BLOG CATÓLICO PARA OS CATÓLICOS.

BLOG CATÓLICO, PARA OS CATÓLICOS.

"Uma vez que, como todos os fiéis, são encarregados por Deus do apostolado em virtude do Batismo e da Confirmação, os leigos têm a OBRIGAÇÃO e o DIREITO, individualmente ou agrupados em associações, de trabalhar para que a mensagem divina da salvação seja conhecida e recebida por todos os homens e por toda a terra; esta obrigação é ainda mais presente se levarmos em conta que é somente através deles que os homens podem ouvir o Evangelho e conhecer a Cristo. Nas comunidades eclesiais, a ação deles é tão necessária que, sem ela, o apostolado dos pastores não pode, o mais das vezes, obter seu pleno efeito" (S.S. o Papa Pio XII, Discurso de 20 de fevereiro de 1946: citado por João Paulo II, CL 9; cfr. Catecismo da Igreja Católica, n. 900).

quinta-feira, 26 de agosto de 2021

SÃO JOSÉ NO NASCIMENTO DE JESUS.


Aproximava-se o dia em que a Virgem daria à luz o Salvador do mundo. Continuava Ela a viver com São José em Nazaré e não pensava em dirigir-se a outro lugar.

O Messias, porém, não devia nascer em Nazaré, mas em Belém, capital da tribo de Judá; e o Senhor serviu-se do Imperador romano, César Augusto, para realizar a profecia de Miquéias: “Belém… de ti nascerá o que será dominador em Israel”.

Efetivamente, diz o Evangelho que, aproximando-se o tempo em que devia nascer o Messias, o Imperador publicou em edito, ordenando a todos os chefes de família registrarem-se em suas próprias cidades.

José e Maria, sendo ambos descendentes do rei Davi, tiveram de dirigir-se a Belém para cumprir, com esse ato de obediência a César, os grandes desígnios do Rei do Céu, que desejava nascer na cidade de Davi, como fora predito e, calcar aos pés, ao nascer, a soberba do mundo com a mais profunda abjeção. Quão admirável é a Providência que, para seus santíssimos objetivos, serve-se algumas vezes de acontecimentos que parecem inteiramente estranhos e até contrários!

São José suportou com grande pesar a necessidade dessa viagem que expunha a muitos incômodos a sua Esposa, no rigor do inverno, por caminhos difíceis e infestados por numerosos inimigos. Mas não abriu os lábios; no edito de César, reconheceu a vontade de Deus e, com admirável resignação, não pensou senão em obedecer. A desobediência de Adão afastava os homens de Deus e a heroica obediência de José e de Maria devia preparar o caminho para o Salvador do mundo.

Os Santos Viajantes caminhavam, diz Ágreda, guiados pelo Eterno Pai, levando consigo o Tesouro do Céu; a corte celeste O venerava, as criaturas insensíveis reconheciam em Maria a Arca viva do Testamento, e milhares de Anjos os acompanhavam. Foram grandes as delícias e favores concedidos por Deus a São José e a Maria Santíssima naquela viagem. Maiores, porém, foram os aborrecimentos e penas que tiveram de suportar”.

Durante a viagem, falavam certamente do Messias, então único objeto de seus pensamentos, esperanças e amor. Com esses santos entretenimentos aliviavam a fadiga da viagem e antecipavam a consolação de ver o Verbo feito carne e gozar a sua amabilíssima presença.

Exclama a Bem-aventurada Verônica de Binasco: “Feliz o viandante que pode encontrar-se com Maria e José no caminho de Belém, e pode ver a Virgem-Mãe toda radiante de divina beleza; que pode contemplar o Esposo, caminhando a seu lado, completamente absorto em celestes pensamentos! Bem-aventurado quem saudou no caminho aos Santos viajantes e lhes pode prestar algum serviço!”

Chegados a Belém, após uma fatigante viagem de quase cinco dias, o primeiro cuidado de José foi o de apresentar-se ao pro-cônsul romano, para inscrever-se como estava ordenado no edito imperial. Depois, foi procurar alojamento para passarem a noite. A cidade estava cheia de gente e os ricos ocupavam as estalagens.

Em Belém, José e Maria tinham decerto parentes, e é provável que se tenham dirigido primeiro a eles, mas, por serem pobres, ninguém quis recebê-Los. Ao pedirem alojamento, ouviram responder: Não há mais lugar. Para José e Maria não houve lugar nem nas estalagens públicas, e assim se cumpriu à risca a passagem do Evangelho que diz: “O Filho de Deus veio para o que era seu, e os seus não O receberam”.

Ó Deus, que angústia para os Corações daquelas duas criaturas! Maria sentia-se próxima do parto: onde encontrariam um lugar para Jesus? Belemitas, se soubésseis quem são Aqueles que vos pedem alojamento, quem é Aquele que deseja entrar em vossa casa, como lhes abriríeis a porta de todo coração! Que pesar experimentou então São José! Aquelas recusas lhe transpassavam a alma com dor imensa, não por si, resignado a tudo e pronto a suportar toda privação e transtorno, mas por Maria. Pensava no Filho divino que dentro em pouco devia nascer e sentia despedaçar-lhe o Coração ao considerar a ingratidão dos homens, rejeitando Aquele que vinha para salvá-los.

Mas, também, entre tantas penas e dores, São José não perdeu a sua paciência; nem uma censura aos belemitas que o repeliam com tanta dureza; nem um pensamento de queixa sobre a ambição de César, causa de tantas penas. O Santo achava-se de alma firme na vontade de Deus e, superando todos os acontecimentos humanos que lhe causavam tantas tribulações, resignou-se perfeitamente ao divino beneplácito.

Perdida a esperança de encontrar alojamento em Belém, confiaram-se à Divina Providência; saíram em busca de um refúgio qualquer fora da cidade e, após longo caminho, achavam-no em campo aberto, na encosta de um monte e entraram para passar a noite.

Era uma espécie de estrebaria; servia de refúgio aos pastores e seus rebanhos em ocasiões de chuvas e nas noites de inverno.*

* Assim descreve Schouppe a cidade de Belém e a gruta onde nasceu Jesus:



Belém, berço de Jesus!” O doce nome de Belém é uma luz que nos mostra o Filho de Deus em sua humilde manjedoura, tendo ao lado Maria e José, augustos confidentes de seus Mistérios. Dezenove séculos se passaram e Belém está sempre ali, como sempre foi, apresentando ainda aos olhos do peregrino o mesmo aspecto que ofereceu aos olhos de José e de Maria: testemunho imperecível do Nascimento do Cristo, Belém nos repete todos os detalhes da Infância de Jesus, tão preciosos ao coração de quem possui fé.

A ilustre cidade de Judá se acha duas léguas ao sul de Jerusalém. Partindo desta cidade, o viajante percorre uma estrada rica em santas memórias. O campo semeado de verdejantes oliveiras, é doce e sorridente. De repente, encontra-se a torre de Simeão; ou seja, as ruínas de uma antiga casa onde habitava o velho Simeão, que recebeu nos braços o Menino Jesus. Um pouco adiante, vê-se uma árvore, venerada pelos peregrinos porque, segundo a antiga tradição, ao passarem Maria e José por aquele lugar no dia da Purificação, inclinou os ramos em respeito à Sagrada Família. Um terceiro monumento logo se apresenta, e é o poço dos reis, porque se julga que, ao chegarem ali, os Reis Magos viram reaparecer a estrela que os guiavam. Um quarto objeto é um rochedo, chamado rochedo de Elias, porque ali repousou o Profeta. Do alto desse rochedo, vê-se, de um lado Belém, onde nasceu o Salvador, de outro, Jerusalém, onde morreu crucificado, e o monte das Oliveiras, de onde subiu ao Céu.

Ao aproximar-se da cidade santa, sobre as colinas próximas da entrada, vê-se um túmulo entre as ruínas. É o túmulo de Raquel, de cuja profundidade se ergueu o lamentável clamor, de que fala São Mateus, por ocasião da mortandade dos Inocentes: “Ouviu-se uma voz nas alturas: prantos e grandes gemidos; é Raquel que chora seus filhos e recusa toda consolação, porque já não existem”. Antes de entrar na cidade, observam-se grutas e pobres habitações que servem de moradia aos pastores. A essa vista, diz o peregrino: Eis as grutas e estábulos, entre os quais José e Maria escolheram o abrigo a que chamamos “Gruta de Belém”.

A pouca distância da cidade, apresenta-se aos olhos um antigo mosteiro e, ao lado, a majestosa igreja da Natividade, que contém em seu recinto a Sagrada Gruta onde nasceu Jesus. A Igreja é vasta e bela, mas o que interessa é o lugar onde nasceu o Filho de Deus. Sob o altar, encontra-se o lugar onde Maria e José se encerraram depois de haver procurado em vão um abrigo junto aos belemitas. Eis, portanto, o estábulo de Belém! É uma cavidade rústica, transformada em magnífica capela, toda revestida de mármores preciosos, e iluminada noite e dia por 32 lâmpadas, devidas à magnanimidade dos príncipes cristãos. Mede 11 metros de comprimento por 4 de largura e pouco menos de altura.

No fundo, acha-se o lugar onde a Virgem deu à luz o Verbo Encarnado. Ali se percebe um mármore branco sobre o qual resplandece uma grande estrela de prata, ornada de pedras preciosas, com a seguinte inscrição: “Hic de Virgine Maria Jesus Christus natus est”. Aqui, da Virgem Maria, nasceu Jesus Cristo. Ao ver isso, os peregrinos se prostram a beijar e inundar com lágrimas a terra santificada por esses inefáveis Mistérios. Então, diz São Jerônimo, a língua emudece e só o coração fala com suspiros de amor e lágrimas de devoção. Sobre o Sagrado lugar indicado pela estrela, acha-se uma mesa de mármore que serve de altar, e, alguns passos adiante, vê-se um berço de mármore figurando o verdadeiro berço de madeira, o Santo Presépio, que se conserva em Roma na Basílica de Santa Maria Maior.

Se o devoto peregrino, após ter extravasado seu coração diante do Presépio, volta para trás o olhar, vê um altar, que indica o lugar onde os Reis Magos, conduzidos pela estrela até a Gruta de Belém, e tendo achado o celeste Menino, prostrados O adoraram, oferecendo-Lhe os seus dons. Junto à Gruta, existe outra capela subterrânea, na qual, segundo a tradição, foram lançados os corpos dos Santos Inocentes, mortos por ordem do hipócrita Herodes.

Ali nascerá o Criador do mundo, o Rei dos séculos, o Salvador dos homens. Assim quis Deus, assim foi predito pelos Profetas; seja sempre feita a vontade de Deus.

Mas onde acomodarão Maria e José o Infante por nascer? Como O defenderão do frio? Com que O aquecerão?… Também a isso Deus providenciará.

Eis uma manjedoura (comedouro) para os animais: será o seu berço. Um boi e um jumento aquecê-lO-ão com o seu hálito.

Aproximava-se o instante do grande Nascimento. Nenhum rumor externo perturbava a quietude da meia-noite.

José e Maria, prostrados na mais profunda reverência, achavam-se absortos na contemplação do grande Mistério que estava para realizar-se.

De repente, um improviso esplendor ilumina a mísera choupana, mais do que se fosse iluminada por uma centena de sóis; enche-a uma melodia toda celestial; a tenebrosa caverna é transformada em um Paraíso ao aparecimento do Sol de Justiça.

Nasceu o Salvador do mundo.

Era, segundo se crê, a meia-noite de 25 de dezembro, do ano quatro mil da criação do mundo e 747 de Roma.

José não pode conter a alegria que lhe inunda o Coração. Ajoelhado diante do Menino, adora-O, fala-Lhe mais com o Coração que com os lábios; depois, envolve-O em faixas e O coloca na manjedoura.*

Recorda-nos uma piedosa tradição que, no momento exato em que o Menino abriu os olhos à luz, a Virgem Maria, cingida por uma auréola dourado, apareceu ao imperador Augusto. Este, em memória de tal acontecimento, mandou erigir no Capitólio um altar, por ele chamado ARA COELI. Esta visão é confirmada por muitos historiadores, e em Roma, no templo chamado de Sancta Maria in Ara Coeli, conserva-se, sob o túmulo de Helena, um altar, a cujos lados se acha esculpida a figura da Mãe de Deus tendo no braço o Menino, radiante como o sol, altar que se julga mandado erigir por Augusto.

Diz São Bernardo: “Nenhuma língua humana seria capaz de descrever os sentimentos de São José junto ao Menino Jesus e nem um Anjo poderia dizer a felicidade do Santo Patriarca, quando Maria, desejando tornar menos rude o lugar de repouso do Divino Menino, colocou-O nos braços de São José. Ele O recebeu, de joelhos em terra, das mãos da Augusta Virgem, estreitou-O ao Coração com inexprimível amor e respeito, banhou-O de lágrimas, cobriu-O de beijos, ofereceu-O ao Eterno Pai como resgate de seu povo, esperança e alegria de Israel”.

Oh! Quanto se julgou venturoso o humilde filho de Davi! Mais rico que seus antepassados, possuía, no meio de tanta pobreza, o mais precioso Tesouro do Céu; sua glória eclipsava toda a de sua estirpe. Podia contemplar com seus olhos, apertar ao Coração Aquele Emanuel, que Davi saudava de longe, com acentos proféticos, como seu Senhor e seu Deus.

Em meio a tantas consolações espirituais, não faltaram ao Coração de José espinhos pungentíssimos. Que pesar experimentou, ao contemplar os delicados Membros envoltos em pobres panos, expostos ao frio, jazendo na palha! Mas esses penosos pensamentos se transformaram em santa resignação ao Divino beneplácito; e também essa prova, que lhe devia ser bastante penosa, tornou-lhe a alma ainda mais livre e mais santa.

De certo que o Menino se achava mais satisfeito entre os braços de um Pai tão Santo, que em um berço guarnecido de ouro e prata. Na falta de tanto aparato exterior, São José prodigalizava ao Menino os mais vivos afetos de coração; e em tais incumbências, diz Gerson, a graça cresceu imensamente em seu Coração pelas carícias feitas ao Santo Menino e pelas que recebeu em correspondência.

Exclama São Francisco de Sales: “Grande Deus, que coração bom e reto não possuía São José, se o Senhor o cumulou de tantos favores, confiando a seu amor e cuidados a Mãe e o Filho! Assim o tornou certamente objeto digno de inveja perante o Céu e os Anjos, pois não se encontra criatura alguma, nem na terra nem no Céu, que seja comparável à Rainha dos Anjos. Peçamos a este casto Santo, que acariciou e serviu com tanto afeto ao nosso Divino Salvador, faça-nos participantes de sua santa ternura, que tanto se alegra em desapegar-nos o coração das afeições terrenas e em nos fazer crescer no amor a Jesus Cristo. E quando contemplamos a Jesus entre os braços do Santo Patriarca, a Ele supliquemos que nos conceda, pelos seus méritos todas as graças de que necessitamos. Viva Jesus, viva Maria, viva São José, pai adotivo de nossa vida”.


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Fonte: Rev. Pe. Tarcísio M. Ravina, da Pia Sociedade de São Paulo, São José – na Vida de Jesus Cristo, na Vida da Igreja, no Antigo Testamento, no Ensino dos Papas, na Devoção dos Fiéis e nas Manifestações Milagrosas; 1ª Parte, pp. 51-58. Edições Paulinas, Recife, 1954.


quarta-feira, 25 de agosto de 2021

DO ESCÂNDALO DA IMPUDICÍCIA E SUAS CONSEQUÊNCIAS.


A impudicícia1 ultraja a Deus em suas obras


Em que consiste a beleza do corpo, senão em terra e lama, ou algo ainda mais hediondo? Se vos recusais a acreditar no que digo, verificai as sepulturas dos homens; a lama e a poeira mostrar-se-ão aos vossos olhos. Quando o rosto humano é despojado da vida deste mundo, então a realidade aparece; ou mesmo antes da morte, quando chega a velhice, quando a doença acomete o homem, o que aparece? Lama. Mas Deus, como hábil operário, desta vil matéria (do corpo) fez nascer uma beleza que confunde, não para incitar-nos à impudicícia, mas para dar-nos uma prova de sua ciência. Não ultrajeis o operário (Deus), e não façais da obra da sua habilidade (do corpo humano) um motivo de devassidão e mal proceder. Admirai a beleza (do corpo) para glorificar o seu Criador. Não vades além. Não procureis nela (na admiração do corpo) um incentivo para a paixão. A obra é bela; é preciso, pois, adorar Aquele que a produziu, cumpre não ofendê-lO. Se alguém, colocado na presença de uma estátua de ouro, de uma efígie imperial, a sujasse de lama e de outras imundícies, não seria punido com o extremo suplício? Quando, pois, uma conduta irrefletida no domínio das coisas humanas expõe a tão grande castigo, que não terá de sofrer aquele que falta com o respeito para com a obra de Deus?2



A impudicícia é uma ingratidão

para com o Redentor


Vós sois os membros de Cristo, vós sois o templo do Espírito Santo. Não vos torneis, pois, os membros de uma cortesã. Não é, então, vosso corpo que é ultrajado, pois esse (corpo) não vos pertence, mas ao Cristo. Ele o disse para manifestar que nos ama, visto ter feito Seu o nosso corpo (pela sua Encarnação e pelo nosso Batismo), e para subtrair-nos ao poder da prevaricação. Pois, se vosso corpo não vos pertence, não tendes o poder, diz Ele, de ultrajar um corpo que não vos pertence, sobretudo se ele é do Senhor, nem de sujar o templo do Espírito Santo (pela imoralidade). Se alguém se introduz numa residência particular e aí passa a conduzir-se de maneira indecente, será severamente punido; pensai a que castigo se expõe aquele que faz do templo do rei o covil de um bandido? Pensai, pois, nisso, e respeitai (o corpo humano): Aquele que habita em vós, é o Paráclito; temei Aquele que está como que enlaçado convosco e ligado a vós: é o Cristo. Não fizestes de vós um membro de Cristo (pelo Batismo)? Lembrai-vos (e que isto vos faça perseverar na castidade) de quem eram esses membros (antes do Batismo) e de quem são hoje. Eles eram de uma cortesã, e o Cristo fez deles os membros do seu próprio Corpo. Doravante, pois, já não tendes o poder de dispor deles; servi Aquele que vos libertou.

Imaginai que tendes uma filha e que, num acesso de loucura, a tenhais alugado a um indivíduo promovedor de libertinagem, que tenhais feito dela uma prostituta; se um filho do rei, ao passar, a liberta desta servidão e a toma por companheira, não tendes mais o poder de conduzi-la à casa de prostituição; de uma vez por todas, ela está dada e vendida. Tal é o nosso caso; tínhamos alugado nossa carne ao Adversário (pelo Pecado Original), funesto insuflador de libertinagem; o Cristo, vendo tal espetáculo, libertou-a (pelo Sacrifício da Cruz) e livrou-a desta horrenda tirania; ela, pois, já não pertence a nós, ela pertence a seu Libertador. Se quereis tratá-la como a uma esposa real (pelo Matrimônio legal), ninguém vos impede de fazê-lo, mas se quiserdes fazê-la mergulhar novamente na vida de antes (na impudicícia), sofrereis a pena merecida pelo cometimento de semelhantes ultrajes.3



Contra a faceirice provocante das mulheres


Em nome de quê, poderemos excluir uma Moça da classe das mulheres perdidas (imorais) e de seu convívio, se o seu proceder é igual ao delas, se abusa, como elas (através da sedução), do coração dos jovens, se rivaliza com elas em petulância e despudor, se manipula os mesmos venenos (da sedução), enche as mesmas taças (do jogo sensual), prepara a mesma cicuta (o mesmo convite à perdição)?4 Ela (a Moça) não diz, certamente: “Vem, embriaguemo-nos de amor”5, nem “Perfumei a minha cama com mirra, aloés e cinamomo”6. Oxalá fosse realmente a tua cama, e não as tuas vestes (indecentes) e o teu corpo (com andares provocativos)! As mulheres perdidas escondem suas seduções na sua morada; tu (Moça), vais por toda a parte armando ciladas (com as tuas seduções), passeias pela praça pública dando rédeas soltas à volúpia (à luxúria). Mas, se nada disseste, se não proferiste como a prostituta: “Vem, embriaguemo-nos de amor”, se não o fizeste com os teus lábios (falando), fizeste-o com as tuas atitudes (imorais); tua boca não disse nada, mas teu andar (provocativo) falou; tua voz não chamou, mas teus olhos (libertinos) chamaram com mais clareza que a voz.

Se, depois de teres chamado, não te deste (apenas provocando), não está por isto isenta de culpa. Trata-se de uma fornicação de outra espécie. Permaneceste pura corporalmente, mas não quanto à alma; a falta foi por ti consumada inteiramente, senão pelos contatos carnais, pelo menos pelos olhares. E, diz-me, por que chamas os passantes (com as tuas provocações sensuais)? Por que acendes a chama do desejo? Como julgas estar pura de pecado, se és a causa de que ele seja inteiramente cometido? Daquele que se deixou levar pelas tuas artimanhas, fizeste um perfeito adúltero; como, pois, se tua obra está maculada pelo adultério, não serias tu mesma adúltera?7


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Fonte: O Esplendor Cristão”, Vol. I, Segunda Parte, Cap. II, pp. 62-64. Ação Carismática Cristã, Fundação São João Crisóstomo, Rio de Janeiro, 1978.

1.  Falta de pudor, de moral; imoralidade, indecência; falta de honra; desonestidade.

2.  São João Crisóstomo, “Comentário sobre o Salmo XLIII, 9”.

3.  São João Crisóstomo, “XVIII Homilia sobre a 1ª Epístola aos Coríntios, 2”.

4.  Planta venenosa, e também o poderoso veneno dela extraído.

5.  Prov. 7, 18.

6.  Prov. 7, 17.

7.  São João Crisóstomo, “As Mulheres Consagradas a Deus não Devem habitar com Homens”, 1.


terça-feira, 24 de agosto de 2021

DOS ADMIRÁVEIS EFEITOS DO AMOR DIVINO.


1. Alma Fiel. Bendito sejais, Pai do Céu, Pai do meu Senhor Jesus Cristo, por Vos haverdes dignado lembrar-Vos de mim, pobre criatura.

Pai das misericórdias e Deus de toda consolação,1 graças Vos dou porque, apesar de minha indignidade, me confortais algumas vezes com as vossas consolações.

Sede para todo sempre bendito e glorificado com o vosso Filho Unigênito e o Espírito Santo Consolador, por todos os séculos dos séculos.

Meu Deus e Senhor, Santo Amigo de minha alma, quando descerdes ao meu coração, de alegria exultarão as minhas entranhas.

Sois a minha glória e o júbilo de minha alma. Esperança minha e meu refúgio no dia da tribulação.

2. Mas porque ainda é fraco o meu amor e imperfeita a minha virtude, preciso ser por Vós fortalecido e consolado; visitai-me, pois, Senhor, mais vezes e ensinai-me a vossa santa doutrina.

Livrai-me das paixões más, e curai meu coração de todas as afeições desregradas, para que sarado e purificado interiormente me torne apto para amar, forte para sofrer, firme para perseverar.

3. Grande coisa é o amor! Bem verdadeiramente inestimável. Só ele torna leve o que é pesado e suporta com igualdade de alma todas as desigualdades da vida. Leva a sua carga sem lhe sentir o peso e torna doce e saboroso tudo o que é amargo.

O amor generoso de Jesus impele a grandes cometimentos e excita-nos sempre ao mais perfeito.

O amor aspira a elevar-se e não se detém em coisas baixas.

O amor deseja ser livre e desembaraçado de toda afeição mundana para que o seu olhar penetre até Deus sem obstáculos e não seja retardado por nenhum bem nem abatido por nenhum mal da terra.

Nada mais doce que o amor, nada mais forte, nada mais sublime, nada mais amplo, nada mais delicioso, nada mais perfeito nem melhor no Céu e na terra; porque o amor vem de Deus e só em Deus, acima de todas as criaturas, pode descansar.

4. Quem ama corre, voa, vive alegre, é livre e nada o embaraça.

Dá tudo para possuir tudo e tudo possui em todas as coisas, porque sobre todas descansa no Único Sumo Bem, do qual dimanam e procedem todos os bens.

Não considera os dons, mas Aquele que os dá e O prefere a todos os bens.

O amor muitas vezes não conhece medida; a toda medida excede o seu ardor.

Nada lhe pesa, nada lhe custa; quer mais do que pode, não alega impossibilidades, porque julga que tudo lhe é possível e permitido.

Por isso tudo pode, realiza e leva a termo muitas coisas que esmorecem e prostram a quem não ama.

5. O amor está sempre vigilante e ainda no sono não dorme.

Nenhuma fadiga o cansa, nenhuma angústia o oprime, nenhum terror o amedronta; como chama viva e labareda ardente irrompe para o alto e passa livre.

Quem ama compreende o brado do amor. Bem alto clama aos ouvidos de Deus o afeto da alma abrasada que diz: “Meu Deus! Meu amor! Sois todo meu, e eu, todo vosso”.

6. Dilatai-me no amor para que eu aprenda a saborear no fundo do coração como é doce amar, e a derreter-me e nadar no vosso amor.

Empolgue-me o amor e eleve-me acima de mim mesmo nos transportes de seu enlevo.

Entoe o cântico do amor; siga-Vos nas alturas, Amado de minha alma, e em júbilos de amor desfaleça nos vossos louvores.

Ame-Vos mais que a mim; e a mim não ame senão por Vós, e em Vós ame todos os que deveras Vos amam, como ordena a lei do amor que de Vós irradia.

7. O amor é pronto, sincero, piedoso, alegre e afável, forte, sofredor, fiel, prudente, magnânimo, varonil e nunca busca a si mesmo, porque desde que alguém busca a si mesmo cessa logo de amar.

O amor é circunspecto, humilde e reto; sem moleza, sem leviandade nem preocupação de coisas vãs; sóbrio, casto, perseverante, tranquilo e recatado na guarda de todos os sentidos.

O amor é submisso e obediente aos superiores, vil e desprezível aos próprios olhos, dedicado e agradecido a Deus; n’Ele sempre confia e espera ainda quando não lhe saboreia as consolações, porque sem dor não se vive em amor.

8. Quem não está disposto a sofrer tudo e a fazer sempre a vontade do Amado não merece o nome de amante.

Quem ama deve por amor do Amado abraçar com prazer tudo o que há de mais duro e amargo, e dele não se separar por nenhuma contrariedade.2

1ª Reflexão3

Do decurso da vida humana, o amor e o sofrimento são duas coisas inseparáveis: quem ama verdadeiramente a Deus e ao próximo, não põe dúvida em sofrer. As ações que nascem de um amor puro exaltam a quem as pratica e atraem as bênçãos de Deus. O pai e a mãe que amam seus filhos, trabalham cuidadosamente em educá-los, segundo os Preceitos da Lei Divina: sofrem muitas vezes o rigor das estações, sujeitam-se a penosas fadigas, dia e noite; quase se esquecem de si próprios para só pensarem nos entes queridos, que a Providência confiou à sua guarda.

O mestre que se interessa pelo adiantamento do seu discípulo, não se poupa a sacrifícios, para lhe formar o espírito na ciência e o coração na virtude.

Em todos os ramos da atividade humana, quem quer conseguir os fins emprega de boa vontade os meios indispensáveis. Porque é que o lavrador se fadiga a semear e cultivar os seus campos? Porque deseja colher um dia os frutos do seu trabalho. Jesus Cristo veio para nós, sofrendo; nós havemos de ir para Ele, sofrendo com resignação cristã. O amor verdadeiro é fecundo em boas obras.

O meu preceito é que vos ameis uns aos outros, conforme eu vos amei. Ninguém pode mostrar maior amor do que aquele que dá a própria vida pelos seus amigos. Vós sereis os meus amigos se fizerdes o que eu vos mando”.4

Temos uma condição a cumprir, desde que queiramos entrar na amizade de Jesus Cristo: é mostrar em obras o nosso amor; é cumprir os Preceitos, que Ele nos impõe. O amor de Deus é por sua natureza difusivo e operativo; não sabe estar ocioso. Contemplai a vida de um São Vicente de Paulo, de um São João de Deus, de uma Santa Teresa de Jesus e dos outros Santos e Santas, e vereis quão admiráveis são os frutos que o divino amor é capaz de produzir.

O amor suaviza todas as amarguras.

2ª Reflexão5


"Deus é amor, e quem permanece no amor permanece em Deus, e Deus nele”.6

Mas o amor tem seus tempos de prova, como seus momentos de gozo; e esta vida transitória deve ser contínuo exercício de amor, ou a consumação de um grande sacrifício, cujo prêmio será uma vida eterna ou um amor imudável.

Todos os caracteres da caridade, enumerados por São Paulo, nos recordam a ideia de sacrifício; e o mesmo amor infinito não pode manifestar-se plenamente a nós senão por um sacrifício infinito: “Deus amou por tal modo o mundo, que deu por ele seu Filho Único”.7

E nosso amor para com Deus não pode tampouco manifestar-se senão por um sacrifício, não igual, o que seria impossível, mas semelhante pelo dom de todo nosso ser ou uma perfeita obediência de nosso espírito, de nosso coração e de nossos sentidos, à vontade d’Aquele que tão extremosamente nos amou.

Então se verifica aquela união inefável que, na sua última hora, pedia Jesus Cristo a seu eterno Pai operasse entre Ele e a criatura resgatada. Enquanto a natureza viver ainda em nós, alguma coisa nos separa de Deus e de Jesus, e o amor de Jesus nos aperta que acabemos o sacrifício, e pronunciemos aquela última palavra que o mundo não compreende, mas que regozija o Céu: “Tudo está consumado”.8

Quando tu as pronunciarás, alma minha, estas palavras decisivas!

3ª Reflexão9

Dois principais exercícios temos de nosso amor para com Deus: um afetivo, outro efetivo, ou, como diz São Bernardo, ativo. Por aquele, amamos a Deus e o que Ele ama; por este, servimos a Deus e fazemos o que Ele nos manda; aquele, nos une à vontade de Deus; este, nos faz executar sua vontade; um, nos enche de complacência, de benevolência, de anelos, de desejos, de suspiros e de ardores espirituais, fazendo-nos praticar as sagradas infusões e misturas de nosso espírito com o de Deus; o outro, infunde em nós a sólida resolução, a firmeza de coragem e a inviolável obediência requerida para efetuar as ordenações da vontade de Deus e para sofrer, aceitar, aprovar e abraçar tudo quanto provém de seu beneplácito: um, nos faz comprazer-nos em Deus; o outro, nos faz agradar a Deus: por um, nós concebemos; pelo outro, nós produzimos: por um, pomos nós a Deus sobre nosso coração, como um estandarte de amor, sob o qual se ordenam todos os nossos afetos; pelo outro, nós O pomos em nosso braço, como uma espada de dileção, pela qual fazemos todos os rasgos de virtude.10

Ó meu caro Teótimo! Como a força deste grande amor de Deus sobre todas as coisas, deve ter uma grande extensão! Deve ele exceder todas as afeições, vencer todas as dificuldades e preferir a honra da benevolência de Deus a todas as coisas: mas eu digo, a todas as coisas absolutamente, sem exceção nem reserva alguma; e digo assim com um tão grande cuidado, porque se acham pessoas que corajosamente deixariam os bens, a honra e a própria vida por Nosso Senhor, as quais entretanto não deixariam por amor d’Ele alguma outra coisa de muito menor consideração.11

O amor é forte como a morte:12 pela morte a alma separa-se do corpo e de todas as coisas do mundo; pelo amor santo, a alma do cristão separa-se de seu corpo e de todas as coisas do mundo: e não há outra diferença, senão, que a morte faz sempre efetivamente o que o amor faz ordinariamente por seu afeto. Digo ordinariamente, porque às vezes o amor sagrado é tão violento, que efetivamente causa a separação do corpo e da alma, fazendo morrer os Santos possuídos do amor divino; morte muito e muito feliz, que vale mais que cem vidas.


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1.  II Cor. I, 3.

2.  Imitação de Cristo, Livro III, Cap. V, pp. 96-99. Tradução do Pe. Leonel Franca, S.J., 4ª Edição, Livraria José Olympio editora, Rio de Janeiro/São Paulo, 1948.

3.  Imitação de Cristo, Livro III, Cap. V, pp. 142-143. Novíssima Edição, por Mons. Manuel Marinho, Editora Viúva de José Frutuoso da Fonseca, Porto, 1925.

4.  Jo. XV, 12-24.

5.  Imitação de Cristo, Presbítero J. I. Roquette, Livro III, Cap. V, pp. 1167-168. Editora Aillaud & Cia., Paris/Lisboa.

6.  I Jo. IV, 16.

7.  Jo. III, 16.

8.  Jo. XIX, 30.

9.  Imitação de Cristo, versão portuguesa por um Padre da Missão, Livro III, Cap. V, p. 147-148. Imprenta Desclée, Lefebvre y Cia., Tornai/Bélgica, 1904.

10.  S. Francisco de Sales, “Trat. do Amor de Deus”, L. VI.

11.  S. Francisco de Sales, “Trat. do Amor de Deus”, L. X, c. XIII.

12.  Cânt. VIII, 6.


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