaram cisternas, cisternas fendidas, que não contém água”.8

Todo aquele que verdadeiramente e a fundo conhece a Religião Católica; quem pratica e vive penetrado do genuíno culto Católico, tal como a Santa Mãe Igreja no-lo ensina e exemplifica; quem, no seio desta carinhosa Mãe, procura realmente santificar-se, usando das graças, sem conta, que nos são dispensadas, e sobretudo dos Santos Sacramentos, fontes inesgotáveis de graças, de bênçãos, de força, de luz e calor; e quem, finalmente, procura viver esta vida divinizada, pela nossa filiação divina, – esse não procurará, com certeza, as águas turvas de doutrinas ou Seitas que estão em oposição à Igreja Católica, essa que é a Única fundada por Jesus Cristo e governada pelo Divino Espírito Santo.

Pecado mais grave contra o Espírito Santo não pode haver, do que desprezá-lO. Despreza, de fato, o Divino Espírito Santo, quem despreza a Igreja Católica, nossa Mãe desvelada, seu Magistério e Decisões, porquanto, o que Ela manda ou proíbe, o faz como Órgão do Espírito Santo.

Preservai-nos, ó Espírito Santo, da maior desgraça deste mundo e do outro: a perda da única verdadeira Fé! E que o Divino Consolador, não nos possa dirigir também a nós, qual uma condenação, estas palavras: “A Mim, a Fonte das águas vivas, deixastes, … e cavastes cisternas, cisternas fendidas que não contém água!…”.

“… o Príncipe deste mundo já está julgado”.9

Nosso Senhor numa visão à Venerável Irmã Myriam de Jesus crucificado,10 carmelita árabe, revelou-lhe que:

O mundo e as Congregações Religiosas procuram novas devoções e desprezam a verdadeira veneração do Consolador. Por isso, existe tanto erro, tantas discórdias, e tão pouca luz e paz. Todo aquele que, no mundo ou no claustro, invoca o Espírito Santo e O venera, não morrerá em erro. Cada Sacerdote, que pregar esta devoção, por ela será iluminado.

Quem invoca o Espírito Santo, Me procura e Me achará. A sua consciência tornar-se-á delicada como a flor do campo. Se for um pai ou uma mãe, reinará a paz nas famílias e seu coração ficará em paz neste mundo e no outro. Não morrerá nas trevas, mas em paz…”.


Como devemos esperar,

a Segunda vinda do Espírito Santo.

Viver despojado das preocupações temporais, sem pensar em outra coisa que não seja as coisas celestiais, e em unir-se com o Céu e a terra, e descer com todas as almas boas. Uni-vos com a Rainha dos Anjos, dos Arcanjos, dos Tronos, das Dominações e dos Espíritos Bem-aventurados, como se fosse uma criança. Não penseis mais, nem nos parentes, nem nas pessoas; não penseis em nada; que seja, como se nesta terra não houvesse nada.

Assim estareis esperando a vinda do Espírito, que vos inflamará e vos comunicará o que ardentemente desejais”.11

Orações Iniciais para Todos os Dias

V. Pelo sinal da Santa Cruz, livrai-nos, Deus Nosso Senhor, dos nossos inimigos.

R. Em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo. Amém.12

V. Vinde, ó Deus, em meu auxílio.

R. Senhor, apressai-Vos em me socorrer.

V. Glória ao Pai, e ao Filho, e ao Espírito Santo.13

R. Assim como era no princípio, agora e sempre, e por todos os séculos dos séculos. Amém.

Súplica ao Divino Espírito Santo

V. Vinde, Espírito Santo, encheis os corações dos vossos fiéis; e acendei neles o fogo do vosso amor.14

V. Enviai o vosso Espírito e tudo será criado.

R. E renovareis a face da terra.

Oremos: Ó Deus, que instruístes os corações dos vossos fiéis com a luz do Espírito Santo, concedei-nos que pelo mesmo Espírito conheçamos tudo o que é reto, e gozemos sempre as suas consolações. Por Cristo, Nosso Senhor. Amém.


PRIMEIRO DIA


O Amor é um fogo que abrasa15


Sequência: Veni Sancte Spiritus


Vinde, Espírito Santo, e mandai do Céu um raio de vossa clara luz.

Vinde, Pai dos pobres, vinde Distribuidor dos bens, vinde Luz dos corações.

Consolador ótimo, doce Hóspede e suave Alegria das almas.

Vinde, aliviar-lhes os trabalhos, temperar-lhes os ardores, enxugar-lhes as lágrimas.

Ó Luz beatíssima, enchei o íntimo dos corações dos vossos fiéis.

Sem a vossa graça, tudo no homem é vazio; tudo é nocivo.

Lavai o que em nós é sórdido; irrigai o que é árido; sarai o que está ferido; abrandai o que é duro; aquecei o que é frio; reconduzi o desviado.

Concedei aos vossos servos, que em Vós confiam, os vossos sete dons.

Dai-lhes o mérito da virtude; o dom da graça final, e o prêmio glorioso dos prazeres eternos. Amém.

Vinde, Espírito Santo, enchei os corações dos vossos fiéis e acendei neles o fogo do vosso amor, Vós que reunistes os povos de todas as línguas na Unidade da Fé.

Meditação

Deus ordenou na Antiga Lei que o fogo ardesse continuamente no seu altar.16 São Gregório diz que os altares de Deus são os nossos corações, onde Ele quer que o fogo do seu Santo Amor arda sem cessar. Também, não satisfeito de nos ter dado Jesus Cristo, o seu Filho único, para nos salvar pela sua morte, o Eterno Pai quis ainda nos dar o Espírito Santo, para que habitasse nas nossas almas e as conservasse continuamente abrasadas de amor.

O nosso próprio Salvador declarou que descera à terra para inflamar com este fogo sagrado os nossos corações, e que o seu único desejo era vê-lo acesso.17 Eis aqui porque, esquecendo as injúrias e ingratidões dos homens, logo que subiu ao Céu, nos enviou o Espírito Santo. Assim, ó Redentor amantíssimo, na vossa glória, como nos vossos sofrimentos e humilhações, nos amais sempre. O Espírito Santo quis aparecer no Cenáculo sob a forma de línguas de fogo, símbolo do amor divino.18 Daqui esta oração da Santa Igreja: “Ó Senhor, fazei que o vosso Divino Espírito nos inflame com o fogo que Jesus Cristo veio trazer sobre a terra, e que desejou tão ardentemente ver brilhar nela”.

Os Santos ardiam nas santas chamas deste fogo, quando operavam coisas tão grandes para a glória de Deus, amavam os seus inimigos, desejam os opróbrios, despojavam-se de todos os bens terrenos, sofriam até com alegria os tormentos e a morte. O amor não é ocioso; ele não diz jamais: Basta. Quanto mais a alma que ama a Deus, faz pelo seu Amado, mais quer fazer ainda, para mais lhe agradar e ganhar mais e mais a sua afeição. Este fogo divino se acende na oração mental. Se então desejamos arder em amor para com Deus, amemos a oração; ela é a feliz fornalha em que o coração se abrasa neste ardor celeste.



Afetos e Súplicas

Meu Deus, até aqui nada fiz por Vós, que tão grandes coisas haveis feito por mim. Ah! Quanto a minha frieza Vos deve mover a rejeitar-me! Peço-Vos, ó Espírito Santo, santificai-me. Aquecei o meu coração gelado,19 e inflamai-me com o desejo de Vos agradar. Renuncio todas as minhas satisfações, e antes quero morrer do que Vos dar ainda o menor desgosto. Vós Vos dignastes de aparecer sob a forma de línguas de fogo; consagro-Vos a minha língua, para que não Vos ofenda mais. Esta língua me destes, ó Deus meu, para Vos louvar, e dela me tenho servido para Vos ultrajar, e levar os outros também a Vos ofender! Arrependo-me de toda a minha alma. Ah! Pelo amor de Jesus Cristo, que na sua vida Vos honrou tanto pela sua língua, fazei que de agora em diante não cesse de Vos honrar, celebrando os vossos louvores, invocando-Vos muitas vezes, falando da vossa bondade e do amor que mereceis. Amo-Vos, meu Soberano Bem, amo-Vos, ó Deus de amor! Ó Maria, queridíssima Esposa do Espírito Santo, obtende-me este fogo divino. Assim seja.


O Dedo de Deus está aqui20

A Prodigiosa Menina Teresinha de Jesus21

“Pareceu-me oportuno dar aqui ao leitor22 alguma sumária notícia das crescidas virtudes desta prodigiosa menina.23 Nasceu, a 6 de Outubro de 1622, na cidade de Sanlúcar de Barrameda (Cádis-Andaluzia-Espanha), situada onde o rio Quadalquivir deságua no Oceano (Atlântico). Foi filha de Francisco Henriques, piloto, e de sua mulher Maria Urbina. Consagrou as primícias da sua língua, pronunciando distintamente:24 Padre, Filho e Espírito Santo, três Pessoas realmente distintas, e um só Deus verdadeiro; tinha então 21 meses, e o rosto lhe resplandecia. Pouco depois de cumprir dois anos, querendo-lhe mudar o nome no de Maria, repugnou, dizendo que não merecia nome tão soberano. Nesta mesma idade tomou um livro espiritual e leu com devoção e destreza, posta de joelhos, sem a terem ensinado. Aos vinte e dois meses, pediu o Hábito das Descalças Mercenárias, e lho deu publicamente na igreja o Padre Fr. Francisco da Cruz, fazendo-lhe primeiro uma prática espiritual. Desde então, guardou a Regra, quanto em si era e lhe permitiam: dormia sobre tábuas nuas, com um ladrilho por cabeceira, cortava o cabelo, usava de sacos, fazia Oração Mental duas horas por dia, ou prostrada ou de joelhos. Às Sextas-feiras, disciplina inviolavelmente; jejum além das Sextas-feiras, também aos Sábados, e todas as Vésperas de Nossa Senhora, e dos Santos seus advogados. Apertava na cabeça uma coroa de espinhos; observava grande modéstia e composição nas ações; não consentia afagos nem abraços, ainda de seus irmãos e pais; a estes chamava irmãozinhos; só para Deus e Maria Santíssima Senhora nossa, guardava os nomes de pai e mãe.25 Tinha consigo, na sua pobre cama, uma imagem de talha do Menino Jesus. Entrando na igreja, prostrava-se, adorando o Santíssimo; e, tomando da Água Benta, dirigia-se diretamente para o Altar-mor, onde persistia imóvel junto do acólito, ouvindo duas a três Missas de joelhos, com tal atenção que, entrando na igreja uma dança de ciganos, com muitos rapazes que faziam alvoroço, não voltou a cabeça para olhar; ainda, então, apenas passava dos três anos e meio. A um menino, que tremia de frio, disse compassiva: De que lloras, mi alma? Tienes frio? Anda aca a la iglesia, y te aclentarás, que alla me caliento yo.26 A uma pejada (grávida), que temia o parto, disse que pariria a um menino na Sexta-Feira; e tudo se cumpriu assim. Outras muitas coisas profetizou. Na doença de que morreu, sendo-lhe a água proibida pelo médico, e Padre espiritual, ela nem olhava para onde facilmente poderia tomá-la, não obstante que se abrasava de sede. Encontrando na rua a um Sacerdote, que ia com passo acelerado, ajoelhou e pôs as mãos levantadas, dizendo a uma sua irmã e outras meninas, que com ela iam ouvir Missa, que fizessem o mesmo. E, perguntando elas: para que haviam de ajoelhar no meio da rua? Replicou: Não vedes que vai ali o Santíssimo Sacramento? Deram parte do sucedido; chamado o clérigo e perguntado se levava o Santíssimo oculto para algum moribundo? Respondeu que não.27 Porém, que acabando de dizer Missa, saíra com pressa, por urgência de um negócio. Daqui se ficou entendendo, que o Senhor mostrara a Teresa as espécies Eucarísticas que se conservavam ainda no peito daquele Sacerdote. E resultou deste caso, emendarem-se muitos que não davam graças depois de celebrar, e ordenou o duque de Medina Sidônia, D. Manuel Alonso Teles de Gusmão, que não saísse o Viático aos enfermos sem toda a pompa eclesiástica; e ele mesmo o acompanhava sempre, ainda que saísse 10 vezes no dia. Com ser tanta a pureza e discrição desta alma, e a devoção que tinha ao Santíssimo Sacramento, não lhe concederam licença para O receber, nem por Viático, atendendo ao reparo público que podia originar-se desta singularidade, porque ela não passava de 5 anos, 1 mês e 17 dias: breve esfera para tantos giros do sol de suas luminosas virtudes. Porém, assim como há pecadores de cem anos, que morrem meninos, isto é, carentes de virtudes, que são os anos do espírito, conforme aquilo de Isaías: Puer centum annorum morietur, et peccator centum annorum maledictus erit,28 assim, há meninos que morrem como santos de cem anos, cheios de dons e merecimentos.29 Esta arvorezinha anã carregou de frutos temporãos; colheu-os o Senhor dela, porque eram do seu gosto, como se dissesse pelo seu Profeta: Praecoquas ficus desideravit anima mea”.30

*******

“… Não posso esquecer de mais um outro exemplo, verdadeiramente admirável, tão notório e moderno, que se mostrou publicamente em Nápoles no ano de 1670. Passara neste ano, da mortal à eterna vida, a ínclita e Venerável Virgem e Doutora, a Madre Maria Villani,31 religiosa dominicana, cujo coração, rompeu Cristo com uma ardente lança da sua Caridade, e lhe chamou de bolsa do Amor Divino. Pareceu conveniente às Religiosas, abrir o peito ao cadáver, e tirar fora o coração para examinar se conservava algum sinal da ferida, que teve patente durante tantos anos e que se fechou milagrosamente depois, como na sua vida se refere. Chamaram para a dita operação, destros cirurgiões, os quais abrindo com seus instrumentos o peito, saiu tanta fumaça de dentro, e foi tanto o calor que exalou do coração, que lhes foi necessário afastarem-se do corpo por grande distância (haviam passado 24 horas depois de falecida, quando esta operação se executava), e tornando depois a chegar-se para prosseguir a sua obra, um deles meteu a mão para arrancar o coração de seu lugar, porém, o achou tão quente e como em brasa, que lhe foi preciso tirá-la fora muitas vezes, como quem se escaldava. Conseguiu, finalmente, o seu intento, tirou fora o coração e dali a algum tempo, se viu manar não só da abertura do peito, senão também do mesmo coração, sangue fresco, fluído e claro, o qual até o presente se conserva líquido e incorrupto em duas redomas cristalinas. No ano de 1691, aos 23 de Novembro, escreveu o Bispo de Puzol ao cronista desta serva de Deus, que sendo levado este sangue a alguns enfermos, foi visto ferver como vivo e tão fortemente que saía fora do vaso. No coração da Santa foi vista a tal ferida da lançada do Amor Divino, de que deu testemunho o dito Bispo, que o teve nas suas mãos e observou que os lábios da ferida estavam clareados, da mesma maneira que nos cautérios deixa o seu rastro o ferro em brasa. Bendito seja o Autor da graça, Jesus Cristo, que dos tesouros inexauríveis de sua Bondade, de seu Poder e de sua Sabedoria, sempre está tirando novos e maravilhosos exemplos, que ilustrem, enobreçam e afervorem a sua Igreja”.32



Senhor, luz e mais luz,

enviai a vossa Luz,

dissipai as minhas trevas,

abri os meus olhos;

porque sem sermos esclarecidos,

não podemos evitar os precipícios

e nem achar a Deus”.


Doçura dos que começam a Vos servir, tende piedade de nós. (3x)



Ladainha do Divino Espírito Santo33


Senhor, tende piedade de nós.

Jesus Cristo, tende piedade de nós.

Senhor, tende piedade de nós.


Divino Espírito Santo, ouvi-nos.

Espírito Paráclito, atendei-nos.


Deus, Pai dos Céus, tende piedade de nós.

Deus Filho, Redentor do mundo, tende piedade de nós.

Deus, Espírito Santo, tende piedade de nós.

Santíssima Trindade, que sois um só Deus, tende piedade de nós.


Espírito da verdade, tende piedade de nós.

Espírito da sabedoria, tende piedade de nós.

Espírito da inteligência, tende piedade de nós.

Espírito da fortaleza, tende piedade de nós.

Espírito da piedade, tende piedade de nós.

Espírito do Bom Conselho, tende piedade de nós.

Espírito da ciência, tende piedade de nós.

Espírito do santo temor, tende piedade de nós.

Espírito da caridade, tende piedade de nós.

Espírito da alegria, tende piedade de nós.

Espírito da paz, tende piedade de nós.

Espírito das virtudes, tende piedade de nós.

Espírito de toda a graça, tende piedade de nós.

Espírito de adoção dos filhos de Deus, tende piedade de nós.

Purificador das nossas almas, tende piedade de nós.

Santificador e Guia da Igreja Católica, tende piedade de nós.

Distribuidor dos dons celestes, tende piedade de nós.

Conhecedor dos pensamentos e das intenções do coração, tende piedade de nós.

Doçura dos que começam a Vos servir, tende piedade de nós.

Coroa dos perfeitos, tende piedade de nós.

Alegria dos Anjos, tende piedade de nós.

Luz dos Patriarcas, tende piedade de nós.

Inspiração dos Profetas, tende piedade de nós.

Palavra e Sabedoria dos Apóstolos, tende piedade de nós.

Vitória dos Mártires, tende piedade de nós.

Ciência dos Confessores, tende piedade de nós.

Pureza das Virgens, tende piedade de nós.

Unção de todos os Santos, tende piedade de nós.


Sede-nos propício, perdoai-nos, Senhor.

Sede-nos propício, atendei-nos, Senhor.


De todo pecado, livrai-nos, Senhor.

De todas as tentações e ciladas do Demônio, livrai-nos, Senhor.

De toda presunção e desesperação, livrai-nos, Senhor.

Do ataque à verdade conhecida, livrai-nos, Senhor.

Da inveja da graça fraterna, livrai-nos, Senhor.

De toda obstinação e impenitência, livrai-nos, Senhor.

De toda negligência e torpor do espírito, livrai-nos, Senhor.

De toda impureza da mente e do corpo, livrai-nos, Senhor.

De todas as heresias e erros, livrai-nos, Senhor.

De todo mau espírito, livrai-nos, Senhor.

Da morte má e eterna, livrai-nos, Senhor.

Pela vossa eterna procedência do Pai e do Filho, livrai-nos, Senhor.

Pela milagrosa conceição do Filho de Deus, livrai-nos, Senhor.

Pela vossa descida sobre Jesus Cristo batizado, livrai-nos, Senhor.

Pela vossa santa aparição na transfiguração do Senhor, livrai-nos, Senhor.

Pela vossa vinda sobre os discípulos do Senhor, livrai-nos, Senhor.

No dia do Juízo, livrai-nos, Senhor.


Ainda que pecadores, nós Vos rogamos, ouvi-nos.

Para que nos perdoeis, nós Vos rogamos, ouvi-nos.

Para que Vos digneis vivificar e santificar todos os membros da Igreja, nós Vos rogamos, ouvi-nos.

Para que Vos digneis conceder-nos o dom da verdadeira piedade, devoção e oração, nós Vos rogamos, ouvi-nos.

Para que Vos digneis inspirar-nos sinceros afetos de misericórdia e de caridade, nós Vos rogamos, ouvi-nos.

Para que Vos digneis criar em nós um espírito novo e um coração puro, nós Vos rogamos, ouvi-nos.

Para que Vos digneis conceder-nos verdadeira paz e tranquilidade do coração, nós Vos rogamos, ouvi-nos.

Para que nos façais dignos e fortes, para suportar as perseguições por amor à justiça, nós Vos rogamos, ouvi-nos.

Para que Vos digneis confirmar-nos em vossa graça, nós Vos rogamos, ouvi-nos.

Para que nos recebais no número dos vossos eleitos, nós Vos rogamos, ouvi-nos.

Para que Vos digneis atender-nos, nós Vos rogamos, ouvi-nos.

Espírito de Deus, nós Vos rogamos, ouvi-nos.


Cordeiro de Deus, que tirais os pecados do mundo, enviai-nos o Espírito Santo.

Cordeiro de Deus, que tirais os pecados do mundo, mandai-nos o Espírito prometido do Pai.

Cordeiro de Deus, que tirais os pecados do mundo, dai-nos o Espírito Bom.


Espírito Santo, ouvi-nos.

Espírito Consolador, atendei-nos.


V. Enviai o vosso Espírito e tudo será criado.

R. E renovareis a face da terra.


Oremos: Ó Deus, que instruístes os corações dos vossos fiéis com a luz do Espírito Santo, concedei-nos que no mesmo Espírito conheçamos o que é reto, e gozemos sempre as Suas consolações. Por Cristo, Nosso Senhor. Amém.


________________________

1.  “As Mais Belas Orações de Santo Afonso de Ligório”, pelo Pe. Saint-Omer, C.SS.R., Parte Quarta, Art. 3, pp. 585-586 (565-581). Imprimé par les Etablissements Casterman, S.A. Tournai/Belgium, 1877.

2.  Sab. 6, 18-20.

3.  Jo. 14, 15-17.

4.  Jo. 16, 7.

5.  Rom. 5, 5.

6.  Luc. 11, 13.

7.  Eclo. 24, 31.

8.  Jer. 2, 12.

9.  Jo. 16, 11.

10.  F. S. S., “O Divino Espírito Santo”, pp. 10-11. Editora Vozes Ltda, Rio de Janeiro, 1936.

11.  Beata Anna Maria Taigi.

12.  Concede-se indulgência parcial ao fiel que faça devotamente o Sinal da Cruz, proferindo as palavras costumeiras: Em nome do Pai e do Filho e do Espírito. Amém. Manual das Indulgências – Normas e Concessões, Concessão 55, p. 65. 2ª Edição, Editora Paulos, São Paulo/SP, 1990.

13.  Indulgência parcial. Manual das Indulgências, ob. cit., Apêndice, p. 78.

14.  Indulgência parcial. Manual das Indulgências, ob. cit., Concessão 62, p. 72.

15.  “As Mais Belas Orações de Santo Afonso de Ligório”, ob. cit., pp. 565-567.

16.  Lev. 6, 12.

17.  Luc. 12, 49.

18.  At. 2, 5.

19.  Veni, Sancte Spiritus.

20.  Êx. 8, 19; 31, 18; Salm. 8, 3; Luc. 11, 20.

21.  Não é a Doutora da Igreja, mas sim, um prodigioso exemplo da Onipotência Divina.

22.  Ven. Pe. Manoel Bernardez, Oratoriano, “Nova Floresta”, Tomo V, Letra “E”, Título II – “Esperança”, Cap. XXI, pp. 22-29. Nova Edição com Preâmbulo de J. Pereira de Sampaio (Bruno), Livraria Lello & Irmão – Editores, Porto, Aillaud & Lellos Ltda, Lisboa, 1949.

23.  Fr. João da Apresentação, no livrinho que compôs da sua vida.

24.  Prov. VIII, 6.

25.  Mat. XXIII, 9.

26.  Salm. XXXVIII, 4.

27.  Cânt. XXIX: En ipse stat post parietem nostrum.

28.  IS. LXV, 20.

29.  Salm. CXIII: Benedixit omnibus, qui timent Dominum; pusillis cum maioribus.

30.  Miq. VII, 1.

31.  Ven. Pe. Manoel Bernardez, Oratoriano, “Luz e Calor”, 2ª Parte, Opúsculo I, Estímulo IX, Ponto 279, pp. 267-268. Nova Edição, Lisboa, 1871.

32.  Cfr. Fr. Antônio Jacinto de Zuaro, Livro 3, da sua vida, cap. últim.

33.  “Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem”, Apêndice, pp. 261-266. 3ª Edição, Editora Vozes Ltda, Petrópolis/RJ, 1946.


quinta-feira, 26 de maio de 2022

SOBRE A ASCENSÃO DO SENHOR.

(Para o dia da mesma Festividade)


Dominus Jesus assumptus est in Coelum,

et sedet a desxteris Dei”.1

Jesus Cristo, nosso Salvador, subiu ao Céu,

e está sentado à direita de seu Eterno Pai.


Ainda, irmãos meus, ainda não acabaram os Mistérios gloriosos para o nosso Divino Salvador, e proveitosos para nós; ainda não terminaram os Seus triunfos com a Sua gloriosa Ressurreição. Depois d’Ele ter vencido o pecado e a morte; depois de ter triunfado dos inimigos que O perseguiram e mataram; depois, finalmente, de se ter revestido daquela glória que Lhe era própria, era necessário que com a mesma Carne gloriosa subisse triunfante ao Céu, para colocar lá a nossa humanidade, preparar-nos o lugar, e encher-nos de esperanças. Era isto o que restava, e o que hoje se representa a nossos olhos. Nosso Senhor Jesus Cristo, diz o Evangelho, subiu ao Céu, e está sentado à direita de Deus, seu Eterno Pai – Dominus Jesus assumptus est in Coelum, et sedet a dexteris Dei.

Ah! E que que glória para Ele, e que alegria e felicidade para nós? Seu Eterno Pai O premei-a como Redentor de todo o gênero humano; o Céu se alegra, vendo entrar neste dia o Rei da Glória acompanhado de tantas almas justas, que no Limbo estavam; e a Santa Igreja na terra, bem longe de entristecer-Se com a ausência do Seu amado Esposo, exulta de prazer, vendo que Ele sobe com a nossa natureza, indo colocá-la no trono da Trindade Santíssima, para nos encher de esperanças, abrir-nos caminho para o Céu, e fazer-nos eternamente felizes. Pelo que diz o grande São Leão Papa, que os Apóstolos e mais Discípulos do Senhor de tal modo foram cheios de ânimo pela Sua Ascensão, que em lugar de se entristecerem, antes, muito se alegraram. E na verdade não é digno de menos, um Mistério de tanta ponderação, um objeto tão raro, tão maravilhoso. E é isto o que eu hoje vou mostrar-vos. – Eu principio.

Por quarenta dias falou Deus com o seu servo Moisés no cume do Monte Sinai, instruindo-o sobre a Lei, pela qual se devia governar o seu povo. E pelo mesmo tempo se demorou sobre a terra Jesus Cristo depois da Sua Ressurreição com os Seus Discípulos, aparecendo-lhes muitas vezes, não só para lhes mostrar a Sua mesma Ressurreição, mas também para os instruir em algumas coisas que convinham. Mas passados esses quarenta dias depois da Sua Ressurreição, no último dia, como o de hoje, tendo-se reunido os Apóstolos com um grande número de fiéis no Monte das Oliveiras, o mesmo Senhor lhes aparece pela última vez num estado tão visível, que ninguém O podia negar ou duvidar. Depois de lhes ter falado pela Sua Divina boca, depois de lhes ter recomendado várias coisas, principalmente que não se retirassem de Jerusalém até receberem o Espírito Santo, vendo-os todos claramente à hora do meio-dia, começou pelo Seu infinito poder a subir da terra para o Céu.2 Mas no momento antes de começar a subir, diz São Lucas, que Ele cheio de amor para com aquelas almas que ali estavam, lhes lançou a Sua bênção, como quem se despedia, e lhes deixava este sinal de amizade de Bom Pai. Começou logo a elevar-Se ao Céu. E depois uma brilhante nuvem O escondeu aos olhos daquelas almas fiéis.

Subiu pois na verdade o nosso Divino Salvador neste dia ao Céu, levantou com a Sua Divindade a nossa natureza ou humanidade, e ao mesmo tempo tantas almas santas, que no Limbo estavam. Mas à entrada das portas do Céu, logo estas se abriram, e todos os Coros Angélicos saíram ao encontro do seu Deus e Criador, para o saudarem, e festejarem a Sua chegada. Apenas, porém, n’Ele divisam as Suas preciosas Chagas, como sinais da nossa Redenção, todos se admiram, todos se perguntam: “Quem é este, que vem com os seus vestidos ainda tintos em sangue? Quem é este, que vem todo ferido e chagado? Ah! É o Filho do nosso Deus feito homem, Deus com Ele, e nosso Criador; é o Redentor do gênero humano. Mas que Chagas são estas, Senhor, perguntam eles, mas que Chagas são estas, que Vós trazeis nas vossas mãos?” Porém, o mesmo Senhor responde: “São as que me fez o meu povo, são as que me fizeram aqueles a quem Eu tanto amava. Mas são estes os sinais da redenção humana: com elas venci o Demônio, que dominava no mundo inteiro; com estas resgatei tantas almas, que gemiam na escravidão do pecado; e com estas, finalmente, abro agora as portas do Céu a toda a humanidade”. E à vista disto todos os Anjos se enchem da alegria, entoam hinos de louvor ao Salvador do mundo. O Eterno Pai do mesmo Senhor O faz subir a um elevado trono, que Lhe tinha preparado à Sua direita, e Lhe dá pela companhia de ladrões e malfeitores, que no mundo tivera, Coros de Anjos, que O rodeiam; pelo trono da Cruz onde expirara, um trono da maior glória; pela coroa de espinhos com que O coroaram os Seus inimigos, uma coroa de triunfo; por tantas humilhações que neste mundo tivera, o lugar mais alto do Céu; e por tantos trabalhos e padecimentos, o maior prêmio.

Mas ao mesmo tempo que todo o Céu se alegra com a chegada do Divino Salvador, não parece que toda a terra se entristece com a Sua ausência? Já o mesmo Senhor antes de subir tinha dito num dia aos Seus Discípulos, que Ele iria para seu Pai; mas quando assim lhes falou, eles se entristeceram. Porém, o mesmo Senhor os consolou logo, dizendo: “Por que Eu vos disse, que vou para meu Pai, uma profunda tristeza encheu vosso coração; mas não vos entristeçais; se Eu não for, não virá sobre vós o Espírito Santo, disse o mesmo Senhor; convém muito que Eu suba para meu Pai; interessa-vos sumamente que Me vá colocar na Sua presença, para que por meio destas minhas Chagas advogue melhor a vossa felicidade e de todo o mundo, e para que vos mande o Espírito Santo”. Assim consolou o Senhor os Seus Discípulos: e por isso, no dia da Ascensão, bem longe de se entristecerem, antes muito se alegraram.

E com razão, diz São Leão Papa; porque tanto eles como todos os demais fiéis que presentes estavam, viram subir o Seu mesmo Deus com a nossa humanidade para o Céu, para melhor advogar a nossa causa, e promover junto ao Eterno Pai a nossa felicidade e salvação. Com tão rara maravilha eles ficaram todos com seus olhos postos no Céu, para onde vira subir o Senhor; seus corações ficaram abrasados no amor do mesmo Deus, e não havia quem os pudesse afastar daquele Santo lugar. Dois Anjos, porém, vestidos de branco baixam logo das alturas, e lhes dizem desta maneira: “Varões da Galileia, para que estais vós ainda olhando para o Céu? Sabei que Jesus, a quem vistes subir para a glória, assim tornará a vir, mas será só no fim do mundo para julgar: por ora não O tornareis a ver”. Vendo e ouvindo isto voltaram logo para Jerusalém; fecharam-se todos em casa com Maria Santíssima e com outros mais fiéis, entregando-se à oração, perseverando nela, e preparando-se para a vinda do Espírito Santo.

Aqui tendes, irmãos meus, uma exata narração do Mistério da Ascensão de nosso ao Céu. Mas, ah! Quanto esta Ascensão foi gloriosa para Ele, e proveitosa para nós! Ele subiu triunfante da morte e dos Seus inimigos; subiu todo alegre e glorioso, elevado pelo Seu Divino poder; recebido e saudado pelos Anjos, que O cortejaram como seu Criador e nosso Libertador; condecorado por seu Eterno Pai como Redentor do gênero humano; enfim, não podia ter mais glória acidental, do que aquela que neste dia recebeu. Mas, da Sua Ascensão não podiam também resultar melhores esperanças para nós, nem maior alegria. Já muito proveito nos tinha resultado da Sua Paixão e Morte, tirando-nos assim da escravidão do pecado; já muito proveito nos tinha resultado da Sua Ressurreição, mostrando-nos que algum dia havemos de ressuscitar das morte para a vida; mas agora subindo ao Céu revestido da nossa carne, nos dá novas esperanças de O seguirmos e gozarmos, se cumprirmos com a Sua Lei.

Ele, neste dia, foi abrir-nos pela Sua mão as portas do mesmo Céu, as quais nos estavam fechadas há tantos séculos; foi preparar-nos o lugar, onde podemos descansar eternamente. Já Ele assim o tinha prometido antes aos Seus Discípulos, dizendo: “Eu vou dispor para vós o Reino do Céu, assim como meu Pai o tem disposto para Mim – Dispono vobis sicut disposuit mihi Pater meus, Regnum”. Ele finalmente está sendo na presença do mesmo Pai o nosso maior Advogado. Com as Suas Chagas alcançadas por nosso respeito, com o Seu Sangue derramado por nosso amor, está muitas vezes sossegando a justiça do mesmo Pai provocada pelos nossos pecados; está sempre, finalmente, convidando-nos, como verdadeiro Amigo nosso, a que nos juntemos a Ele, entremos na Sua Casa, comamos à Sua Mesa, e vivamos com Ele eternamente no Céu.

Oh! E quem desanimará, ou quem se recusará a este convite? Caríssimos irmãos, prega Santo Agostinho, o nosso Salvador subiu ao Céu, não nos perturbemos na terra. No Céu pois, vai ele dizendo, no Céu esteja o nosso pensamento, e na terra haverá paz em nosso coração. Subamos com Jesus Cristo agora, pondo n’Ele o nosso coração e pensamento, diz mais, e quando vier o dia prometido, O seguiremos também com o nosso corpo. Porém, todos devemos saber, ensina ainda este grande Santo, que com Jesus Cristo não sobe a soberba, nem a avareza, nem a luxúria, nenhum destes ou de outros vícios sobe com o nosso Médico – Scire tamen debemus, quia cum Christo non ascendit superbia, non avaritia, non luxuria, nullum vitium ascendit cum medico nostro. Portanto, se nós queremos subir com o nosso Divino Médico ao Céu, devemos depôr ou emendar os nossos pecados, conclui o Santo Doutor – Et ideo, si post medicum desideramus ascendere, debemus vitia, et peccata deponere.

Porém, se vós não emendais esses maus costumes que tendes, como subirei com Jesus Cristo ao Céu? Como ireis para lá com essas pragas, juras falsas, faltas de Missa, trabalhos nos Domingos e dias Santos, com faltas das vossas obrigações, com ódios, com pecados desonestos, com roubos e murmurações, com comidas de carne nos dias proibidos, com confissões e comunhões sacrílegas, com estes e outros pecados mortais? Ah! Desenganai-vos, irmãos meus, com pecados não se sobe ao Céu; basta um só pecado mortal, de que não haja verdadeira Confissão e Penitência, para não subirmos a tão ditoso Reino. Mas, todos para lá querem ir com Jesus Cristo, todos O querem gozar, porém, nem todos O querem seguir e acompanhar na Sua Cruz, diz Ele mesmo por São João Crisóstomo – Omnes volunt me frui sed non omnes me sequi.

Todos O querem ver nessa ditosa Pátria, mas nem todos querem deixar o mundo, os seus divertimentos, as suas Modas, nem resistir ao Demônio ou às suas tentações, nem mortificar a carne e os seus apetites luxuriosos, nem finalmente pensar em Deus, e cuidar nas coisas de salvação. Os Apóstolos e demais fiéis que se acharam presentes na Ascensão do Senhor, além de já terem deixado o mundo por amor d’Ele; além de O terem já seguido e acompanhado nos Seus trabalhos, quando O viram subir puseram seus olhos no Céu, o seu pensamento em Deus, e o seu coração, parece, que foi também com o Divino Mestre para o Céu. Não havia coisa que os distraíssem de tão santo objeto, nem quem os obrigassem a retirar-se daquele lugar donde viram subir o Salvador: foi necessário que viessem dois Anjos mandá-los afastar-se dali; só então se retiraram daquele monte para o Cenáculo; mas sempre com o seu pensamento em Deus, sempre com a lembrança no seu Divino Mestre, sempre suspirando por Ele e pelo Céu. Entregaram-se todos à oração, e nela perseveraram, reanimaram os seus desejos de trabalhar e sofrer por Deus; aperfeiçoaram as suas virtudes; tudo isto fizeram para subirem algum dia ao Céu, para verem o seu Divino Mestre todo glorioso; porque bem sabiam que só por este caminho podiam subir a tamanha felicidade.

Porém, vós, que fazeis para subir ao Céu, e ver a Deus? Fazeis o mesmo? Não de certo, mas tudo pelo contrário. Em lugar de pordes os olhos no Céu, ponde-los na terra; em lugar de olhardes para cima, olhais para baixo; em lugar de olhardes para as coisas do Céu, olhais para as coisas do mundo, a fim de andardes também à moda; olhais para esses objetos do diverso sexo, que vos agradam e aliciam ao pecado. E o vosso coração onde anda empregado? Anda também empregado no mundo, agarrado às coisas do mundo. Devendo desejar gozar a Deus, desejas conversar, gozar divertimentos profanos, delícias mundanas; devendo desejar a doce sociedade de Deus e dos Anjos, desejais os teatros, os bailes, as companhias nocivas, as sociedades perigosas; devendo desejar as riquezas do Céu, que jamais serão roubadas, desejais as riquezas do mundo, que nunca fartam o coração, e que algum dia haveis de deixar.

E o vosso pensamento em que anda também ocupado? Anda ocupado juntamente nas coisas do mundo e do Demônio. Devendo lembrar-vos continuamente do Céu, vos lembrais da terra; devendo lembrar-vos de coisas santas, e meditar nelas para vos arrependerdes e emendardes dos vícios, esquecei-vos de tudo quanto é santo e conveniente à vossa salvação, e só pensais em coisas prejudiciais à vossa alma; devendo lembrar-vos de fazer oração, de confessar-vos constantemente, e buscar o caminho do Céu, só vos lembrais de negócios temporais; finalmente, em nada imitais os Apóstolos e demais fiéis, que presenciaram a Ascensão do Senhor, e por isso não mereceis subir ao Céu, ver e gozar o mesmo Senhor no Céu.

Sois, por isso, irmãos meus, indignos discípulos de Jesus Cristo, membros fracos da Sua Religião. Tu, pecador, dizes para desculpar-te: Eu não posso andar a pensar em Deus, não posso fazer oração mental, nem tenho tempo para isso: mas puderam, responde Santo Agostinho, puderam os Apóstolos e tantos Santos e Santas, e não poderá tu? – Et tu non poteris quod isti, et istae? Eu não posso confessar-me nem comungar muitas vezes, não posso procurar as coisas do Céu tão constantemente como muitas pessoas: e puderam os Apóstolos, e demais Santos e Santas, e não poderás tu? Eu não posso ter paciência, eu não posso cumprir com tanta exatidão as minhas obrigações, não posso deixar esta amizade criminosa, não posso emendar-me destes e de outros pecados: e puderam os Apóstolos e tantos Santos e Santas, e não poderás tu?

Oh! Porventura, eram os Apóstolos e demais Santos de outra natureza diversa da nossa? Porventura, não tinham eles as mesmas inclinações para os vícios, como nós temos? Eram filhos da mesma natureza corrupta como nós, tinham as mesmas inclinações para o pecado como nós; mas, não tinham tão pouco ânimo como nós, não tinham tanta preguiça como nós; tinham mais aborrecimento ao pecado, mais amor a Deus e a virtude do que nós, e por isso, trabalharam tanto pelo Céu, sofreram tanto pelo Céu, suspiravam pelo Céu, e por isso, subiram ao Céu: e se nós não fizermos como eles, nunca lá subiremos, nem gozaremos a Deus; nunca descansaremos nessas cadeiras, que o nosso Divino Salvador foi preparar-nos neste dia. Oh! Mas que vergonha! Que confusão para nós, se ficarmos privados de tão grande bem! Que vergonha, que confusão deve ser a nossa, se tendo nós um Salvador, que tanto sofreu para nos ganhar o Céu, e que subindo neste dia para lá, foi abrir-nos as suas portas; e que desde lá nos está chamando, nós ainda recusamos este favor, e andamos com os olhos, coração e pensamento agarrados à terra? Oh! Acima, cristãos, acima com o vosso pensamento e coração; acima com os vossos afetos; subi, subi desde hoje com os vossos desejos para o Céu; não andeis mais empregados só nas coisas do maldito mundo.

Hoje celebramos a solene Ascensão do Senhor; logo, conclui Santo Agostinho, se a queremos festejar com devoção, subamos com Ele, e levantemos a Ele o nosso coração e pensamento - Si ergo devote, et pis Ascensionem Domini celebramus, ascendamus cum illo, et sursum corda habeamus. Vamos pois, irmãos meus, vamos todos para o Céu; já sabemos o caminho, como tendes ouvido; mas sabei, que é prêmio que Deus só tem prometido a quem sofre, a quem se arrepende, confessa e emenda de pecados. Vinde pois, já arrependidos, e dizei:

Ó meu Deus, eu até agora tenho trazido o meu coração e pensamento apegado ao mundo; não tenho suspirado senão pelo mundo, e nunca por Vós, nem pelo Céu; tenho andado inteiramente perdido. Mas, ó meu Deus, perdoai-me o passado; eu me arrependo de Vos ter ofendido tanto; mas, de hoje em diante proponho servir-Vos e amar-Vos, para depois gozar-Vos. Ajudai-me, meu Deus, com a vossa graça, porque sem esta nada farei. Ajudai-me também, Maria Santíssima; Vós sois a porta do Céu, ajudai-me a entrar por Ela; pedi a Deus por mim. Amém.


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Fonte: Pe. Fr. Manoel da Madre de Deus, O.C.D., Práticas Mandamentais ou Reflexões Morais Sobre os Mandamentos da Lei de Deus e os Abusos que lhes são Opostos, Outras Práticas e Missões – Prática 9ª, pp. 552-559. 3ª Edição, Em Casa de Cruz Coutinho – Editor, Porto, 1871.

1.  Marc. 16, 19.

2.  Act. Ap. 1, 2.9-10.


terça-feira, 24 de maio de 2022

MEDITAÇÕES SOBRE NOSSA SENHORA AUXILIADORA.

A Proteção da Santíssima Virgem1


Duas horas depois Dom Bosco saía do Oratório em companhia de um de seus alunos maiores. Ia à Consolata, a igreja preferida por sua mãe, para rezar Missa pelo repouso eterno da alma dessa humilde cristã, cuja abnegação escondida tinha-o livrado de tantas preocupações.

E agora, – disse à Santíssima Virgem Consoladora, antes de deixar o seu Santuário – cabe a Vós ocupar o lugar que Mamãe deixou vazio. Em minha família é indispensável uma mãe. Quem poderá ser nossa mãe senão Vós? A Vós entrego todos os meus filhos. Velai sobre suas vidas e sobre suas almas agora e para sempre”.

Jamais no Céu se ratificou tão plenamente qualquer outro ato de abandono: toda a história das obras e das fundações de Dom Bosco, como iremos ver, não será mais que um longo poema composto por duas pessoas. O homem de Deus agirá, mas por detrás dele, na sombra, em cada curva perigosa hão de perceber um pensamento, uma inspiração, uma mão a se estender: o pensamento, a inspiração, a mão da Virgem toda bondade, pastora vigilante e forte, colocada nessa manhã de 25 de Novembro de 1856 à testa do numeroso rebanho para guardá-lo e defendê-lo.



Maria Auxílio dos Cristãos2


O povo cristão implora as graças por intermédio de Maria não só individualmente, mas nos grandes momentos da história; povos e nações inteiras recorrem a Nossa Senhora para pedir seu auxílio no meio de graves calamidades.

A península Ibérica foi invadida, no século VII, pelos árabes muçulmanos, ameaçando a Europa recém-convertida ao Cristianismo. Os povos ibéricos, espanhóis e portugueses, lutaram durante nove séculos até realizar a tão almejada reconquista. No início dessas lutas, em 722, Pelayo venceu os muçulmanos em Covadonga, invocando a Virgem Santa Maria, porque Ela é a Mãe da piedade e misericórdia. Quando, no século XV, se realizou a total libertação da Espanha, pelas batalhas em que se levaram as bandeiras com a imagem da Virgem Maria, construiu-se, em ação de graças, em Toledo, a igreja da Virgem da Vitória.

No século XV, os muçulmanos avançaram do Oriente contra a Europa, e, em 1453, derrubaram o império cristão de Bizâncio. Naquele perigo, o Papa convocou o povo cristão da Europa para uma Cruzada de defesa e, em 1456, em Belgrado, os cruzados, dirigidos pelo herói João Hunyadi e São João Capistrano, infligiram grave derrota aos turcos, invocando os nomes de Jesus e Maria.

No século XVI, foi ameaçador o domínio do Mediterrâneo pela força naval dos turcos. O Papa São Pio V conseguiu unir a Espanha com Veneza, sob o comando de João da Áustria, e, em 1571, no estreito de Lepanto, destruiu-se totalmente a força naval da Turquia. Durante a batalha, o Papa rezava, com toda sua corte, o rosário de Nossa Senhora. Depois da vitória, São Pio V mandou incluir na Ladainha Lauretana a invocação: Auxílio dos Cristãos.

Em 1683, as tropas turcas atacaram Viena, querendo penetrar na Europa cristã. O exército reunido dos países cristãos venceu os agressores com a bravura do rei da Polônia, João Sobieski. Depois da brilhante vitória, iniciou-se a libertação da Hungria da opressão muçulmana de 150 anos. Em gratidão pelo auxílio de Nossa Senhora, o Papa Inocêncio XI instituiu a festa do Santíssimo nome de Maria, no dia 12 de Setembro.

Napoleão Bonaparte deportou o Papa Pio VII de Roma, que ficou prisioneiro na França entre 1809 e 1814. Tendo experimentado o poderoso auxílio da Mãe de Deus, quando recuperou a liberdade, Pio VII decretou a celebração da festa com o título Auxílio dos Cristãos, no dia 24 de maio do ano litúrgico.

Em nosso século, atribulado por duas grandes guerras, o Papa Pio XII consagrou, a pedido de Nossa Senhora de Fátima, a humanidade inteira ao Coração Imaculado de Maria. Essa consagração foi renovada também pelo Santo Padre João Paulo II.

O culto de Maria sob essa invocação. Os fiéis passaram a depositar sua confiança no auxílio de Nossa Senhora, pois, instruídos pelos símbolos veterotestamentários de socorro ao povo ameaçado (Judite e Ester), os cristãos tinham a certeza de que a Virgem Maria ajudaria o povo em todas as suas necessidades. Não foram os Evangelhos que tinham inspirado essa confiança pelo episódio da visitação a Isabel, pelas Bodas de Caná e por sua caridade misericordiosa debaixo da Cruz?

O Papa Pio IX exaltou a figura de Maria quando promulgou o dogma da Imaculada Conceição3 com estas palavras: “Maria é fidelíssima auxiliadora e poderosíssima Mediadora e Reconciliadora de toda a terra junto a seu Filho Unigênito. É glória e ornamento, como também defesa firmíssima, e sempre venceu todas as heresias e libertou os povos e nações das máximas calamidades e perigos de todo gênero”.

A invocação Auxílio dos Cristãos, é a forma pública e social da mediação que a Santíssima Virgem exerce não só a favor de pessoas, instituições e países, mas também para o bem de toda a Igreja Católica e do Vigário de Cristo, o Papa, principalmente nos momentos mais trágicos da humanidade e nos períodos mais perturbados da Santa Igreja.

Na época em que a Igreja foi duramente atacada em suas instituições, sua doutrina e disciplina e, principalmente, na pessoa do Santo Padre, São João Bosco4 colocou a invocação Auxílio dos Cristãos, sob o título de Nossa Senhora Auxiliadora, no centro da espiritualidade de suas Congregações recém-fundadas. São João Bosco escolheu esse título de Maria, porque os novos tempos se tornaram tão difíceis, que a Igreja necessita da ajuda especial de Maria para defender e conservar a fé cristã.

A devoção salesiana a Nossa Senhora Auxiliadora reflete o profundo espírito católico devotado à Igreja Romana e ao Santo Padre. As duas Congregações religiosas de Dom Bosco são, pelo mundo todo, zelosas promotoras da devoção a Nossa Senhora Auxiliadora.



Cunctas Haereses Sola Interemisti”5

Vós sozinha, extinguistes todas as Heresias”


1) Tendo-nos a Mãe de Deus gerado com dores, ao pé da Cruz, como seus filhos, porventura, poderia Ela esquecer-se de nós, depois de sua gloriosa Assunção ao Céu? Por certo que não! Por isso, continua a exercer o seu Apostolado, de um modo incomparavelmente mais fecundo e poderoso do que qualquer outro Santo.

O Papa Leão XIII declara na sua Encíclica “Adjutricem”: “Depois da sua Assunção ao Céu, começou Maria, conforme os desígnios divinos, a velar sobre a Igreja e a prestar-nos seu auxílio materno de sorte que, dotada de um poder quase ilimitado, se tornasse a Dispensadora das Graças perenemente fluentes do Mistério de nossa Redenção, assim como Ela, outrora, também foi a Coadjutora na execução da Obra Redentora”.6

Sendo a Santíssima Virgem a Esposa do Divino Espírito Santo e a “Sede da Sabedoria”, se interessa, antes de tudo, pela conservação da integridade e genuidade da Doutrina Cristã, opondo-se a todos os erros e heresias que dilacerar pudessem a Instituição de seu Filho divino.

De fato, a Santa Igreja, reconhecendo a poderosa proteção da Mãe de Deus, canta na Festa da Anunciação: “Gaude Maria Virgo, cunctas haereses sola interemisti in universo mundo” – “Regozijai-vos, ó Virgem Maria, pois, Vós só, extinguistes todas as heresias em todo o mundo”!

À primeira vista parece estranha tal asserção. Porém, a Santa Igreja logo acrescenta a razão: “Porque acreditastes na palavra do Arcanjo Gabriel e, por isso, gerastes, qual Virgem, o Homem-Deus e, depois do parto, permanecestes Virgem ilibada”.

O sentido é este: A Encarnação do Verbo divino é o fundamento da Doutrina Cristã e da nossa fé. Foi a Virgem Maria que, antes de todos os demais, acreditou neste inefável Mistério, que o Filho de Deus se revestisse da natureza humana no seu seio materno, sem violação de sua virgindade.

Maria, acreditando nas palavras do Anjo e consentindo na Encarnação do Verbo divino, tornou-se, como Mãe do Redentor, a co-causa de nossa Salvação, pondo-se em evidente contraste com Eva, a qual, acreditando nas palavras do espírito infernal, se tornara a causa da nossa ruína e maldição.

O sobredito verseto litúrgico não é, portanto, senão a paráfrase e o cumprimento do verseto bíblico7, no qual se prediz a luta entre a Serpente e a Mulher e o triunfo desta sobre aquela.

Com efeito, de todos os homens, Maria só, pela sua Imaculada Conceição, esmagou a cabeça do 1º Heresiarca, Pai da mentira e de todas as heresias, o qual tinha sugerido à Eva a 1ª heresia: “Sereis iguais a Deus”. Esmagou-lhe, em seguida, a cabeça pela palavra “fiat” – “faça-se”, dando o seu consentimento à Encarnação do Filho de Deus, no seu seio puríssimo.

2) Na Dogmática de um ilustre Teólogo encontramos a seguinte exposição magistral de nossa tese:

A extinção das heresias pode-se, de dúplice modo, atribuir à Bem-aventurada Virgem Maria: objetiva e subjetivamente.

Objetivamente: por ter dado à luz Jesus Cristo, o lume da verdade e logo pelos Mistérios que em Maria se verificaram. E são estes:

a) Pelo privilégio da “Imaculada Conceição” é demonstrado o fato do Pecado Original e a necessidade da Redenção;

b) pela “maternidade” de Maria é provado o dogma da União Hipostática das naturezas, a divina e a humana, na única Pessoa divina de Cristo;

c) pela “virgindade” de Maria revela-se um novo e até então desconhecido modo de servir mais perfeitamente a Deus;

d) pela “Assunção” de Nossa Senhora é confirmada a Ressurreição de Cristo, como também a fé em nossa própria ressurreição.

Subjetiva e pessoalmente a Mãe de Deus é exterminadora das heresias:

a) Por ter sido a “Mestra dos Apóstolos”, pela doutrina dos quais se extirpam as falsas doutrinas;

b) porque a Santíssima Virgem assiste, de um modo particular, os que lutam pela pureza da fé católica, como consta da vida de São Domingos e de muitos outros fatos da Igreja Católica.8

3) Um dos mais importantes desses fatos na história eclesiástica é o Concílio de Éfeso, em 431, no qual Nestório, Bispo de Constantinopla, foi condenado pela Igreja, por negar a “Maternidade divina de Maria”, verdade essa que é o centro e o fundamento de todas as glórias e privilégios que admiramos em Maria e, ao mesmo tempo, o testemunho das misericórdias divinas que se manifestaram na nossa Redenção.

O mais eminente defensor desse dogma católico foi São Cirilo, Bispo de Alexandria, que denominou a Virgem Maria “Sceptrum orthodoxae fidei” – “o cetro da verdadeira fé católica”.9

É notável que a condenação da heresia de Nestório se deu justamente na cidade de Éfeso, outrora domicílio da Mãe de Deus e do Apóstolo São João, depois da Ascensão do Senhor.

Conta-se que o povo Efesino, em peso, depois de conhecer a decisão do Concílio, aclamando jubiloso os Bispos e os Delegados do Papa, os acompanhava em solene procissão, com archotes acesos, até as suas residências, louvando, ao mesmo tempo, a Mãe de Deus e entoando a Antífona: “Salve, ó Virgem perpétua, Vós só extinguistes todas as heresias do mundo!”10

Outro fato, não menos significativo da poderosa proteção que a Rainha celeste dispensa à Igreja, é a extinção da seita dos “Albigenses” no século treze. Estes hereges negavam e adulteravam não só uma mas muitas das verdades de nossa fé católica, espalhando as suas crendices a ferro e fogo, subvertendo assim, em diversas partes da França, da Espanha e da Itália, a ordem religiosa, política e social.

Um dos mais ardentes defensores da fé contra os Albigenses foi São Domingos. Reparando, porém, na ineficácia dos seus esforços, recorreu à Mãe de Deus. Mudando, após, de tática, começou a rezar com o povo o santo “Rosário” e explicar-lhe os Mistérios da fé que nele se contemplam. Os seus companheiros adotaram igual método. Foi só então que se conseguiu opor dique às ondas perversas e restabelecer a fé, a paz e a ordem.

Quanto ao “Luteranismo” e “Protestantismo” que, no século dezesseis surgiu, ameaçando a Igreja Católica, é sabido que essa Seita não podia ganhar terreno nos países ou lugares que continuavam ou recomeçavam o Culto de veneração e amor à excelsa Mãe de Deus. Data desta época a fundação das “Congregações Marianas” pelos Padres Jesuítas. A primeira foi a de Colônia na Alemanha, em 1567.

O século passado distinguiu-se pelo “Racionalismo” e “Liberalismo”, como consequências do “Humanismo” e da grande “Revolução francesa”, a qual adorou como deusa de toda a sabedoria, a pura razão humana.

A Santa Igreja, defendendo a sobrenaturalidade, lhe contrapôs a Virgem Maria, a verdadeira “Sede da Sabedoria” e a “Imaculada Conceição”, cujo dogma foi ratificado pela aparição de Nossa Senhora, em Lourdes, na França.

A época que atravessamos é marcada pela impureza do “Sensualismo e Materialismo”, cujos adeptos propugnam a pureza da matéria ou da raça e a impureza de um neo-paganismo.

Nesta hedionda e tenebrosa aberração da mentalidade humana, eis que aparece, novamente, como estrela fulgente e celeste, a “Mãe Imaculada de Fátima” para advertir a humanidade do caminho errado que a conduz para o abismo e reconduzi-la, como outrora a estrela do Oriente os três Reis Magos, aos pés do Salvador do mundo, o “Príncipe da Paz” – a única fonte de felicidade.

Passando em revista a história do mundo e da Igreja, notamos, por conseguinte, que todas as vezes que a Serpente infernal ousava acometer contra a fé e os bons costumes da Igreja de Cristo, a Rainha celeste lá estava para lhe pisar a cabeça.

4) Além de sua intervenção direta e pessoal, Maria convocou e formou, outrossim, segundo as circunstâncias o exigiram, varões de ciência e santidade para a defesa da verdadeira fé e doutrina cristã.

Além dos já mencionados São Cirilo de Alexandria e São Domingos, recordemos ainda outros três vultos, eminentes servos de Maria: São João Damasceno, do século VIII; Santo Alberto Magno, da idade média e Santo Afonso de Ligório, dos tempos modernos.

São João Damasceno defendia a doutrina católica da veneração dos Santos contra os “Iconoclastas”, isto é, contra os destruidores das imagens dos Santos. Sendo-lhe, por mandado do ímpio Imperador de Constantinopla, Leão Isáurio, cortada a mão direita, a Mãe de Deus lha restituiu milagrosamente em atenção às ardentes preces que o Santo lhe dirigira. Daí em diante, ele serviu-se de sua mão para, com redobrado fervor, por seus escritos, defender as verdades da nossa fé, de modo tão erudito que, mais tarde, Santo Tomás de Aquino construiu sua admirável composição da “Summa Theológica” sobre os fundamentos da exposição doutrinária desse Santo.11

Santo Alberto Magno, na idade média, sendo uma estrela de primeira ordem em todas as ciências, mereceu o título de “Doutor Universal” e foi o mestre e guia de um dos maiores Teólogos de nossa Santa Igreja: Santo Tomás de Aquino, chamado o “Doutor Angélico”.

Em nossos tempos, Santo Afonso de Ligório, foi um dos mais eminentes Teólogos Moralistas. Era devotíssimo da Mãe de Deus, cujas “Glórias” ele descreveu num livro que é conhecidíssimo e foi traduzido em todas as línguas principais do mundo.

Pelos exemplos da história eclesiástica, que acabamos de citar, vemos, portanto, confirmada a exclamação do povo Efesino e a aclamação, com a qual a Santa Igreja honra a Virgem Imaculada: “Cunctas haereses sola interemisti in universo mundo” – “Todas as heresias extinguistes, Vós só, em todo o mundo”.

Os títulos que, a esse respeito, os Santos Padres conferem à Mãe de Deus, corroboram nossa convicção e confiança em Maria.

Por São Cirilo Alexandrino a Santíssima Virgem é intitulada: “Sceptrum orthodoxae fidei” – “O cetro da verdadeira fé”.

Por Santo Ambrósio: “Vexillum fidei” – “O estandarte da fé”.

Por André Cretense: “Propugnaculum fidei christianae” – “O baluarte da fé cristã”.

Por São Gregório Nazianzeno: “Praeses fidei” – “A Presidente da fé”.

Por São Sofrônio: “Contritio pravitatis haereticae” – “A esmagadora da perversidade herética”.12

Arrebatados pela solicitude maternal de Maria para com seus filhos e do seu poder sobre o Inferno, entoamos jubilosos com a Santa Igreja a Antífona: “Regozijai-Vos, ó Virgem Maria, pois Vós só, extinguistes todas as heresias em todo o mundo, porque acreditastes nas palavras do Arcanjo e, por isso, geraste qual Virgem, o Homem-Deus e, depois do parto, permanecestes Virgem ilibada. Santa Mãe de Deus, intercedei por nós!”

Oração da Santa Igreja: “Pelo triunfo da Religião cristã, Vos imolamos, Senhor, as hóstias de pacificação, as quais nos sejam proveitosas pela mediação da Virgem Auxiliadora, que conduz para a perfeita vitória. Por Cristo Nosso Senhor”. Amém.13



Maria ao Pé da Cruz14


1) Depois do episódio evangélico que relatamos no capítulo anterior, a Mãe de Deus não é mais mencionada pelos Evangelistas, até o momento em que Jesus, pregado na Cruz, estava agonizando.

São João, o discípulo predileto, é o único que refere a presença da Santíssima Virgem junto à Cruz, por ter sido ele quem ali a acompanhara e a recebera de Jesus, como último legado.

O Filho agonizava na Cruz e sua Mãe agonizava ao pé da Cruz”; pois, lá estava, não só corporalmente pela sua presença, mas participando também intimamente das dores e da agonia de seu Filho.

Na célebre Sequência do “Stabat Mater”,15 a Santa Igreja canta:


Estava junto da Cruz

A triste Mãe dolorosa,

Vendo, aflita e lacrimosa,

Pendente o caro Jesus.


Banhada em pranto de amor,

Gemendo em dura agonia,

Sua alma doce sentiu,

De aguda espada a dor.


Foi por ocasião da Apresentação do Menino no Templo, que o ancião Simeão profetizou que, por causa de seu Filho, uma espada havia de transpassar o Coração da Mãe.

No dia da Anunciação, vemos Maria coroada com uma coroa de rosas brancas; vêmo-lA como a Virgem puríssima e imaculada que, cheia de júbilo e gratidão, entoa o seu sublime cântico, o “Magnificat”.

Sobre o Calvário, porém, vêmo-lA coroada de rosas vermelhas, – como a “Rainha dos Mártires e Mãe dos Sacerdotes” que acaba de oferecer o Sacrifício e de cujas mãos goteja o Sangue divino de seu próprio Filho.

O martírio da Virgem”, diz São Bernardo num seu sermão, “comemora-se tanto na profecia de Simeão, como no próprio fato da Paixão de Nosso Senhor. Não é sem razão que chamamos a Maria ‘Mártir e mais que Mártir’, por ter n'Ela a compaixão da alma excedido a dor corporal dos sentidos”.16

Por isso, também a Igreja saúda a Mãe de Deus: “Ave! Princeps generosa, Martyrumque prima rosa, Virginumque lilium” – “Salve! Rainha generosa, dos Mártires a primeira rosa e das Virgens a açucena decorosa”.17

E no Communio da Missa de Nossa Senhora das Dores, o Sacerdote reza: “Felizes as dores da Santa Virgem Maria que, sem morte, ganharam a palma do martírio, ao pé da Cruz do Senhor”.

2) A “grandeza de Maria” consiste não só no fato de ser Ela a Mãe do Cordeiro divino, de lhe ter oferecido a Carne e o Sangue humano, mas também no fato de ter Ela mesma nutrido e amparado este cordeirinho e tê-lO conduzido e acompanhado até o altar da Cruz.

A Encíclica do Papa Pio X, de 2 de Fevereiro de 1904, salienta precisamente esta circunstância da compaixão da Mãe dolorosa, declarando: “Maria não estava ao pé da Cruz simplesmente como que absorta no espetáculo hediondo da crucifixão; Ela consentiu até, com satisfação, em ver seu Filho imolado pela salvação do gênero humano”.

Também Santo Ambrósio declara: “Estava ao pé da Cruz a Mãe e estava intrépida, enquanto os varões fugiram. Olhava com piedade as Chagas de seu Filho, sabendo que por elas se ia salvando o mundo”.18

É nessa assistência que Maria prestou ao Salvador, durante a Crucifixão e na comunhão de sofrimentos e de desejos que teve com Ele, que se baseiam todos os títulos, com os quais a Igreja honra a Mãe de Deus.

Santo Alberto Magno e Santo Antonino, Bispo de Florença, intitulam Maria a “Adjutora na Redenção” pelo seu co-padecimento.19

Também numa Circular do “Santo Ofício” de 26 de Junho de 1913, é louvado o pio costume de ajuntar ao nome de Jesus o nome de sua Mãe, nossa “Co-Redentora”.20

Todos os títulos, que a Santa Igreja confere à Virgem dolorosa, salientam e confirmam o martírio que Ela sofreu sobre o Calvário, pela sua íntima participação no Sacrifício de seu Filho, o qual, na ara da Cruz, consumou o Apostolado de que fora incumbido – a Redenção do mundo.

Ao pé da Cruz, a Mãe das Dores tornou-se a “Rainha dos Mártires” e, por conseguinte, sendo inseparáveis o martírio e a execução da missão Redentora de Cristo, a “Rainha do Apostolado Católico ou Universal”.



Considerações Práticas


Adaptam-se à Mãe das Dores as exclamações do Profeta Jeremias: “A quem te compararei, ou a quem te assemelharei, ó filha de Jerusalém? A quem te igualarei e como te consolarei, ó Virgem, filha de Sião? É grande como o mar a tua tribulação!”.21

Os sofrimentos de Cristo e de Maria clamam em altas vozes, que não há Apostolado eficaz e frutífero sem sacrifícios!

Em 1897, Santa Teresinha do Menino Jesus escreveu a seu Irmão Missionário: “As primícias do vosso Apostolado recebem o cunho da Cruz. Alegrai-vos! É muito mais pelo sofrimento e a perseguição do que por brilhantes pregações, que Jesus quer estabelecer seu Reino divino nas almas”.

Ela mesma foi a esposa e vítima expiatória do Salvador Crucificado. Não desejava outra vida melhor, nem morte mais suave que a de seu divino Esposo. No último ano de sua peregrinação terrestre, os seus sofrimentos corporais e espirituais atingiram o auge. Ofereceu-os todos ou “os despendeu”, no seu dizer, “para comprar almas”.

Sirva o seguinte exemplo e fato para maior esclarecimento e convicção nossa sobre a necessidade e eficácia do Apostolado do sofrimento” para promover a maior glória de Deus e a propagação de seu Reino.

Certo dia, um Sacerdote, Diretor Espiritual de Estudantes em Paris, recebeu a visita de um jovem chinês.

Sou Presidente de um Clube ateu”, disse o visitante, “e venho pedir a V. S. o favor de me instruir na doutrina católica. Porém, já lhe digo francamente, não é para me converter e sim, só para quando eu voltar para minha pátria, combater com maior força, clareza e exatidão a vossa Religião que eu odeio”.

O Diretor, após alguns momentos de reflexão, anuiu ao pedido do jovem chinês. Entregou-lhe alguns livros e marcou dia e hora para a instrução.

No dia seguinte, o Diretor foi visitar uma jovem piedosa que, desde algumas semanas, se achava gravemente enferma. Aconselhou-a que oferecesse os sofrimentos para a conversão de um moço ímpio.

A doente não hesitou em responder: “De bom grado oferecerei a minha vida por esse fim”.

Ao cabo de umas semanas, o Sacerdote perdeu a esperança no seu discípulo; pois este se tornou cada vez mais impertinente nas suas expressões e ataques contra a Religião Cristã.

Certo dia, às 11 horas da noite, a campainha da residência do Diretor deu alarme. Quando este foi abrir, encontrou-se, admirado, com o jovem chinês, o qual, todo agitado, desafogou-se com as seguintes frases: “Senhor Diretor, não posso mais aguentar; estou inquieto, perturbado na minha consciência; desvaneceram-se as sombras e dúvidas do meu espírito; vejo, de repente, o Cristianismo sob outro aspecto; quero tornar-me católico; peço-lhe a caridade de me batizar”.

O Padre conduziu o estudante ao seu escritório, onde permaneceram em longo colóquio.

Na manhã do dia seguinte, a mãe da moça doente foi ter com o Sacerdote para lhe comunicar a morte de sua filha, ocorrida às 10 horas e meia da noite anterior.

Esta notícia deu ao Diretor a chave para o segredo da conversão repentina do jovem chinês. Este, depois de batizado e tendo regressado à sua terra natal, tornou-se naquelas paragens longínquas, um denodado e ainda hoje conhecido Apóstolo da Religião de Cristo.22


_______________________________

1.  A. Auffray, S.D.B., “Dom Bosco”, Cap. IV, pp. 122-123. Livraria Editora Salesiana, São Paulo/SP, 1955.

2.  Veremundo Thoth, “Louvores à Virgem Maria ou Reflexões sobre a Ladainha de Nossa Senhora”, Cap. 38, pp. 103-105. AM edições, São Paulo/SP, 1993.

3.  Bula Ineffabilis Deus, 1854.

4.  1815-1888.

5.  Rev. Pe. Dr. Erasmo Raabe, S.A.C., “Regina Mundi – Considerações Doutrinal-práticas em 33 Capítulos para os Meses e Festas de Maria”, Cap. XXV, pp. 135-144. 2ª Edição, Edições Paulinas, São Paulo/SP, 1954.

6.  AAS. 28. (1895/96) 130.

7.  Gên. 3, 15.

8.  Cr. Pesch S.J. Dogm. IV. nº 627. – Hurter S.J. Dogm. II. nº 620.

9.  Homilia contra Nestorium. – Off. Reg. Apost. lectio IV.

10.  Pio XII, Encíclica “Lux veritatis”. – AAS. 23. (1931) 514. – Brev. Rom. 9 Febr. lectio VI.

11.  Brev. Rom. 27 Martii.

12.  Germiniano Mislei, S.J. “La Madre di Dio”, Veneza, p. 15.

13.  Secreta in missa B. M. V. Auxil. Crist.

14.  Rev. Pe. Dr. Raabe, S.A.C., ob. cit., Cap. XVII, pp. 86-91.

15.  O hino Stabat Mater remonta ao século XIII. A autoria do hino é incerta. Por muitos atribuído ao franciscano Jacopone de Todi.

16.  Off. 7 dolor. B.M.V. lectio 4, 5. – Sermo de 12 stellis.

17.  Off. 7 dolor. B.M.V. Resp. 8.

18.  De institut. Virg. c. 7. – Propr. Brasil, verna, gaudiorum B.M.V. die 4, infra Octav. Lectio 9. et 15 Setbr. Lectio 7.

19.  Quaest super Missus est. Resp. ad qualquer. 148-150. Opera omnia, t. 37, (Paris 1898) 219a.

20.  A.A.S. 5. (1913) 364.

21.  Lam. 2, 13.

22.  Almanaque “Der Familienfreud”, 1939, Porto Alegre, Sul.


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