BLOG CATÓLICO PARA OS CATÓLICOS.

BLOG CATÓLICO, PARA OS CATÓLICOS.

"Uma vez que, como todos os fiéis, são encarregados por Deus do apostolado em virtude do Batismo e da Confirmação, os leigos têm a OBRIGAÇÃO e o DIREITO, individualmente ou agrupados em associações, de trabalhar para que a mensagem divina da salvação seja conhecida e recebida por todos os homens e por toda a terra; esta obrigação é ainda mais presente se levarmos em conta que é somente através deles que os homens podem ouvir o Evangelho e conhecer a Cristo. Nas comunidades eclesiais, a ação deles é tão necessária que, sem ela, o apostolado dos pastores não pode, o mais das vezes, obter seu pleno efeito" (S.S. o Papa Pio XII, Discurso de 20 de fevereiro de 1946: citado por João Paulo II, CL 9; cfr. Catecismo da Igreja Católica, n. 900).

segunda-feira, 9 de janeiro de 2023

DO EGITO, A SAGRADA FAMÍLIA REGRESSA À PÁTRIA.


Herodes, com a matança dos Inocentes, julgava-se livre do Menino que tanto pavor lhe incutia. Ao contrário, seu execrando infanticídio levantou um clamor e um pranto entre as mães de Belém, o qual fez com que descesse logo sobre ele a maldição de Deus. Atingido pela febre, tosse, disenteria, hidropisia,1 podagra,2 doença dos piolhos, asma e insuportável mau cheiro, roído pelos vermes e pelo remorso de seus graves delitos, terminou miseravelmente os seus dias.

Coube a Herodes a mesma sorte que caberá a todos quantos ousaram declarar-se em guerra contra Deus, contra o que Ele quis e ordenou, contra a sua Igreja, seus Ministros e o povo fiel.3 Terão vitórias aparentes como a lei de Herodes que, se não feriu O perseguido, conseguiu afastá-Lo; mas, por fim, serão eles os vencidos, pois a sentença já está pronunciada: “As portas do Inferno não prevalecerão”,4 e a Deus não faltam meios para alcançar as vitórias necessárias à defesa e à dilatação de Seu reino.

Com a morte de Herodes, o mundo respirou. Cessou então o motivo do afastamento da Sagrada Família; podia agora regressar à pátria. Diz o Evangelho que, morto Herodes, apareceu um Anjo, em sonho, a José e lhe disse: “Levanta-te, toma o Menino e sua Mãe e volta para a terra de Israel, porque morreram os que procuravam tirar a vida do Menino”.5

A tal aviso, São José, cheio de santo conforto, dispôs-se a abandonar o Egito.

Os Santos Esposos, com o seu Tesouro, puseram-se a caminho, contentes ao pensamento de poder ver de novo a cara pátria, os lugares cheios de santas memórias, onde haviam passado os anos mais belos de suas vidas, os parentes, as pessoas que lhes eram caras e a sua dileta Nazaré.

Diz São Boaventura que, nesta viagem, a pena de José e de Maria foi maior que na primeira, pois, contando Jesus agora perto de sete anos, já era pesado demais para ser levado nos braços; por outro lado, não podia ainda fazer por Si tão longa viagem. Por isso, o Menino via-se muitas vezes obrigado a deter-Se e a deitar-Se por terra, devido à fadiga. Maria e José deviam também deter-se até recobrar Jesus um pouco de alento para caminhar.

Contam alguns escritores, que a Sagrada Família, antes de chegar a Nazaré, passando pelo deserto, encontrou-se com São João Batista. Eis uma referência de quanto narra a tal respeito o dominicano Cavalca, célebre escritor do XIII século, em sua “Flor das vidas dos Santos Padres”.

No tempo em que se achava no deserto o pequeno João, o Anjo de Deus foi ao Egito anunciar a São José, que ali se encontrava havia quase sete anos, voltasse com a Mãe e o Filho para a sua terra. São José partiu e, passando pelo mencionado deserto, chegou à moradia de São João. Apenas este o viu, inspirado por Deus, conheceu-O e logo se encontraram. O Menino Jesus correu também para ele e, quando se achavam próximos, João se lançou por terra e beijou-Lhe os pés.

Jesus, porém, tomando-o pelos braços, ergueu-o, beijou-o e depois lhe deu a paz, dizendo: ‘A paz seja contigo, ó preparador da minha vida’. E João respondeu reverente: ‘Deo gratias’. Maria e José saudaram também o Precursor com muito amor. Ao partirem, João os acompanhou por longo espaço e, despedindo-se, regressou à sua moradia”.

Ao pisarem a terra de Canaã, bendisseram a Deus por haverem chegado felizmente a esse bom termo de sua viagem. Teriam desejado passar de novo por Belém, onde nascera Jesus, mas José, sabendo que na Judeia reinava Arquelau, ambicioso e cruel como seu pai Herodes, receou expor a novos perigos a vida do Menino.

É bem verdade que as almas devotas, possuindo, como São José, grande delicadeza de consciência, receiam sempre a desgraça de perder Jesus. Mas, infelizmente, tais almas são raras. Teme-se perder algo de agradável neste mundo, mas perder Jesus, isto é, a Sua amizade, a Sua graça, quantos nem pensam nisso! Mas, também desta vez, um Anjo do Senhor, para livrar o Santo de todo temor, apareceu-lhe ordenando-lhe fosse à Galileia.

Ali reinava Herodes Antipas, filho também de Herodes e desregrado como o pai, mas, sendo mais humano e desejoso de agradar aos súditos, concedia-lhes uma existência calma e tranquila. A Sagrada Família dirigiu-se, portanto, para a Galileia e se estabeleceu em Nazaré, a fim de cumprir-se a profecia sobre Jesus: “Será chamado Nazareno”, título que em sua morte foi afixado na Cruz.



Exclama São Francisco de Sales: “Feliz regresso àquelas ridentes colinas, àquele plácido céu, àquela terra, esmaltada de flores! Ali, Jesus, José e Maria entraram de novo como pacíficas pombas em seu ninho e como abelhas do Paraíso em sua colmeia, para produzirem mel suavíssimo de virtude”.

Apenas arranjada a humilde casa, São José retomou seus humildes trabalhos para sustentar a Sagrada Família, e também Maria Santíssima as suas santas ocupações. Jesus auxiliava, ora a São José, ora a Maria, segundo requeria o trabalho.

Se o pelicano ama os filhos ao ponto de alimentá-los com o próprio sangue, que dizer do amor de José e da aplicação com que procurava sustentar Jesus e Maria, a quem amava mil vezes mais que a Si mesmo?

Dionísio Cartusiano, célebre orador e escritor, diz que São José, com o suor de sua fronte e as fadigas de sua arte, tornou-se o coadjutor na grande obra da Redenção do mundo, suprindo, com o seu trabalho contínuo, ao necessário sustento de Jesus, Cordeiro divino, que devia ser imolado no altar da Cruz por nossa salvação.

As virtudes praticadas por São José na humilde arte, sejam-nos estímulo para uma vida santamente laboriosa. A seu exemplo, santifiquemos o nosso trabalho; nossas fadigas tornar-se-ão doces e leves. Em meio às nossas ocupações, repitamos frequentemente com os lábios e o coração, algum fervoroso desejo: Ó meu Jesus, tudo por Ti! Seja feita a Tua vontade! Meu Deus, perdoai-me! Meu Jesus, misericórdia!

Esses transportes de amor a Deus, serão para a nossa alma, fonte de muitas graças e um tesouro mais precioso que as pérolas e os corais. Realmente, a prece, se bem feita, transpõe em um instante a imensidade dos Céus, passa além das hierarquias dos Anjos, sobe até o trono do próprio Deus, e Deus a escuta.

Para alcançar a santidade, não é necessário realizar estrondosos sacrifícios, mas é indispensável possuir uma reta intenção em cada coisa. Somos, às mais das vezes, modestos operários, a tecer pacientemente a nossa teia sutil com o fio mais frágil que o das aranhas: uma palavra suave e consoladora, um ato de condescendência, um pouco de paciência, de tolerância, uma privação, um pequenino sacrifício, um ato de caridade, uma saudação, uma palha erguida do chão, o dom de um copo de água fresca, são coisas de nada, e, não acompanhadas pela reta intenção, verdadeiramente nada. Mas, quando a intenção cristã abençoa todas essas ações e as santifica; que diferença! Transformam-se em adornos para o Céu. Então, em vez de um trabalho sem valor algum, bordamos a ouro, a púrpura e esmeralda a teia que nos foi dado tecer no breve período de nossa vida.

Quer escrevamos, leiamos, trabalhemos, conversemos, compremos, vendamos: os nossos dias se sucedem e fogem no redemoinho do tempo. Sempre imersos nas mesmas ocupações, nenhum fato extraordinário nos conquistará um brilhante renome. Mas, não sendo chamados a ações esplendorosas, deveremos pois consumir inutilmente toda a vida? Toda a nossa vida será infrutuosa, inútil, se, com uma intenção inteiramente cristã, não convertermos em ouro a vil moeda.

O Céu não está ocupado somente por Paulos, por Franciscos Xavier, por Franciscos de Assis, mas por milhões de cristãos, que passaram sua vida entre nós, praticando virtudes tão humildes, tão modestas, de tão pouca aparência, que ninguém lhes percebia a santidade. Operavam tudo por Deus, em nome de Deus e para a glória de Deus, como fazia São José.

Se, portanto, com a reta intenção é fácil multiplicar os méritos, renovemo-la por um ato que abranja toda a vida, todas as ações.

_______________________________

Fonte: Rev. Pe. Tarcísio M. Ravina, da Pia Sociedade de São Paulo, São José – na Vida de Jesus Cristo, na Vida da Igreja, no Antigo Testamento, no Ensino dos Papas, na Devoção dos Fiéis e nas Manifestações Milagrosas; 1ª Parte, pp. 80-84. Edições Paulinas, Recife, 1954.

1.  Derramamento de líquido seroso em tecidos ou em cavidade do corpo.

2.  Afecção gotosa nos pés.

4.  Mat. 16, 18.

5.  Mat. 2, 19-20.


domingo, 8 de janeiro de 2023

COMO SE HÁ DE EVITAR A EXCESSIVA FAMILIARIDADE.


(De cavenda nimia familiaritate)1


1. Não abras o teu coração a qualquer pessoa2, mas trata das tuas coisas com homem sábio e temente a Deus. Com os moços e pessoas de fora conversa pouco.

Não bajules os ricos nem gostes de aparecer na presença dos poderosos.

Procura a companhia dos humildes e simples, dos piedosos e de bons costumes e com eles entretêm-te de coisas edificantes.

Não tenhas familiaridade com mulher alguma, mas, em geral, encomenda a Deus todas as mulheres de virtude.

Intimidade deseja somente com Deus e os Anjos; e evita ser conhecido dos homens.

2. Caridade, com todos; mas, familiaridade, não convém.

Acontece, não raro, que uma pessoa, de longe, brilhe com o esplendor da fama, mas de perto desmerece aos olhos dos que a veem.

Cuidamos às vezes de agradar aos outros com a nossa assiduidade, mas, com isto, lhes desagradamos pelos defeitos, que em nós vão descobrindo.

1ª Reflexão3

Um homem que se põe a caminho para fazer uma viagem, não perde jamais de vista o rumo para onde se dirige; assim deve fazer o cristão na viagem do tempo para a eternidade; deve usar das criaturas somente na medida em que elas o conduzam para Deus. Muitas vezes se começa bem e se acaba mal; pelo uso, chega-se ao abuso. Relações inocentes, começadas com boa intenção, mas continuadas e mantidas com pouca prudência, terminam em quedas miseráveis.

São muito raros os verdadeiros amigos: um amigo fiel é uma proteção forte; quem chega a encontrá-lo, encontra um tesouro.4

Vivemos em sociedade, forçoso é que tratemos uns com os outros, mas entre pessoas de sexo diferente importa que haja sempre a máxima cautela. Afasta os teus olhos da mulher enfeitada, e não te detenhas a examinar a beleza alheia; por causa da beleza da mulher muitos têm perecido; e dela se inflama a concupiscência, à maneira de um incêndio.5 Quem ama conscientemente a ocasião de pecar, ama o mesmo pecado. Quem ama o perigo perecerá nele.6 Importa evitar as más companhias: afastai-vos de mim todos vós, que praticais a iniquidade.7

Lembra-te que Nosso Senhor te deu os olhos só para veres o que é lícito ver-se, e não para que O ofendas. Quando abusas dos olhos, dos ouvidos, da língua, dos sentidos do corpo, dos afetos do coração e das potências da alma para ofenderes a Deus, és um ingrato, que voltas contra o teu Senhor os mesmos dons com que devias glorificá-Lo.

2ª Reflexão8

Havemos de prestar-nos aos homens, e só nos darmos a Deus.

Se no mundo a familiaridade é coisa de menos preço, nas coisas de Deus o demasiado trato com a criatura divide a alma e a enfraquece.

Não foi ela criada para a terra, senão para viver em mais alta morada. Nossa conversação é no Céu,9 diz São Paulo.

Enquanto, porém, vivemos com os homens, o melhor é ter geral afabilidade para com todos, e com nenhum particular familiaridade.

3ª Reflexão10

Eu falarei pouco e reto, a fim de que, a companhia antes volte com desejo de estar conosco, do que com tédio… Minha conversação será com poucos, bons e estimáveis, porquanto, é difícil ser bem sucedido com muitos, não aprender a corromper-se com os maus, e ser honrado com pessoas não estimáveis; especialmente guardarei este preceito: amigo de todos e familiar de poucos…

Todavia, há de se usar de franqueza mais ou menos, segundo forem as companhias… Aos superiores ou em idade, ou em profissão, ou em autoridade, deve-se fazer aparecer só o que é ótimo; aos semelhantes o que é bom; aos inferiores o que é indiferente… Pode-se, conversando com os superiores, os iguais e os inferiores, temperar por vezes a conversa com o que é ótimo, bom e indiferente, contanto que tudo se faça discretamente… Com os grandes deve-se estar como diante do fogo, isto é, convém muito às vezes chegar-se a eles, mas não muito perto demais.11

*Esta passagem é extraída das resoluções que São Francisco de Sales tomou para o tempo de seus estudos.

Oração

Meu Senhor Jesus Cristo, que permitistes ser três vezes negado em casa de Caifás pelo Príncipe dos Apóstolos, preservai-me das más companhias, a fim de que, o pecado nunca me separe de Vós. Amém.12

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1.  Imitação de Cristo, nova tradução portuguesa pelo Pe. Leonel Franca, S.J., Livro I, Cap. VIII, p. 19. 4ª Edição, Livraria José Olympio Editora, Rio de Janeiro/São Paulo, 1948.

2.  Eclo. VIII, 22.

3.  Imitação de Cristo, novíssima edição, confrontada com o texto latino e anotada por Monsenhor Manuel Marinho, Livro I, Cap. VIII, pp. 18-19. Editora Viúva de José Frutuoso da Fonseca, Porto, 1925.

4.  Eclo. VI, 14.

5.  Eclo. IX, 8-9.

6.  Eclo. III, 27.

7.  Salm. VI, 9.

8.  Imitação de Cristo, Presbítero J. I. Roquette, Livro I, Cap. VIII, p. 22. Editora Aillaud & Cia., Paris/Lisboa.

9.  Filip. III, 20.

10.  Imitação de Cristo, versão portuguesa por um Padre da Missão, Livro I, Cap. VIII, p. 19. Imprenta Desclée, Lefebvre y Cia., Tornai/Bélgica, 1904.

11.  São Francisco de Sales, Opusc. III.

12.  São Francisco de Sales, Opuscul. III.


sexta-feira, 6 de janeiro de 2023

A EPIFANIA DO SENHOR, OU, A FESTA DOS REIS.

(A Igreja Celebra a 6 de Janeiro)


A Epifania, que significa: aparição ou manifestação do Salvador ao mundo, foi sempre considerada como uma das festas mais célebres e mais solenes da Igreja, já por causa dos três Mistérios que estão compreendidos nesta solenidade, já porque se considera como festa peculiar da vocação dos gentios à fé. Celebrava-se no Oriente já no século III, e penetrou no Ocidente pelos fins do século IV.

Três Mistérios celebra a Igreja nesta única festividade por ser tradição antiquíssima, que sucederam no mesmo dia, ainda que não no mesmo ano: a Adoração dos Reis; o Batismo de Jesus, por São João; e o primeiro milagre, que o Salvador fez nas bodas de Caná da Galileia. Esta palavra grega Epifania, cujo significado é aparição ou manifestação, convém perfeitamente a todos estes três Mistérios.

Manifestou-se Jesus Cristo aos Magos, os quais, seguindo a estrela miraculosa, O vieram reconhecer por seu Rei, por seu Deus, por seu Salvador, e Rei, Deus e Salvador de todo o gênero humano; manifestou-se a sua Divindade no Batismo, por meio daquela voz do Céu, que a declarou; manifestou-se a sua Onipotência no primeiro milagre que fez. Por terem sido estes os principais meios de que Deus se serviu para manifestar na terra a glória de seu Filho, a Santa Igreja reúne-os todos três sob o nome de Epifania, embora seja a Adoração dos Reis o principal objeto do Ofício, da Missa e da Solenidade deste dia.

É muito provável, que ao mesmo tempo que os Anjos anunciavam aos pastores o Nascimento do Messias na Judeia, a nova estrela O anunciasse também no Oriente.

Esta estrela foi sem dúvida observada por muitos, porque o seu extraordinário resplendor e a irregularidade do seu curso a faziam distinguir entre todas as outras; porém, somente os Magos, esclarecidos por uma luz interior, conheceram o que significava aquele fenômeno, e nem um momento hesitaram em ir procurar Aquele que a estrela anunciava.

Os orientais chamavam Magos aos seus “doutores”, como os hebreus lhes chamavam “Escribas”, os egípcios “profetas”, os gregos “filósofos”, e os latinos “sábios”. A palavra Mago na língua persa também significa “sacerdote”.

Em todas estas partes eram sumamente respeitados pelo povo, que os tinha por depositários da ciência e da religião.

A Igreja dá o nome de Reis a esses três homens ilustres, fundada nas seguintes palavras de Davi: “Os reis de Tarsis e das ilhas, lhe oferecerão presentes; os reis da Arábia e de Sabá lhe trarão dons”,1 como penhor da sua veneração, fidelidade e obediência. Funda-se além disso numa tradição antiga, a que não se pode marcar época.

Pinturas antiquíssimas deste Mistério representam-nos pessoas coroadas, com todas as insígnias da dignidade real. Acrescente-se a isto os testemunhos dos Padres mais célebres da Igreja, como Tertuliano, São Cipriano, Santo Hilário, São Basílio, São João Crisóstomo, Santo Isidoro, São Bêda, Teofilato e muitos outros.

Além disso, as nações orientais, quando os reis eram eletivos, escolhiam-nos entre os filósofos, e se eram hereditários, procuravam instruir os príncipes nas ciências, de sorte que pudessem merecer o título de sábios. Assim o observa Platão, quando trata da educação dos príncipes da Pérsia, acrescentando que principalmente a astronomia era considerada como uma ciência digna dos soberanos.

Tendo os três, que alguns chamam Gaspar, Baltasar e Melchior, observado uma estrela mais brilhante que as ordinárias, julgaram que era aquela a estrela de Jacó, anunciada pelo profeta Balaão, cujas predições conheciam bem, como sinal de um rei que havia de nascer para a salvação dos homens.

Esclarecidos ao mesmo tempo por uma luz interior, pela qual conheceram que aquele astro havia de servir-lhes de guia para encontrar o Messias, tomaram o caminho da Judeia, onde sabiam que nasceria Aquele Rei tão desejado de todas as nações. O Evangelista diz-nos só que eles vieram doo Oriente, isto é, de um país que era oriental com relação a Jerusalém e a Belém. A opinião mais verossímil, é que vieram da Arábia-Feliz, habitada pelos filhos que Abraão teve de Cetura, sua segunda mulher, a saber: Jecsan, pai de Sabá, e Madian, pai de Efa.

Isto prognosticou Davi claramente quando disse: “Que o Messias seria adorado pelos reis dos Árabes, e de Sabá, os quais lhe ofereceriam ouro da Arábia”.

Isto mesmo tinha anunciado o profeta Isaías, dizendo: “Uma inundação de camelos te cobrirá, de dromedários de Madian e de Efa; todos virão de Sabá, trazendo ouro e incenso, e anunciando o louvor ao Senhor”.2

Não favorecem pouco esta opinião os presentes que os três monarcas ofereceram a Jesus, porque o ouro, o incenso e a mirra nascem principalmente na Arábia.

Foram guiados os Magos pela estrela durante toda a viagem. Ser-via-lhes de guia este novo astro, como outrora a Coluna de Fogo ia conduzindo os Israelitas pelo deserto, quando saíram da escravidão do Egito para a terra da promissão; mas quando os três reis se aproximaram de Jerusalém, a estrela desapareceu. Por essa razão entraram naquela cidade, para se informarem do lugar onde havia nascido o novo Rei que eles vinham adorar, e cuja estrela tinham visto. Grande espanto causou ver aqueles homens, vindos de país tão distante, perguntarem por um novo Rei dos Judeus, a quem os próprios judeus não conheciam, e cujo nascimento ignoravam inteiramente. Quem mais se assustou foi o rei Herodes, que quis vê-los, para se informar minuciosamente do motivo que ali os trazia.

Cioso da sua dignidade, e temendo perder a coroa, que indignamente possuía, mandou logo que comparecessem no palácio todos os sacerdotes e escribas da lei, isto é, aqueles que tinham obrigação de explicar ao povo as Escrituras, zelando a sua interpretação e vigiando para que não se introduzisse algum erro contrário ao seu verdadeiro sentido.

Bem conhecia ele que um rei, cujo nascimento o Céu anunciava com sinais tão extraordinários, não podia ser outro senão o Messias; e por isso, reunida a assembleia dos doutores, limitou-se a dirigir-lhes estas palavras: Dizei-me: onde há de nascer o Salvador? Todos, a um voz, responderam que em Belém, pequena cidade da tribo de Judá, segundo a profecia de Miqueias, quando assegura que a desconhecida povoação de Belém, não obstante a sua pequenez, teria a glória, de que foram privadas as cidades mais ilustres, de dar um Príncipe e um Governador geral a todo o povo de Israel. Não foi necessário mais nada para encher de perturbação o ânimo e o coração daquele ambiciosíssimo príncipe, cuja crueldade era igual à imensa ambição de que estava possuído.

Desde logo resolveu mandar matar Aquele Menino, e, chamando os Magos à parte, fez-lhes muitas perguntas capciosas. Rogou-lhes principalmente que o informassem com toda a exatidão do tempo em que lhes aparecera a estrela; e, reconhecendo neles muita piedade, e exortou-os a que prosseguissem na sua viagem.

Ide, lhes disse, ide a Belém, pois é lá que há de nascer o Rei prometido, o Libertador do seu povo; informai-vos de tudo o que respeita a esse Menino, e voltai à minha corte, onde vos fico esperando com impaciência, para que me participeis o que tiverdes observado; porque eu também quero ir adorar esse Divino Monarca”. Deste modo pretendia Herodes enganá-los artificiosamente, para os fazer cair no laço que lhes estava armando.

Logo que os Magos se despediram dele e retomaram o caminho, o Senhor lhes tornou a enviar o seu resplandecente guia. A estrela que tinha desaparecido, logo que entraram em Jerusalém, apareceu de novo, logo que saíram, e conduziu-os diretamente a Belém.

Não é fácil imaginar o gozo que inundou os corações dos Magos, quando viram de novo aquele astro, e sobretudo quando o viram deter-se sobre o humilde presépio onde estava o novo Rei. Entraram, e depararam com O que buscavam. Estava o Menino nos braços de Sua Mãe, e nenhum sinal exterior O diferenciava dos outros meninos. Contudo, a mesma luz interior, que lhes deu a entender o que significava a estrela, fez com que facilmente descobrissem através daquele exterior humilde, a Augusta Majestade e a Suprema dignidade d’Aquele Deus feito homem.

Cheios de fé e respeito, prostraram-se na Sua Presença e O adoraram como Senhor Soberano do Céu e da terra, e como Salvador dos homens, e, visto que era costume do seu país, não se apresentarem nunca diante dos grandes, com as mãos vazias, ofereceram-Lhe o que lá havia de mais precioso: ouro, incenso e mirra. Então se cumpriu à letra o que Davi predissera do Messias, quando disse: “Os reis da Arábia e de Sabá lhe trarão presentes”.

Tencionavam os Santos Reis voltar por Jerusalém, mas apareceu-lhes em sonhos um Anjo do Senhor, aconselhando-os a que seguissem outro caminho, e não retornassem a Herodes, cujos maus desígnios descobriram então.

Coisa estranha! Que os estrangeiros venham de países tão remotos adorar o Salvador do mundo, e que O não conheçam os judeus, no meio dos quais acaba de nascer! Poderiam ter eles indícios mais claros da Sua vinda? Mas de que serve a luz aos que são voluntariamente cegos? Quem terá a culpa, de que Herodes não lograsse a mesma dita que os Magos? Envia-lhe Deus três Príncipes estrangeiros para que lhe anunciassem o Nascimento do Salvador do mundo na Judeia; os seus próprios doutores instruem-no com toda a clareza sobre o lugar onde o Messias nasceu.

E que efeito produzem todas estas instruções, todas estas graças, num coração ambicioso, irreligioso, ímpio? A perturbação, a velhacaria e a crueldade. Um coração puro, um coração religioso, mal vê a estrela, põe-se logo a caminho para adorar O que ela anuncia. Uma alma toda mundana, um hipócrita, faz servir a religião à sua ambição, à sua avareza insaciável.

Como é bem verdade que sempre se encontra a Deus, quando de boa fé se procura! Se não houver estrela, nem por isso faltará guia; tudo depende da retidão das nossas intenções, e da sinceridade do coração. Só a nossa malícia é que apaga ou inutiliza a luz da graça. Inutilmente brilhará, se voluntariamente fechamos os olhos. O lugar do prazer nunca o foi da virtude. Apenas os Magos se retiraram da corte do ímpio Herodes, viram reaparecer a estrela que se lhes ocultara. A volta da graça sensível não é demorada por muito tempo, mas é preciso que não desanimemos, é preciso avançar sempre e perseverar até ao fim, imitando deste modo os Magos.

Nunca, porém, apareçamos diante de Deus com as mãos vazias. A caridade, a mortificação, a piedade, são oferendas muito do Seu agrado; um coração contrito e humilhado é sempre bem recebido.

Segundo a opinião mais comum entre os Santos Padres, os Magos chegaram a Belém treze dias depois do Nascimento do Salvador. Era tempo suficiente para virem da Arábia.

Quase todos os Padres dos primeiros séculos, são de opinião que a estrela era um astro novo, cujo resplendor, como diz Santo Inácio Mártir, excedia o de todos os outros, o qual Deus tinha criado para anunciar aos homens o Nascimento do Rei dos Céus. Finalmente, é tradição constante, que estes primeiros gentios que vieram adorar O verdadeiro Deus, eram verdadeiramente reis, isto é, príncipes soberanos de uma ou de muitas cidades, como eram os da Pentápolis.

Os mais célebres Padres da Igreja são de opinião, que o Batismo do Filho de Deus, o milagre da conversão da água em vinho, e a Adoração dos Magos, tiveram lugar no mesmo dia, posto que em anos diferentes. Por esta razão a Igreja reúne estes três Mistérios numa só festa, como uma tríplice Epifania ou Manifestação, celebrando: o dia em que Jesus Cristo se manifestou aos Magos por intermédio de uma estrela; o dia em que se manifestou a São João, pelo testemunho do Seu Eterno Pai; e o dia em que se manifestou aos Discípulos por meio do seu primeiro milagre.

Tão célebre tem sido, desde os primeiros séculos da Igreja, esta tríplice festa, que, achando-se Juliano, que depois foi cognominado o Apóstata, em Viena de França, no ano de 361, não se atreveu a deixar de assistir aos divinos ofícios deste dia; o Imperador Valente, ainda que Ariano, estando em Cesaréia de Capadócia no dia da Epifania, julgou-se obrigado a assistir à Missa, juntamente, com os fiéis, persuadido de que, se o não fizesse, o teriam por ímpio.

Discorramos agora somente sobre o primeiro destes Mistérios, deixando para os dias seguintes o falar dos dois restantes.

Pelo que diz respeito aos três Reis que tiveram a felicidade de vir adorar o Salvador do mundo, observaremos que é fácil compreender a abundância de graças e dons sobrenaturais, de que foram cumulados, assim como a viva fé, a ardente caridade, o zelo puro e generoso com que regressaram as suas casas, onde morreram santamente, depois de terem anunciado as maravilhas de que haviam sido testemunhas.

É por certo, que uma graça e vocação tão singulares, uma fidelidade tão generosa e tão exata, não podiam deixar de conseguir semelhante sorte. Assim o crê a Santa Igreja, permitindo o culto que publicamente se lhes presta.

Assegura-se, que as relíquias desses primeiros heróis do Cristianismo foram transportadas da Pérsia para a Igreja de Santa Sofia de Constantinopla.

Mais tarde foram transportadas para Milão, onde estiveram, segundo Galesino, 670 anos.

Finalmente, em 1163, Frederico Barbaroxa transladou-as para a Catedral de Colônia, onde se conservam ainda hoje com singular veneração. O relicário que encerra estes santos corpos é talvez o mais belo que há no mundo.

No dia da Epifania, em Roma, a multidão vai à igreja de Ara coeli, para celebrar esta festa que fecha o ciclo das festas do Natal. Sai uma procissão da igreja, que para sobre a escadaria, donde se domina a cidade de Roma. O celebrante sobe a um estrado e, em frente do Vaticano, cuja alta silhueta se vê ao poente, faz uma cruz sobre a cidade de Roma, com o “Menino” miraculoso, cuja graciosa imagem foi solenemente coroada a 2 de Maio de 1897.

Este Santo Menino, é feito de pau de oliveira e remonta ao ano de 1647. Foi esculpido em Jerusalém por um humilde frade Franciscano. Trazido depois a Roma, tornou-se objeto de muita veneração. Tem a sua carruagem, na qual é transportado a casa dos doentes, que desejam a sua visita.


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Fonte: Pe. Croiset, “Ano Cristão”, Vol. I, dia 6 de Janeiro, pp. 72-78. Traduzido do Francês e adaptado às últimas reformas litúrgicas pelo Pe. Matos Soares, professor do Seminário do Porto. Tip. “Porto Medico”, Ltda. Porto. 1923.

1.  Ps. 71, 10.

2.  Is. 60, 6.


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