CARTA DO ALÉM
Ou,
passo-a-passo
para
a condenação eterna.
*Este
opúsculo é a transcrição fiel de outro opúsculo intitulado
CARTA DO ALÉM, outrora
impresso por Artes Gráficas Armando Basílio (Rua Júlia Lopes de
Almeida, 16 – Rio de Janeiro) e distribuído pela Livraria Clássica
Brasileira (Rua 1º de Março, 147, 2º andar – Rio de Janeiro), e
que traz no verso de sua primeira capa estes assentamentos:
“Imprimatur do original
alemão: Brief aus dem jenseits: Treves, 9/11/1953, N. 4/53.
Aprovação Eclesiástica deste opúsculo: Taubaté – Est. De São
Paulo – 2/11/1955”.
À
Guisa de Prefácio
Com
os homens Deus se comunica por muitos modos. Além de ser a própria
Sagrada Escritura a Carta Magna de Deus aos homens, escrita e
transmitida por homens autorizados, narra ela muitas comunicações
divinas feitas por visões, inclusive sonhos. Deus continua a
prevenir, ainda, por sonhos. É que sonhos não são sempre meros
sonhos sem base.
A
Carta do Além transcrita abaixo conta a história da
condenação eterna de uma jovem. À primeira vista, parece uma
história bastante romanceada. Bem consideradas, porém, as
circunstâncias, chega-se à conclusão de que ela não deixa de ter
o seu fundo histórico, como base do seu sentido moral e do seu
alcance transcendental.
A
carta em apreço foi encontrada, tal qual, entre os papéis de uma
freira falecida, amiga da jovem condenada. Relata a freira os
acontecimentos da existência da companheira como fatos históricos
sabidos e verificados, e sua sorte eterna comunicada em sonho. A
Cúria Diocesana de Treves (Alemanha) autorizou sua publicação como
sumamente instrutiva.
A
Carta do Além apareceu primeiro em livro de revelações e
profecias, juntamente com outras narrações. Foi o Revmo. Padre
Bernhardin Krempel, C.P., Doutor em Teologia, quem a publicou em
separado e quem lhe emprestou mais autoridade, provando-lhe, nas
notas de pé de página, a absoluta concordância com a Doutrina
Católica sobre o assunto.
No
Apêndice seguem alguns esclarecimentos complementares sobre o
Inferno. O primeiro ponto assinala dois trabalhos literários que por
caminhos diferentes chegam à mesma conclusão: que o Inferno deve
existir e que de fato existe. Nos seguintes pontos expõe-se
sumariamente quais são os que trilham o caminho do Inferno e quais
os meios que temos à mão para nos salvar do maior perigo da vida,
de cair no Inferno. Assim termina o Opúsculo, menos alarmante e mais
conciliatório.
O
Tradutor.
Informações
Preliminares
Entre
os papéis deixados por uma jovem que morreu num Convento como
freira, foi encontrado o seguinte depoimento:
“Tinha
eu uma amiga. Quer dizer, éramos mutuamente achegadas como
companheiras e vizinhas de trabalho no mesmo escritório M.
Quando
mais tarde Âni se casou, nunca mais a vi. Desde que nos
conhecêramos, reinava entre nós, no fundo, mais amabilidade do que
amizade
Por
isso, eu sentia dela pouca falta, quando, após seu casamento, ela
foi morar no bairro elegante das vilas, bem longe do meu casebre.
Quando
no outono de 1937 passei minhas férias no lago Garda, minha mãe
escreveu-me, em meados de setembro: ‘Imagine, Âni N. Morreu. Num
desastre de automóvel perdeu a vida. Ontem foi enterrada no
cemitério do Mato’.
Essa
notícia me espantou. Sabia eu que Âni nunca fora propriamente
religiosa. Estava ela preparada, quando Deus a chamou de repente?
Na
outra manhã assisti na Capela da Casa do Pensionato das Irmãs, onde
eu morava, à Santa Missa em sua intenção. Rezava fervorosamente
por seu descanso eterno e nessa mesma intenção ofereci também a
Santa Comunhão.
Mas
o dia todo eu sentia um certo mal-estar, que foi aumentando mais
ainda pela tarde.
Dormia
inquieta. Acordei de repente, ouvindo como que sacudida a porta do
quarto. Liguei a luz. O relógio, no criado-mudo, marcava meia-noite
e dez minutos. Nada, porém, eu podia ver. Nenhum barulho havia na
Casa. Apenas as ondas do lago Garda batiam, quebrando-se
monotonamente, no muro do jardim do Pensionato. De vento, nada eu
ouvia.
Tinha
eu, todavia, a impressão de que ao acordar, eu tivesse percebido,
além das batidas na porta, um ruído como que de vento, parecido ao
do meu chefe de escritório, quando mal-humorado me atirava uma carta
amolante sobre a escrivaninha.
Refleti
um momento, se devia levantar-me.
Ah!
Tudo não passa de cisma, disse-me resoluta. Não é senão produto
de minha fantasia sobressaltada pela notícia da morte.
Virei-me,
rezei alguns Pai Nossos pelas Almas, e adormeci de novo.
Sonhei
então que me levantava de manhã às 6 horas, indo à Capela da
Casa. Quando abri a porta do quarto, dei com o pé num maço de
folhas de carta. Levantá-las, reconhecer a escrita de Âni e dar um
grito, foi coisa de um segundo.
Tremendo,
segurei as folhas nas mãos. Confesso que fiquei tão apavorada, que
nem podia proferir o Pai Nosso. Fiquei presa de uma quase sufocação.
Nada melhor que fugir dali e ir-me para o ar livre. Arranjei malmente os cabelos, pus a carta na bolsa e saí às pressas de casa.
Fora,
subi o caminho que seguia tortuoso para cima, por entre oliveiras,
loureiros e quintas de vilas, e para além da mundialmente célebre
estrada Gardesana.
A
manhã despontava radiante. Nos outros dias eu parava a cada cem
passos, encantada pela magnífica vista que me ofereciam o lago e a
magnificamente bela ilha Garda. O suavíssimo azul da água
refrescava-me; e como uma criança olha admirada para o avô, assim
eu olhava sempre admirada de novo o cinzento monte Baldo, que se
ergue na margem oposta do lago, crescendo de 64 m acima do nível do
mar até 2.200 m de altura.
Hoje
eu não tinha olhos para tudo isso. Depois de caminhar um quarto de
hora, deixei-me cair maquinalmente sobre um banco encostado entre dois
ciprestes, onde, no dia anterior, eu tinha lido prazerosamente A
Donzela Teresa. Pela primeira vez eu via nos ciprestes símbolos da
morte, coisa que neles nunca reparava no Sul, onde tão
frequentemente se encontram.
Peguei
a carta. Faltava-lhe a assinatura. Sem a mínima dúvida era a
escrita de Âni. Nem mesmo faltavam nela o grande ‘S’ em voluta,
nem o ‘T’ francês, a que se havia acostumado no escritório para
irritar o Sr. G.
O
estilo não era o dela. Pelo menos não falava como de costume. Sabia
ela tão amavelmente conversar e rir com seus olhos azuis e seu
gracioso nariz!
Somente
quando discutíamos assuntos religiosos é que ela se tornava mordaz
e caía no rude tom da carta. (Eu própria entrei agora na excitada
cadência da mesma)”
Eis
aí a Carta do Além,
de Âni V., palavra por palavra, tal qual a li no sonho:
CARTA
DO ALÉM
Clara!
Não rezes por mim. Sou condenada. Se te comunico isso e se a
respeito de algumas circunstâncias da minha condenação te dou
pormenorizadas informações, não creias que eu o faça por amizade.
Aqui não amamos a ninguém mais. Faço-o, como “parcela daquele
Poder que sempre quer o Mal e sempre produz o Bem”.
Em
verdade, eu queria também ver-te aqui, onde eu para sempre vim
parar.1
1.
São Tomás de Aquino, Summa
Theologica (S. Th.)
Supplementum (Suppl.),
q. 98, a. 4: “Os réprobos querem que todos os bons
sejam condenados”.
Não
estranhes esta minha intenção. Aqui pensamos todos da mesma forma.
A nossa vontade está petrificada no mal – no que vós chamais
“mal”. Mesmo quando fazemos algo de “bem”, como eu agora,
descerrando-te os olhos sobre o Inferno, não o fazemos com boa
intenção.2
2.
S. Th. Suppl., q. 98, a. 1: “Neles o autodeterminado
querer é sempre de todo perverso”.
Lembra-te
ainda:
Faz
quatro anos que nos conhecemos, em M. Tinhas 23 anos e já
trabalhavas no escritório havia meio ano, quando
lá entrei.
Me
tiravas bastantes vezes de embaraços, me davas, principiante,
frequentes bons avisos. Mas que é que se chama “bom”!
Eu
louvava, então, tua “caridade”. Ridículo… Tuas ajudas
provinham de pura ostentação, como, aliás, eu já suspeitava.
Nós
aqui não reconhecemos bem algum em ninguém!
Conheceste
minha mocidade. Cumpre preencher, aqui, certas lacunas.
Conforme
o plano de meus pais, eu não devia nunca haver existido.
Aconteceu-lhes um descuido, a desgraça da minha concepção.
Minhas
duas irmãs já tinham 15 e 14 anos, quando eu vim à luz.
Oxalá
nunca eu tivesse nascido! Oxalá pudesse eu agora aniquilar-me, fugir
a esses tormentos! Não há volúpia comparável à de acabar minha
existência, como se reduz a cinzas um vestido, sem mesmo deixar
vestígios.3 Mas é preciso que eu exista; é preciso que eu
seja tal como eu me tenho feito: com a falha total da finalidade da
minha existência.
3.
S. Th. Suppl., q. 98, a. 3, r. ib. Ad 3: “Enquanto a
inexistência liberta de uma vida de terríveis castigos, seria ela
para os condenados um bem maior do que sua miserável existência…
Assim desejam a não existência”.
Quando
meus pais, ainda solteiros, mudaram-se da roça para a cidade,
perderam o contato com a Igreja.
Assim
era melhor.
Mantinham
relações com pessoas desligadas da religião. Conheceram-se num
baile e viram-se “obrigados” a casar meio ano depois.
No
ato do Casamento pegaram neles só algumas gotas de água benta,
suficientes apenas para atrair mamãe à Missa domingueira raríssimas
vezes por ano.
Nunca
ela me ensinava a rezar direito. Esgotava-se nos cuidados de cada
dia, ainda que a nossa situação não fosse ruim.
Semelhantes
palavras como rezar, Missa, água benta, igreja, só escrevo com
íntima repugnância, com incomparável nojo. Detesto profundamente
os frequentadores de igreja, assim como todos os homens e coisas em
geral.
Tudo
se nos torna tormento. Cada conhecimento recebido ao falecer, cada
lembrança da vida e do que sabemos, se transforma numa chama
incandescente.4
4.
S. Th. Suppl., q. 98, a. 7,
r.: “Nada há nos réprobos que não lhes seja
matéria e causa de tristeza. … Assim dirigindo sua atenção sobre
coisas conhecidas”.
E
todas essas lembranças nos mostram aquele medonho lado que fora uma
graça que desprezamos. Como isso atormenta! Não comemos, não
dormimos, nem andamos com as pernas. Espiritualmente acorrentados,
nós réprobos, olhamos estarrecidos a nossa vida falhada, uivando e
rangendo os dentes, atormentados e cheios de ódio.
Ouves
tu? Bebemos aqui ódio como água. Odiamos-nos mutuamente.5
5.
S. Th. Suppl., q. 98, a. 4, r.: “Nos réprobos domina
um ódio total”.
Mais
do que tudo, odiamos a Deus. Procuro tornar-te isso compreensível.
Os
Bem-aventurados no Céu devem amá-Lo. Porque O veem desveladamente
em Sua arrebatadora beleza. Isso torna-os indescritivelmente felizes.
Sabemos isso e é esse conhecimento que nos torna furiosos.6
6.
S. Th. Suppl., q. 98, a. 9, r.: “Antes do dia do Juízo
Universal sabem os réprobos que os Bem-aventurados se encontram numa
inefável glória”.
Os
homens, na terra, que conhecem Deus pela criação e revelação,
podem amá-Lo; não são forçados a fazê-lo.
O
crente – furiosa eu te digo aqui – que contempla, meditando,
Cristo estendido na Cruz, O amará.
Mas
a alma de quem Deus se acerca, fulminante, como vingador e
justiceiro, como Quem foi repelido, essa O odeia, como nós O
odiamos.7 Odeia-O com toda a força de sua má vontade.
Odeia-O eternamente. Em virtude da deliberada resolução de ficar
afastada de Deus, com que terminou a vida terrena. E essa perversa
vontade, não podemos revogá-la mais nem jamais queremos revogá-la.
7.
S.Th. Suppl., q. 98, a. 8, ad 1. ib.
a. 5, r.: “Os réprobos só enxergam em Deus o
Castigador e Impedidor (do
mal, que desejam ainda fazer). Mas como só O enxergam
no castigo, efeito da Sua justiça, odeiam-No”.
Compreendes
tu agora por que o Inferno há de ser eterno? Porque a nossa
obstinação nunca derrete, nunca termina.
Forçada
acrescento, que Deus é propriamente ainda misericordioso para
conosco. Disse “forçada”. A razão é esta: ainda que
voluntariamente escrevo esta carta, não me é possível mentir, como
eu bem queria. Assento no papel muitas informações contrariamente à
minha vontade. Também a corrente de injúrias que queria despejar,
tenho de reenguli-la.
Deus
era misericordioso para conosco pelo que não deixou a nossa vontade
produzir e efetivar na Terra todo o mal que desejávamos fazer. Se
Ele nos tivesse deixado a esmo, teríamos aumentado muito a nossa
culpa e castigo. Deixou-nos morrer prematuramente – como a mim –
ou introduziu circunstâncias atenuantes.
Agora
Ele Se nos torna misericordioso porque não nos obriga a nos
aproximar d’Ele, porém, a ficarmos neste lugar distante do
Inferno, diminuindo-nos o tormento.8
8.
S.Th. 1, q. 21, a. 4, ad 1.: “Na condenação dos réprobos
aparece a misericórdia de Deus…, no que os castiga menos do que
merecem”. Em outro lugar nota o Santo Doutor da Igreja, que
isso é o caso sobretudo com os que neste Mundo eram misericordiosos
para com os outros (S. Th. Suppl., q. 99, a. 5, ad 1).
Cada
passo mais perto de Deus dar-me-ia maior sofrimento, do que a ti um
passo mais perto de uma fogueira.
Ficaste
espantada um dia quando te contei, em passeio, o que meu pai me
dissera alguns dias antes da minha primeira comunhão: “Cuida,
Anita, que ganhes bonito vestido; o mais não passará de burla”.
Quase
me teria mesmo envergonhado do teu espanto. Agora rio-me disso. O
mais bem feito, em toda essa burla, era permitir-se a Comunhão
apenas aos doze anos. Eu já estava, então, assaz possuída do
prazer do mundo, que postergava facilmente tudo quanto era religião,
e não levei a Comunhão a sério.
O
novo costume de deixar as crianças receberem a Comunhão aos sete
anos põe-nos furiosos. Envidamos todos os meios para burlar isso,
fazendo crer que para comungar cumpre haver compreensão. É preciso
que as crianças já tenham cometido antes alguns pecados mortais. O
“branco” Deus será menos prejudicial, então, do que recebido
quando a fé, a esperança, e o amor, frutos do Batismo – escarro
sobre tudo isso! – ainda estão vivos no coração da criança.
Lembras-te
que já sustentei esse mesmo ponto de vista na Terra?
Torno
a meu pai. Ele brigava muito com minha mãe. Raras vezes te frisei
isso: tinha vergonha. Ah! Que é vergonha? Coisa ridícula! A nós
tudo nos é indiferente.
Meus
pais não dormiam mais no mesmo quarto. Eu dormia com minha mãe,
papai no quarto ao nosso lado, aonde podia voltar a qualquer hora da
noite. Ele bebia muito e gastou a nossa fortuna. Minhas irmãs
estavam empregadas e precisavam do seu próprio dinheiro, como
diziam. Mamãe começou a trabalhar. No último ano de sua amargurada
vida, papai batia em mamãe muitas vezes, quando não lhe queria dar
dinheiro. Para mim ele era sempre bonzinho. Um dia, contei-te isso e
ficaste escandalizada sobre o meu capricho – e de que não te
escandalizaste em mim? – um dia, pois, devolveu duas vezes sapatos
novos, porque a forma dos saltos não me era bastante moderna.9
9.
Os assinalados traços sobre o pai de Âni e as ocorrências
subsequentes são fatos.
Na
noite em que uma apoplexia vitimou meu pai mortalmente, aconteceu
algo que nunca te confiei, por temer desagradável interpretação de
tua parte. Hoje, porém, deves sabê-lo. Esse fato é memorável,
porque foi pela primeira vez que o meu atual espírito carrasco se
acercou de mim.
Eu
dormia no quarto de minha mãe. Suas respirações regulares
denotavam seu profundo sono.
De
repente ouvi chamar meu nome. Uma voz desconhecida murmurou: “Que
acontecerá, se teu pai morrer?”
Eu
não amava mais meu pai, desde que ele começara a maltratar minha
mãe. Já não amava propriamente ninguém; só me prendia a alguns
que eram bons para mim. – Amor sem intuito natural existe quase só
nas almas que vivem em estado de graça. Nele eu não vivia.
Respondi
assim ao misterioso interlocutor: “Com certeza ele não morre”.
Após
breve intervalo, ouvi a mesma bem compreendida pergunta, sem me
incomodar de saber de onde provinha.
“Qual
o quê! Ele não está morrendo”,
escapou-me teimosa.
Pela
terceira vez fui interrogada: “Que acontecerá se teu pai
morrer?”
– De
relance me surgiu no espírito como meu pai frequentes vezes voltava
para casa meio bêbado, ralhando e brigando com mamãe e quanto ele
nos envergonhava perante os vizinhos e conhecidos!
Gritei,
então, embirrada: “Pois não, é quanto merece! Que
morra!”
Depois,
tudo ficou quieto.
Na
manhã seguinte, quando mamãe foi arrumar o quarto de papai,
encontrou a porta fechada. Ao meio dia abriram-na à força. Papai
encontrava-se meio vestido em
cima da cama – morto, um cadáver. Ao procurar cerveja na adega,
deve ter-se resfriado. Desde muito, estava adoentado.
(Será
que Deus fez depender da vontade de uma criança, a quem o homem
demonstrava bondade, o conceder-lhe mais tempo e ocasião para se
converter?)
Marta
K. e tu me fizeram
ingressar na Associação das Moças. Nunca te escondi que achava as
instruções das duas diretoras, das senhoras X., assaz vigaristas.
Achava os jogos bastante divertidos. Conforme sabes, cheguei, em
breve, a sustentar neles papel preponderante. Isso era o que me
lisonjeava. Também as excursões me agradavam. Deixei-me até levar
algumas vezes a confessar-me e comungar. Propriamente não tinha nada
para confessar. Pensamentos e sentimentos comigo não entravam em
conta. Para coisas piores eu não estava madura ainda.
Admoestaste-me
um dia: “Âni, se não rezares mais, perder-te-ás”.
Eu rezava realmente muito pouco; e também só contrariada, de má
vontade.
Tinhas
tu, sem dúvida, razão. Todos os que no Inferno ardem, não rezaram,
ou não rezaram bastante. A oração é o primeiro passo para Deus.
Sempre decisivo. Principalmente a oração para Aquela que é Mãe de
Cristo, cujo nome não nos é lícito pronunciar. A devoção a Ela
arranca ao Demônio inúmeras almas, que os pecados lhe teriam
infalivelmente atirado às mãos.
Furiosa
continuo, por ser forçada: rezar é o mais fácil que se pode fazer
na Terra. Justamente a esse facilismo Deus ligou a salvação.
A
quem reza com assiduidade, Deus dá, paulatinamente, tanta luz e
fortalece-o tanto que o mais afogado bode de pecador se pode
definitivamente levantar pela oração, ainda que esteja submerso na
lama até ao pescoço.
Nos
últimos anos da vida eu deveras não rezava mais e assim me privava
das graças, sem as quais ninguém pode se salvar.
Aqui
não recebemos mais graça alguma. Mesmo que a recebêssemos, com
escárnio a rejeitaríamos. Todas as vacilações da existência
terrestre acabaram no além.
Na
vida terrena pode o homem passar do estado de pecado para o estado de
graça. Da graça pode cair no pecado. Frequentes vezes cai por
fraqueza; raramente por maldade. Com a morte, terminou essa
inconstância do sim e do não, caindo e levantando-se. Pela morte,
cada um entra no estando final, fixo e inalterável.
À
medida que avança a idade, tornam-se menores os saltos. É verdade
que, até à morte, a gente pode se converter a Deus ou virar-Lhe as
costas. No morrer se decide o homem, entretanto, com as últimas
tremuras da vontade, maquinalmente, tal como se acostumara na vida.
Bom
ou mau hábito tornou-se uma segunda natureza. Esta, o arrasta no
derradeiro momento. Assim também arrastou a mim. Anos inteiros eu
vivera afastada de Deus. Consequentemente, decidi-me no último
chamamento da graça, contra Deus. Não que o haver pecado muita
vezes me fosse uma fatalidade, mas porque eu não me queria mais
levantar.
Repetidas
vezes me admoestaste a assistir à pregação e a ler livros devotos.
Eu escusava-me regularmente com a falta de tempo. Havia eu de
aumentar, ainda mais a minha incerteza íntima?
Cumpre-me,
aliás, firmar:
Quando
cheguei a esse ponto crítico, pouco antes da minha saída da
Associação das Moças, ter-me-ia sido muito difícil enveredar por
outro caminho. Sentia-me insegura e infeliz. Diante da minha
conversão, levantou-se um paredão. Deves tê-lo despercebido. Tu o
tinhas imaginado tão fácil, quando uma vez me disseste: “Faz,
pois, uma boa Confissão, Âni, e tudo ficará bem”.
Eu
suspeitava que assim fosse. Mas o mundo, o Demônio e a Carne já me
seguravam nas suas garras.
Na
atuação do Demônio eu não acreditava nunca. Agora atesto que, as
pessoas como eu era então,
o Demônio influencia poderosamente.10
10.
A influência dos maus espíritos encerra-se nos apelidos “Demônio”
ou “Diabo”. Como comprovação da sua existência bastam dois
textos da Sagrada Escritura: “Irmão,
sede sóbrios e vigiai! Vosso inimigo, o Demônio, anda por aí como
um leão rugindo e procurando a quem puder devorar”.
O rugir não se refere a que Satanás faça muito alarme com suas
tentações, porém, à
avidez com que ele nos procura perder. – São Paulo escreve aos
Efésios: “Ponde a
armadura de Deus, para que possais resistir às astúcias do Demônio.
Nossa luta não é contra a carne e o sangue
(os homens), porém,
contra os poderes dos tenebrosos dominadores deste Mundo e contra os
maus espíritos dos ares”.
Só
muitas orações alheias e as minhas próprias, juntamente, com
sacrifícios e sofrimentos, teriam conseguido me arrancar dele.
E
isso deveras só paulatinamente. Poucos possessos há corporalmente,
porém, tanto mais e inúmeros interiormente possessos. O Demônio
não pode tirar o livre arbítrio àqueles que
se entregam à sua influência. Contudo, como castigo de sua
apostasia quase total de Deus, Este permite que o “Mau” neles se
aninhe.
Odeio
também o Demônio. Todavia gosto dele, porque ele procura
perder-vos: ele e seus auxiliares, os Anjos caídos com ele desde os
princípios do tempo. Há miríades. Vagueiam pela Terra, inúmeros
como enxames de moscas, sem que sejam suspeitados.
A
nós, homens réprobos, não nos incumbe de vos tentar; isso cabe aos
espíritos caídos.11
11.
S. Th. Suppl., q. 98, a. 6, ad 2: “Não é tarefa dos
homens condenados perderem e tentarem outros, porém, dos Demônios”.
Aumentam,
sim, ainda mais os seus tormentos toda vez que arrastam uma alma
humana ao Inferno. Mas, de que não é capaz o ódio!12
12.
S. Th. Suppl., q. 98, a. 4, ad 3: “O crescente número
dos réprobos aumenta ainda os sofrimentos de todos. Mas são de tal
modo, cheios de ódio e inveja, que antes querem sofrer mais com
muitos, do que menos sozinhos”.
Ainda
que eu andasse por veredas tortuosas, Deus me procurava. Eu preparava
o caminho à graça, por serviços de caridade natural, que por
inclinação de minha índole, não raras vezes prestava.
Às
vezes atraía-me Deus para uma igreja. Lá eu sentia certa nostalgia.
Quando cuidava da minha mãe doente, apesar do meu trabalho no
escritório durante o dia, e sacrificava-me realmente um tanto,
atuavam sobre mim poderosamente essas atrações de Deus.
Uma
vez – foi na Capela do hospital, aonde me levaste no tempo livre de
meio dia – fiquei tão impressionada, que me encontrei a um passo
apenas da minha conversão. Eu chorava.
Em
seguida, porém, vinha o prazer do mundo derramar-se, como uma
torrente, por sobre a graça. Os espinhos afogaram o trigo. Com a
explicação de que religião é sentimentalismo, conforme sempre se
dizia no escritório, lancei também essa graça, como outras,
debaixo da mesa.
Repreendeste-me
um dia que, em vez de genuflexão, fiz numa igreja uma ligeira
inclinação da cabeça. Tomaste isso como preguiça e não parecias
suspeitar de que, já então, não acreditava mais na presença de
Cristo no Sacramento. Agora creio nela, porém, só naturalmente,
como se acredita em tempestade, cujos sinais e efeitos se percebem.
Nesse
ínterim, havia-me arranjado, eu própria, uma religião. Agradou-me
a opinião generalizada no escritório, de que, após a morte, a alma
voltaria para este Mundo em outro ser e passaria por outros e mais
outros seres, numa sucessão sem fim. (Doutrina Espírita)
Com
isso liquidei o angustiante problema do além e imaginava tê-lo
tornado inofensivo.
Por
que não me lembraste a parábola do gozador rico e do pobre Lázaro,
em que o narrador, Cristo, imediatamente após a morte, mandou um
para o Inferno, e o outro para o Paraíso? Mas o que terias
conseguido? Nada mais do que com tuas demais palavras beatas.
Aos
poucos eu própria arranjei um deus: bem privilegiado para se chamar
deus; de mim bastante longe para não me obrigar a relações com
ele; assaz confuso, para se transformar, à vontade e sem mudar de
religião, num deus panteístico ou até tornar-me orgulhosa deísta.
Esse
“deus” não tinha um céu para me galardoar nem inferno para
amedrontar-me. Deixei-o em paz. Nisso consistia a minha adoração a
ele.
No
que se ama, acredita-se facilmente. No curso dos anos tinha-me eu
assaz persuadido da minha religião. Vivia-se bem com ela, sem que
ela me incomodasse.
Só
uma coisa me teria quebrado a nuca: uma dor profunda, prolongada. Mas
este sofrimento não veio. Compreende agora: “A quem
Deus ama, Ele castiga”?
Era
num dia de verão, em julho, quando a Associação das Moças
organizava uma excursão para A. Gostava eu, sim, das excursões. Mas
não das beatarias anexas!
Outra
imagem, diferente da de Nossa Senhora das Graças de A. estava, desde
pouco, no altar do meu coração. O grã-fino Max N., do armazém ao
lado. Pouco antes conversáramos divertidamente algumas vezes.
Convidara-me, nessa ocasião, para fazermos uma excursão naquele
mesmo Domingo. A outra com que costumava andar, estava no hospital.
Repara,
sim, que eu tinha deitado um olhar sobre ele. Mas eu não pensava
ainda em casar-me com ele. Era rico, porém, amável demais para com
muitas e quaisquer mocinhas; até então eu queria um homem que me
pertencesse exclusivamente, como única mulher. Certa distância
sempre me era própria.
(Isso
é verdade. Com toda a sua indiferença religiosa, Âni tinha algo de
nobre em seu ser. Espanto-me de que também pessoas “honestas”
possam cair no Inferno, se são assaz desonestas para fugirem do
encontro com Deus).
Nessa
excursão, Max cumulou-me de todas as amabilidades. Conversações de
beatas é que não tivemos, como vocês.
No
outro dia, no escritório, repreendeste-me porque não vos acompanhei
até A. Contei-te os meus divertimentos domingueiros.
Tua
primeira pergunta foi: “Estiveste na Missa?” Louca! Como
podia assistir à Missa, desde que combinamos a saída para 6 horas!
Lembras-te, ainda, que juntei, excitada: “O bom Deus não é tão
mesquinho como os vossos padrecos!”? Agora, cumpre-me
confessar-te que, apesar de sua infinita bondade, Deus toma tudo
mais a sério do que os Padres.
Após
esse primeiro passeio com Max, assisti mais uma só vez à vossa
reunião. Na solenidade de Natal. Certas coisas me atraíam. Mas
interiormente, já estava afastada de vós.
Cinemas,
bailes, excursões, seguiam-se. Brigávamos às vezes, Max e eu, mas
eu sabia prendê-lo sempre a mim.
Mui
desagradável me foi a rival que, de volta do hospital, se comportava
como furiosa. Propriamente a meu favor. Minha calma distinta causou
grande impressão a Max e obrigou-lhe, afinal, a decisão de me
preferir.
Eu
sabia denegri-la, rebaixá-la. Falando com calma: por fora,
realidades objetivas; por dentro, atirando peçonha. Semelhantes
sentimentos e insinuações conduzem rapidamente ao Inferno. São
diabólicos, no verdadeiro sentido da palavra.
Por
que te conto isso? Para constar como fiquei definitivamente livre de
Deus.
Para
esse afastamento não foi preciso que eu chegasse com Max muitas
vezes às últimas familiaridades. Compreendi que me rebaixaria aos
seus olhos, se me deixasse esvaziar antes do tempo. Por isso me
retinha, vedava.
Realmente
estava eu sempre pronta para tudo que achava útil. Cumpria-me
conquistar Max. Para isso nada achava caro demais. Amamo-nos aos
poucos, pois que ambos possuíamos valiosas qualidades que podíamos
apreciar mutuamente. Fui talentosa e tornei-me hábil e conversadora.
Cheguei, assim, a prender Max nas mãos, segura de que o possuía
sozinha, pelo menos nos últimos meses antes do casamento.
Nisso
consistia minha apostasia de Deus, em fazer de uma criatura o meu
deus. Em coisa alguma pode isso realizar-se tão plenamente como
entre pessoas de diferente sexo, se o amor se afoga na matéria. Isso
torna-se seu encanto, seu aguilhão e seu veneno. A “adoração”
que eu me prestava em Max, tornou-se-me uma religião vivida.
Era
no tempo quando, no escritório, tão virulentamente eu caía em cima
das corridas à igreja, dos padrecos, do murmurejar de rosário e das
demais bugigangas.
Empenhaste-te,
mais ou menos inteligentemente, em proteger tudo isso; aparentemente
sem suspeitares de que para mim, em última análise, não se tratava
dessas coisas, mas propriamente de ponto de apoio contra minha
consciência que eu estava procurando – dele eu precisava ainda –
para justificar racionalmente a minha apostasia.
No
fundo eu vivia revoltada contra Deus. Tu não percebias isso. Sempre
me consideravas ainda católica. Como tal, queria eu também ser
chamada, até mesmo pagava a contribuição para a igreja. Certa
“ressalva” não me podia fazer mal, pensava eu.
Por
mais certas que às vezes fossem tuas respostas, de mim ressaltavam,
porque tu não devias ter razão. Em face dessas nossas relações
entrecortadas, a dor da nossa separação era pequena, quando meu
casamento nos distanciou.
Antes
do meu casamento, confessei-me e comunguei mais essa vez. Era uma
formalidade. Meu homem pensava como eu. De resto, por que não
haveríamos de satisfazê-la? Cumprimo-la como qualquer outra
formalidade.
Vós
o chamais “indigno”. Após aquela “indigna” comunhão, eu
tinha mais sossego de consciência. Era essa a última. Nossa vida
matrimonial decorria, em geral, em boa harmonia. Em quase todos os
pontos tínhamos a mesma opinião. Também nisso: não nos queríamos
impor o encargo de filhos. No fundo, meu marido desejava ter um –
naturalmente não mais. Eu soube arrancar-lhe, finalmente essa ideia.
Eu gostava mais de vestidos e mobílias finas, de chás das cinco, de
passeios de automóvel e de semelhantes divertimentos.
Era
um ano de prazeres terrenos entre o casamento e minha repentina
morte.
Cada
Domingo passeávamos de automóvel ou visitávamos parentes de meu
esposo – de minha mão eu me envergonhava então. Esses nadavam
bem, como nós, na superfície da existência.
Interiormente,
porém, nunca me sentia deveras feliz. Algo me roía sempre na alma.
Eu desejava que pela morte, a qual sem dúvida, havia de demorar
muito tempo ainda, tudo acabasse.
Mas
é como em criança eu ouvira uma vez falar, em sermão, que Deus
recompensa já neste Mundo o bem que alguém pratica. Se não pode
recompensá-lo no outro mundo, fá-lo na Terra.
Sem
o esperar, recebi uma herança (da tia Lote). Meu marido teve a sorte
de ver o seu salário consideravelmente aumentado. Assim pude
instalar mimosamente a nossa casa nova.
Minha
religião estava nas últimas, como um vislumbre do ocaso no
firmamento longínquo. Os bares e cafés da cidade e os restaurantes
por onde passávamos nas viagens, não nos aproximaram de Deus.
Todos
os que lá frequentavam, viviam como nós: de fora para dentro, não
de dentro para fora.
Visitando
uma célebre catedral, nas viagens de férias, procurávamos
deleitar-nos com o valor artístico das obras-primas. O sopro
religioso que irradiavam, principalmente as da Idade Média, eu sabia
neutralizá-lo, escandalizando-me em qualquer circunstância da
visita. Assim, a um irmão leigo que nos conduzia, eu criticava o
estar um tanto sujo e desajeitado: criticava o comércio de piedosos
monges, que fabricavam e vendiam licor; criticava as eternas
badaladas de sinos chamando para igrejas, onde se trata apenas de
dinheiro.
Assim
eu conseguia afastar de mim a graça, cada vez que me batia à porta.
Principalmente
deixava meu mau humor derramar-se livremente, sobre tudo que tratava
de antigas representações do Inferno em livros, cemitérios e
outros lugares, onde se viam Demônios fritarem as almas em fogo
vermelho ou amarelo, e seus sócios, de cauda comprida, trazerem-lhe
mais e mais vítimas.
Clara,
o Inferno pode ser mal desenhado, porém, nunca ser exagerado.
Sobretudo,
eu escarnecia sempre do fogo do Inferno. Lembra-te como numa conversa
sobre isso, eu te meti um fósforo aceso debaixo do nariz burlando:
“É assim que cheira!”?
Tu
apagaste tão logo a chama. Aqui ninguém a extingue. – Digo-te
mais: o fogo de que fala a Bíblia, não significa tormento de
consciência. Fogo significa fogo. Cumpre entendê-lo em sentido
real, quando Aquele declarou: “Afastai-vos de Mim, vós,
malditos, ide para o fogo eterno”. Literalmente!
– Como
pode o espírito ser tocado pelo fogo material? Perguntas.
– Como
então pode, na Terra, tua alma sofrer, segurando teu dedo na chama?
– Tua
alma também não se queima, mas que dor tem de aturar o homem todo!
Semelhantemente
estamos nós aqui presos ao fogo em nosso ser e em nossas faculdades.
Nossa alma fica privada do seu voo natural, não podemos pensar nem
querer o que queremos.13
13.
S. Th. Suppl., q. 70, a. 3, r.: “O fogo do Inferno atormenta
o espírito pelo que o impede de executar o que quer; não pode atuar
onde quer e quanto quer”.
Não
procures esclarecer o Mistério contrário às leis da natureza
material: o fogo do Inferno queima sem consumir.
O
nosso maior tormento consiste, em que sabemos exatamente que nunca
veremos Deus.
Quanto
pode torturar o que na Terra nos era indiferente! – Enquanto a faca
está em cima da mesa, deixa-te fria. Vês-lhe o fio, porém, não o
sentes. Mas entra a faca na carne e gritarás de dor.
Agora
sentimos a perda de Deus; antes só a vimos.14
14.
“A separação de Deus, é um tormento tão grande como Deus”
(frase atribuída a Santo Agostinho. Cfr. Houdry, Bibliotheca
concionatorum, Veneza. 1786, vol. 2, sob Infernus, § 4, p. 427).
Todas
as almas não sofrem igualmente. Quanto mais alguém foi frívolo,
maldoso e decidido no pecar, tanto mais lhe pesa a perda de Deus,
tanto mais torturado se sente pela criatura abusada.
Os
católicos condenados sofrem mais do que os de outras crenças,
porque receberam e desaproveitaram, em geral, mais luzes e mais
graças.
Quem
sabia mais, sofre mais do que aqueles que menos conhecimentos tinha.
Quem
pecou por maldade sofre mais do que aquele que caiu por fraqueza.
Mas
nenhum sofre mais do que mereceu. Oxalá isso não fosse verdade,
para que eu tivesse motivo para odiar!
Tu
me disseste um dia: ninguém cai no Inferno sem que o saiba. Foi isso
revelado a uma Santa. Ria eu disso, no entanto, me entrincheirava
atrás desta reflexão: nesse caso me ficaria suficiente tempo para
me converter – assim eu pensava no íntimo.
O
enunciado calha. Antes do meu fim repentino, decerto não conhecia o
Inferno tal qual é. Nenhum ente humano o conhece. Mas eu estava
exatamente inteirada disso: Se tu morreres, entrarás na eternidade
como revoltada contra Deus. Suportarás as consequências.
Conforme
declarei já, não voltei atrás, mas perseverei na mesma direção,
arrastada pelo costume, com que os homens agem tanto mais calculada e
regularmente, quanto mais velhos ficam.
Minha
morte ocorreu do modo seguinte:
Há
uma semana – falo de acordo com vossa contagem, porque, calculada
pelas dores, eu poderia já estar ardendo no Inferno havia dez anos –
faz pois uma semana que meu marido e eu fizemos, num Domingo, uma
excursão, que foi a última para mim.
Radiante
despontara o dia. Eu sentia-me bem, como raras vezes. Perpassou-me,
porém, um sinistro pressentimento.
Inesperadamente,
na viagem de volta, meu marido que vinha guiando o carro e eu ficamos
ofuscados pela luz de um automóvel que vinha em sentido contrário e
com grande velocidade. Meu marido perdeu a direção.
Jesus!
Estremeci. Não como oração, mas como grito. Senti uma dor
esmagadora por compressão – uma bagatela em comparação com o
tormento atual. Perdi então os sentidos.
Estranho!
Naquela manhã mesma, nascera-me inexplicavelmente a ideia: poderias,
enfim, mais uma vez ir à Missa. Soava-me como súplica. Claro e
decidido, meu “não” cortou o fio da ideia. Com isso devo
acabar definitivamente. Tomo sobre mim todas as consequências. Agora
as suporto.
O
que aconteceu após a minha morte, tu conheces. A sorte de meu
marido, de minha mãe, do meu cadáver e enterro, tudo te é
conhecido até nos pormenores, como sei por uma intuição natural
que todos nós temos. Do mais que acontece no Mundo, só temos um
conhecimento confuso. Mas o que nos tocava de perto conhecemos. Assim
conheço também teu paradeiro.15
15.
S. Th. Suppl., q. 98, a. 3: “As almas dos falecidos não têm
seguro conhecimento de pormenores, porém, apenas um enuviado
conhecimento geral da natureza material”.
S.
Th. Suppl., q. 98, a. 4: “Por esses conceitos
(infusos) podem as almas só conhecer os pormenores pelos quais
são habilitados, seja por índole, por estudos ou por divina
disposição”.
Acordei
das trevas no momento da minha morte. Vi-me de repente envolvida de
luz ofuscante. Era no mesmo lugar onde estava o meu cadáver.
Aconteceu como em teatro, quando de repente apagam as luzes, a
cortina é ruidosamente removida e aparece a cena tragicamente
iluminada: a cena de minha vida.
Como
num espelho, assim eu vi minha alma. Vi as graças pisadas aos pés,
desde a juventude até o último “não” dado a Deus.
Apossou-se
de mim uma impressão como que de assassino levado ao tribunal à
frente da sua vítima inanimada. – Arrepender-me? Nunca!16 –
Envergonhar-me? Jamais!
16.
S. Th. Suppl., q. 98, a. 2, r: “Os maus não se
arrependem propriamente dos pecados, por lhes serem afeitos
maliciosamente. Arrependem-se, porém, enquanto são castigados pelas
penas dos pecados”.
Entretanto,
nem me era possível permanecer na vista de Deus, negado e reprovado
por mim. Restava-me uma só coisa: a fuga.
Assim
como Caim fugiu do cadáver de Abel, assim minha alma se atirou longe
desse aspecto horrível.
Esse
era o Juízo Particular.
O
invisível Juiz falou: “Afasta-te!” Logo caiu minha
alma, como uma sombra sulfúrica, no lugar do tormento eterno!17
17.
“É certo que o Inferno é um local determinado. Mas onde esse
local fica situado, ninguém o sabe”.
A
eternidade das penas do Inferno é um dogma: seguramente o mais
terrível de todos. Tem suas raízes na Sagrada Escritura. Cfr. Mat.
25, 41 e 46; II Tes. 1, 9; Jud. 13; Apoc. 14, 11; 20, 10; todos eles
são textos irrefutáveis, em que “eterno” não se deixa trocar e
interpretar por “longo”.
Se
não fosse conveniente ilustrar esse dogma num caso particular, nem o
próprio Nosso Senhor teria podido fazê-lo na parábola do rico
folgazão e do pobre Lázaro. Lá fez o mesmo que aqui vem feito:
desenhou o Inferno e como se pode cair nele. Não o fez por prazer
sensacional, porém, levado pela mesma intenção que ocasionou esta
publicação.
A
finalidade deste opúsculo encontra sua expressão no seguinte
conselho: “Desçamos ao Inferno ainda vivos, para que moribundos
nele não caiamos”. – Este conselho dirigido a cada um não é
senão a paráfrase do Salmo 54: “Descendant in infernum
viventes, videlicet, ne descendant morientes”, a qual se
encontra numa obra (erradamente) atribuída a São Bernardo (Patr.
Lat. Migne, vol. 184, Col. 314 b).
“Deus
só basta”. Sim, Ele há de me bastar, neste e no outro mundo.
Quero ali possuí-Lo um dia, por mais sacrifícios que aqui eu tenha
ainda de fazer para vencer. Não quero cair no Inferno”.
APÊNDICE
Esclarecimentos
Complementares
1.
Confirmações do terrível Dogma do Inferno.
a)
Existe o Inferno? –
Provas pedidas ao Bom Senso. –
Pe. Lacroix – Editora S. C., Taubaté – Eis o primeiro opúsculo
original que apareceu entre nós sobre o palpitante problema do
Inferno (1ª edição em 1929 e 2ª em 1937), com 231 págs., de
formato médio (15 X 11 cm). Trata do assunto profunda e sumariamente
em doze capítulos, dando em confirmação ao Dogma do Inferno quatro
provas filosóficas, tiradas do bom senso, e respondendo
satisfatoriamente a doze perguntas ou objeções.
Como
cada Dogma da Igreja tem suas razões filosóficas, tiradas do bom
senso humano, e como correm mundo, de boca a boca, os mesmos sofismas
contra a existência do Inferno, cuidou
o autor em salientar, sobretudo, as razões opostas do bom senso
comum e examinar, em seguida, o valor das provas aduzidas. Por fim,
expõe, co cap. IX, a universalidade da crença no Inferno e, no cap.
X, a respectiva doutrina do Cristianismo.
Em
abono da crença geral no Inferno entre os Judeus, cita o autor os
seguintes tópicos da Bíblia: Moisés (Deut. 32, 22), Jó (c. 10),
Judite (16, 21), Isaías (33, 14; 34, 24), Jeremias (23, 40), Daniel
(12, 2) e São João Batista (Mat. 3, 12), e conclui: “Eis
aí testemunhos de grande valor, alguns dos quais de veneranda
antiguidade. Muitos séculos, pois, antes da história grega e
latina, já existia a crença no Inferno, sendo que os Livros
Sagrados falam nele muitíssimas vezes como uma verdade reconhecida
por todos, ao menos por todos os crentes”.
Estendia-se
a crença no Inferno (Tártaro) e no Purgatório a todos os povos
pagãos do mundo antigo. Quanto mais progrediram na cultura, tanto
mais documentos deixaram dessas crenças, desde os Assírios, Caldeus
e Egípcios até os Gregos e Romanos. Muitos poetas e escritores
falaram dessa crença geral entre eles, senão da própria
universalidade dessa crença entre todos os povos do mundo. O autor
cita os seguintes: Homero, Orfeu, Hesíodo, Lino, Horácio, Ovídio,
Virgílio, Seneca etc.; Sócrates, Platão, Aristóteles, Cícero,
Lucrécio, Celso. Eis, como exemplo, um trecho impressionante de
Lucrécio:
“Já
não se tem mais sossego, é impossível dormir tranquilo: por quê?
Porque se tem que recear, depois desta vida, penas eternas, pelo medo
das quais nenhum mortal pode ser feliz…”.
–
O
ímpio
Voltaire confessa:
“A
opinião da existência tanto de um Purgatório quanto de um Inferno
é da mais remota antiguidade”.
– Surgindo
subterfúgios em contrário cumpre não esquecer as palavras de
Joubert:
“Desde
que um raciocínio ataca o instinto e a prática universal, pode ser
difícil refutá-lo, mas certissimamente é enganador e falso”.
No
Novo Testamento salienta-se a crença na existência do Inferno como
uma das verdades fundamentais da Religião de Cristo. Nosso Senhor
não assinalou essa verdade só duas ou três vezes e
superficialmente, porém, quinze vezes, e isso do modo mais explícito
e impressionante, como em Marcos,
Lucas,
e Mateus.
Também os Apóstolos se referiram repetidas vezes ao castigo do fogo
eterno, como São Judas,
São Paulo,
e São João.
No sentido óbvio de todos esses textos existe, insofismavelmente, o
fogo eterno do Inferno.
b)
Cristo e os
Demônios
– Dr. P. Armando Polz (171 págs. De formato francês). Editora S.
C. J., Taubaté – O assunto
Demônios é correlativo ao do Inferno. Se existem espíritos
condenados por Deus ao castigo eterno do Inferno, e se esses procuram
arrastar consigo, na perdição eterna, o maior número possível de
homens, claro é que deve existir, para todos os réprobos, como que
uma imensa cadeia infernal, tal como a aponta a fé cristã, um
braseiro de tormentos eternos e horríveis.
Na
introdução, o autor dá uma orientação geral acerca do assunto,
expondo a crença pagã, judaica e cristã sobre os Demônios.
Quem
deve perfeitamente conhecer os Demônios não é senão o próprio
Deus e Nosso Senhor Jesus Cristo. De inúmeros textos da Sagrada
Escritura tira e concretiza o autor a palavra de Cristo sobre os
Demônios. Na 1ª parte assinala nove características dos Demônios;
na 2ª parte prova o triunfo de Cristo sobre eles todos. Da absoluta
superioridade de Cristo sobre o Demônio tira o autor a última
conclusão da incontestável Divindade de Cristo.
Se,
pois, existem os Demônios, tais quais o próprio Cristo os pintou,
como inimigos de Deus e dos homens, deve existir o Inferno, ao qual
todos eles estão condenados para sempre, juntamente com os homens
seduzidos por eles e revoltados contra Deus.
2.
No caminho do Inferno estão os ímpios e os pecadores.
Os
ímpios vêm a ser chamados também os sem-Deus. Nada querem saber de
Deus, nem de Cristo e de sua Religião. Chegam mesmo a odiá-Los e
persegui-Los. Formam o imenso exército de Satanás neste Mundo. A
eles pertencem, como chefes invisíveis, a Maçonaria e as similares
sociedades secretas. A ele pertencem todos os niilistas, anarquistas,
bolchevistas e comunistas militantes do Mundo. A ele pertencem todos
os sem-Deus, que O negam teórica ou praticamente e vivem sem Ele.
Inúmeros estão nessa condição. A consequência é fatal: como
nada querem saber de Deus durante a vida e perseguem a Religião o
mais que podem, sua sorte eterna não pode ser senão a dos sem-Deus,
a serem relegados ao Inferno e atormentados pelos Demônios por toda
a eternidade.
No
caminho do Inferno estão igualmente todos os pecadores impenitentes.
São Paulo preveniu:
“Não
vos enganeis: nem os ímpios, nem os idólatras, nem os ladrões, nem
os avarentos, nem os ébrios possuirão o Reino do Céu”.
Além
dos pecados de ação, há os de omissão, deixando-se de cumprir
graves obrigações de estado ou de profissão, do estado
Matrimonial, Sacerdotal ou Religioso, da profissão exercida ou do
cargo assumido. Ninguém pode dispensar-se do seu cumprimento. Daí
resulta na vida de cada um, a possibilidade de cometer numerosos
pecados mortais, por pensamentos, palavras e obras, pecados de
orgulho, de injustiça e de luxúria.
Se
o pecado em si merece o castigo do Inferno, só atira ao mesmo, caso
não seja retratado, arrependido e reparado, como acontece na
Impenitência
Final
do homem que morre em seu pecado ou impenitente. Errar e pecar é
humano, mas obstinar-se no erro e perseverar no pecado, é diabólico.
Se no momento de pecar o homem se deixa facilmente fascinar pelo
deleite pecaminoso, logo depois de cometido o pecado, os olhos se lhe
abrem e volta-lhe o bom-senso; ele sente-se então naturalmente
envergonhado e levado ao arrependimento. Se pelo contrário, ele se
obstinar no pecado, tanto mais culpado ele se torna. A obstinação
no mal é um pecado contra o Espírito Santo. O adiamento da
conversão leva muitíssimas vezes ao sumo castigo da Impenitência
Final e
consequentemente ao Inferno.
N.
B.
– Como dedução lógica do que vem exposto, cumpre finalmente
notar que, além dos declarados inimigos de Deus, cairão fatalmente
no Inferno todos os que desse nada quererem ouvir, ler e saber, e que
com Ele não se importam e vivem como se Ele não existisse.
3.
Alternativa fatal.
Deus
colocou o homem num mundo de maravilhas que o encantam, com a ordem
de dominar as criaturas, de usá-las sem abusar delas, de dar a Ele o
que Lhe deve, de adorá-Lo, glorificá-Lo sobre tudo, e de amar o
próximo como a si mesmo. Deu-lhe suficiente inteligência, para
discernir o bem do mal, e suficiente força para evitar o mal e
praticar o bem. Pela oração oferece-lhe quantas graças ele
precisar, para cumprir o seu destino.
Enquanto
o homem vive na Terra, acha-se atirado entre dois extremos, entre a
definitiva posse de Deus no Céu e a sua definitiva perda no Inferno.
Cumpre-lhe escolher entre o Sumo Bem e Sumo Mal. Por sua vida
revela-se pró ou contra Deus, amigo de Deus ou revoltado contra Ele.
Se o homem preferir os bens perecíveis deste Mundo às recompensas
espirituais do outro, perderá todos eles, os destes e os do outro
undo. No fim da vida ficará relegado ao extremo oposto a Deus,
entregue aos Demônios e abandonado aos mais horríveis tormentos do
Inferno.
Cada
dia da sua vida encontra-se o homem de novo nesta terrível
alternativa, quanto a sua sorte definitiva e eterna. A essa
alternativa ninguém pode fugir. Para todos é a fatalidade final. Ao
morrer, cada um receberá a recompensa do que tiver preferido em sua
vida terrestre, cada dia mais seguramente: ficará com Deus no Céu
eternamente, ou ficará relegado ao Inferno, para o lugar da
reprovação eterna e de tormentos sem fim. Ninguém escapará a esse
dilema, a essa alternativa fatal. Ninguém fugirá das mãos de Deus.
Diante de Deus, não há fuga possível, senão para Ele.
4.
Temor e amor de Deus.
Antes
de tudo insistiu Nosso Senhor para com seus ouvintes na indispensável
necessidade do santo temor a Deus. Basta
lembrar o texto de São Mateus:
“Não
temais aos que podem trucidar o corpo, mas não podem matar a alma.
Muito antes temei Aquele que pode atirar corpo e alma ao Inferno”.
–
O
papel que na vida espiritual cabe ao temor a Deus é básico:
“É
a última barreira contra a qual vem esbarrar a violência da
tentação. Se ela ficar firme, o homem se salva do naufrágio do
pecado. Se ela não resistir, torna-se ele vítima da própria
perversidade”.
“O
temor de Deus é o início da sabedoria”.
O
temor e o amor a Deus não se excluem, mas superpõem-se e
completam-se mutuamente. Entre ambos há mais o motivo de interesse.
Temor, interesse e amor, lícitos ou ilícitos, são os três únicos
motivos que põem e mantêm o Mundo inteiro em movimento. Se o amor a
Deus não é suficiente para levar o homem a cumprir a Lei de Deus,
restam os dois primeiros motivos, o do próprio interesse e o do
temor a Deus. Esse é o último recurso de Deus para obrigar o homem
a andar direito e cumprir os seus deveres. Deus aceita o serviço e o
arrependimento humanos inspirados pelo temor reverencial ou filial,
como também os inspirados pelo medo ao castigo, pelo que o pecador
se afasta realmente do pecado, porque ofende e irrita a Deus. Fora da
Confissão, só vale a contrição perfeita de amor a Deus para se
obter perdão. Resulta daí o imenso benefício e a imensa vantagem
que a Confissão oferece aos Católicos.
Foi
por amor ao homem, que Deus criou o Mundo com todas as suas belezas.
Foi por amor, que Deus destinou o homem a
viver um dia juntamente com Ele no Céu, em companhia de todos os
Anjos e Santos. No entanto, o homem devia querer e merecer essa
felicidade, e tornar-se digno da companhia divina por uma adequada
vida e felicidade a Deus. Esta é a razão do estado transitório do
homem e da provação a que ele está submetido neste Mundo até a
sua morte. O próprio Inferno, Deus o criou por amor aos homens, para
obrigar-nos e quase forçar-nos a amá-Lo devidamente. Mas quem se
recusar a se render ao amor de Deus e obstinar-se por maldade em
servir aos ídolos da Terra, perderá fatalmente o Céu com a eterna
felicidade, e cairá no Inferno de tormentos eternos. Enquanto,
porém, o homem continuar a viver beste Mundo, Deus procura, sem
cessar, atraí-lo para Si e convertê-lo, oferecendo-lhe a graça e o
perdão. De braços abertos acolherá a qualquer momento o filho
pródigo contrito, com suma bondade e misericórdia.
5.
Ilimitada confiança na infinita bondade e misericórdia de Deus.
Ensinar-te-ei
os meus segredos de amor, e tu serás exemplo vivo da minha
Misericórdia, porque, se tenho tanto amor e predileção por ti que
não és mais que miséria e nada, que não farei Eu por muitas
outras almas mais generosas do que tu?
Farei
conhecer que a minha obra repousa sobre o nada e a miséria, e que
esse é o primeiro anel da cadeia de amor que desde toda a
eternidade preparo às almas.
Farei
conhecer até que ponto o meu Coração as ama e lhes perdoa. Vejo o
íntimo das almas. … O ato de humildade que fazem reconhecendo sua
fraqueza. … Pouco se Me dá a fraqueza delas. … Supro o que lhes
falta.
Farei
conhecer como é que o meu Coração se serve dessa fraqueza para dar
a vida a muitas almas que a perderam. Farei
conhecer que a medida do meu Amor e da minha Misericórdia para com
as almas caídas não tem limites. …
Se
tu és um abismo de miséria, Eu sou um abismo de Bondade e
Misericórdia. O meu Coração é teu refúgio. Vem procurar nele
tudo aquilo de que precisas, ainda mesmo que se trate de coisa que Eu
te peça.
Não
julgues que deixarei de te amar por causa das tuas misérias, não:
meu Coração te ama e não te abandonará jamais. Bem sabes que é
propriedade do fogo, abrasar e destruir: assim é próprio do meu
Coração perdoar, purificar e amar.
Não
te disse muitas vezes que, o meu único desejo é que as almas Me
deem as suas misérias? Se não ousas aproximar-te de Mim,
aproximar-Me-ei Eu de ti.
Quanto
mais fraquezas encontrares em ti, tanto mais Amor encontrarás em
Mim. Pouco Me importam as tuas misérias, o que Eu quero é ser o
Dono de tua miséria.
A
tua pequenez dá lugar à minha grandeza. … A tua miséria e mesmo
os teus pecados dão lugar à minha Misericórdia. … A tua
confiança atrai o meu Amor e a minha Bondade.
Não
vos peço senão aquilo que tendes. Dai-Me o vosso coração vazio e
Eu o encherei; dai-Mo despido de tudo e Eu o revestirei; dai-Me as
vossas misérias e Eu as consumirei. O que não vedes, Eu vo-lo
mostrarei!… Pelo que não tendes, responderei Eu.
Há
muitas almas que creem em Mim, mas poucas que acreditam no meu Amor;
e, entre as que acreditam no meu Amor, são pouquíssimas as que
contam com a minha Misericórdia. …
Se
peço amor em correspondência ao que Me consome, não é o único
retorno que desejo das almas: desejo que creiam na minha
Misericórdia, esperem tudo da minha Bondade, e não duvidem nunca do
meu perdão.
Sou
Deus, mas Deus de Amor! Sou Pai, mas Pai que ama com ternura e não
com severidade. O meu Coração é infinitamente Santo, mas também é
infinitamente sábio e, como conhece a miséria e a fragilidade
humanas, inclina-se para os pobres pecadores com Misericórdia
infinita.
Amo
as almas depois que cometeram o seu primeiro pecado se vêm pedir-Me
humildemente perdão. … Amo-as ainda, quando choram o seu segundo
pecado e, se isso se repete, não digo um bilhão de vezes, porém,
milhões de bilhões de vezes, amo-as e perdoo-lhes sempre e lavo no
meu Sangue o último, como o primeiro pecado!
Não
Me canso das almas e o meu Coração espera sempre que venham
refugiar-se n’Ele, por mais miseráveis que sejam! Não tem um pai
mais cuidadoso com o filho que é doente, do que com os que têm boa
saúde? Para com esse filho, não são maiores as suas delicadezas e
a sua solicitude? Assim também o meu Coração derrama sobre os
pecadores, com mais liberalidade do que sobre os justos, a sua
compaixão e a sua ternura.
Quantas
almas encontrarão a vida nas minhas palavras! Quantas cobrarão
ânimo ao ver o fruto dos seus esforços: um pequeno ato de
generosidade, de paciência, de pobreza, pode vir a ser um tesouro e
ganhar para o meu Coração um grande número de almas. … Eu não
atendo à ação: atendo à intenção. O menor ato, feito por amor,
pode adquirir tanto mérito e dar-Me tanta consolação! O meu
Coração dá valor divino às menores ações. O que quero é amar.
Não procuro senão amor. … Não peço senão amor.
O
fogo eterno do Inferno será a merecida paga pelo Amor de Deus
desprezado, calcado aos pés.